Na passada segunda-feira, o Presidente dos EUA, Donald Trump, teve uma agenda cheia: respondeu aos jornalistas na Sala Oval, recebeu a equipa campeã nacional de futebol americano universitário na Casa Branca, jantou com forças de segurança no renovado Jardim das Rosas da Casa Branca. Mas, nessa segunda-feira à noite e pela madrugada de terça-feira, ainda encontrou tempo para outra atividade que raramente fica por concretizar: publicar e republicar publicações na sua conta na rede social Truth Social.
No entanto, nesse dia, a atividade online foi particularmente intensa. Entre ataques ao ex-presidente Barack Obama e à ex-adversária presidencial Hillary Clinton, acusações de fraude nas eleições de 2020 ou pedidos de prisão para opositores políticas, Donald Trump fez 55 publicações em cerca de três horas, entre as 22h14 e as 1h12, hora de Washington (mais cinco horas em Portugal continental).
A sequência de publicações começou com uma acusação contra Barack Obama. O Presidente dos EUA publicou um outro post — de uma conta de apoiantes (a America First Now) — acusando o ex-chefe de Estado de ter conspirado com a CIA, os serviços secretos norte-americanos, para tentar “roubar a eleição de 2016”, que Trump viria a ganhar. Segundo o texto, que Trump partilhou sem fazer nenhum comentário, “Barack Obama e seu fantoche da CIA, John Brennan, inventaram toda a ‘farsa da Rússia'”, para influenciar a eleição e “derrubar um presidente Trump devidamente eleito”.
Trump partilhou publicações que pedem prisão de Barack Obama
A publicação classifica o suposto esquema em torno das eleições de 2016 como uma “traição” e pede a prisão de Obama.”Isso não é conspiração — é traição. Por quanto tempo ainda vamos deixar esses criminosos soltos? É hora de justiça de verdade. Prendam-nos”, pode ler-se. Esta foi apenas a primeira das 17 publicações visando Barack Obama nessa noite. Logo a seguir, às 22h15, Trump voltou a partilhar uma outra publicação, em que Obama é, de novo, acusado de ter trabalhado com a CIA para descredibilizar as eleições de 2016, classificando a interferência russa nas eleições como “farsa”. “Prendam Obama, o traidor”, comenta um outro utilizador, cujo comentário foi também partilhado por Trump.
No entanto, as alegações em causa carecem de sustentação factual. Em julho de 2025, a diretora dos Serviços Secretos dos EUA, Tulsi Gabbard, divulgou um relatório anteriormente confidencial que, referiu a própria, aponta para uma “conspiração traidora” para minar os resultados da eleição presidencial de 2016. O documento, elaborado por republicanos do Comité de Serviços Secretos da Câmara, contesta a conclusão, divulgada anteriormente por diversos relatórios dos serviços secretos (incluindo um da CIA), de que a Rússia procurou ajudar Donald Trump na eleição.
Quando divulgou o relatório, Gabbard tentou ligar a aparente “conspiração” de 2016 à Administração Obama, ameaçando encaminhar o documento ao Departamento de Justiça para que os funcionários dessa Administração pudessem ser acusados pelos suas ações em 2016, mas deu poucos detalhes sobre os supostos crimes que terão cometido, lembra a BBC. Apesar de concluir que a CIA cometeu erros na análise, o documento elaborado no Congresso apresenta poucas evidências que contradigam a visão predominante nos serviços secretos de que a Rússia tentou influenciar a votação a favor de Trump, rejeitando, por isso, a ideia de “farsa” em que Trump agora insiste.
Sete minutos depois, às 22h22, o Presidente dos EUA volta a um dos seus temas preferidos: a alegada fraude nas eleições de 2020, nas quais foi derrotado por Joe Biden. Na publicação, Trump republica um post, em que um utilizador alega que, em 2020, foram eliminados mais de dois milhões de votos em Trump e transferidos centenas de milhares de votos de Trump para Joe Biden.
Presidente dos EUA continua a defender tese de fraude eleitoral nas eleições de 2020
“Um estudo da Edison confirma: os estados que usam os sistemas de votação Dominion [uma empresa que fornece máquinas de votação eletrónica] transferiram 435.000 votos de Trump para Biden. A Dominion apagou 2,7 milhões de votos de Trump em todo o país, incluindo mais de um milhão na Pensilvânia, transferidos do Presidente Trump para Biden”, lê-se na publicação. Mais uma vez, esta teoria (que se arrasta desde o ano da eleição) não corresponde à realidade. Poucos dias depois das presidenciais de 2020, a Edison Research esclareceu: “não elaborámos nenhum relatório desse tipo e não temos conhecimento de nenhuma fraude eleitoral”.
Ainda ao início da noite, nova republicação sobre a alegada fraude eleitoral. “O Condado de Fulton [na Geórgia, um dos swing states] admitiu que 315 mil votos de 2020 NÃO tinham assinaturas dos trabalhadores. Rudy Giuliani [ex-advogado de Trump] foi destruído com 148 milhões de dólares em multas por contestar a eleição. É tempo de devolver ao Rudy o seu dinheiro”. Em dezembro de 2025, as autoridades do Condado de Fulton admitiram o erro nos boletins, que admitiram ser constituir violação das normas federais. No entanto, o o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, minimizou a situação, garantindo que não alterou os resultados da eleição, que foi amplamente auditada. Recorde-se que Joe Biden ganhou aquele estado por uma diferença de apenas 11 mil votos em 2020.
Às 22h23, Trump voltou a visar Obama, partilhando uma publicação duplamente falsa. “O senador dos EUA John Kennedy está agora a exigir publicamente que Barack Hussein Obama devolva 120 milhões de dólares que ele supostamente ganhou através do direito de propriedade relacionado com o Obamacare. ‘Ele alocou dinheiro ao abrigo das suas próprias leis’, disse Kennedy, classificando isso como ‘um abuso de cargo público e influência flagrante'”, pode ler-se. Mas não só o senador republicano John Kennedy (eleito pelo Louisiana) não proferiu tais declarações — como o próprio confirmou — como a teoria de que Obama recebeu milhões de euros anuais por causa do programa Obamacare é falsa, e já foi desmentida, nomeadamente pela agência AFP.
Um minuto depois, às 22h24, o Presidente dos EUA acusa Obama, através da outra republicação, de ter colocado escutas na Trump Tower durante as eleições de 2016, algo que é classificado como “um milhão de vezes pior do que qualquer coisa que [o ex-presidente] Nixon fez durante o Watergate”. “É hora de prender o Renegado“, diz a publicação, referindo-se a Barack Obama. Em 2017, quando a alegação já circulava, o Departamento de Justiça esclareceu não haver provas para suportar tal teoria.
Logo de seguida, o Presidente dos EUA foca-se noutro dos seus adversários políticos: o senador democrata Mark Kelly, do Arizona, que é acusado, numa publicação de um apoiante de Trump, de ser um “traidor”. “O Senador Mark Kelly está a enfrentar pedidos para RENUNCIAR ou ser EXPULSO e investigado criminalmente após o Secretário Pete Hegseth revelar que ele provavelmente DIVULGOU INFORMAÇÕES SIGILOSAS para as fake news. O tópico: STOCKS DE ARMAS, informações que ajudam os nossos inimigos. Ele é um TRAIDOR ROTINEIRO!“, lê-se na publicação.
Na segunda-feira, o Secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou que o Pentágono está a analisar as declarações de Mark Kelly, que, numa entrevista à CBS, dissera que os stocks de mísseis e sistema de interseção de mísseis norte-americanos diminuíram drasticamente na sequência da guerra no Irão — uma informação que a Casa Branca considera confidencial mas que o senador garante ter sido transmitido pelo Secretário da Defesa em público.
Apoiado numa publicação que difunde teorias não comprovados, às 22h29 Trump ataca a anterior Administração norte-americana, alegando que nem o ex-presidente Joe Biden nem a ex-vice-presidente Kamala Harris estavam aos comandos do país. “O PODER REAL por trás do trono? Hillary Clinton, Barack Obama, Antony Blinken, Jake Sullivan e a cabala do Deep State — assinando documentos com uma “caneta automática” enquanto afundavam o país. Membros não eleitos e beneficiadores de guerras eternas manipulando os cordelinhos o tempo todo. Foi por isso que a América estava à beira do abismo”, lê-se na publicação.
Eram 22h30 quando Donald Trump pede, através de uma outra republicação, a prisão de mais um opositor: o ex-procurador Jack Smith, que liderou duas investigações criminais contra o atual Presidente dos EUA, uma sobre a conspiração para alterar o resultado das eleições presidenciais de 2020 e outra sobre a apropriação de documentos confidenciais depois de Trump deixar a Casa Branca. “Nunca se esqueçam de que os Democratas prenderam um Presidente dos EUA, os seus advogados, o seu gestor de campanha, os seus contabilistas, os seus aliados na imprensa e seu mordomo por coisas falsas e inventadas. Jack Smith DEVE ser responsabilizado, ou voltará a acontecerá repetidamente. Prendam-no!!“, lê-se na publicação.
Publicação pede envio de Hillary Clinton para o Haiti. Trump partilhou
Depois de voltar a acusar Barack Obama e Hillary Clinton de cometerem crimes, Trump republica uma publicação que pede que a sua adversária democrata na corrida presidencial de 2016 seja enviada para o Haiti, depois de ter sido alegadamente descoberto que milhões de dólares alocados pelos EUA à Comissão de Reconstrução do Haiti (criada na sequência do sismo de 2010) foram desviados para a Fundação Clinton — uma alegação que a Fundação Clinton desmentiu, e que a imprensa norte-americana também concluiu não ser sustentada em factos.
Às 22h39, e em jeito de resposta a uma publicação que questiona o atual procurador-geral interino, Todd Blanche, sobre por que razão não avança com algumas detenções, Trump garante: “eles estão a trabalhar no duro”. Logo a seguir, o Presidente dos EUA republica uma publicação no mesmo sentido. “Quando raio é que os vai indiciar, Todd Blanche? Vemos o [James] Comey [ex-diretor do FBI, critico de Trump, que já foi acusado pelo Departamento de Justiça]. Não vemos o John Brennan [ex-diretor da CIA]. Nós não vemos a Hillary. Nós não vemos o Obama. Está na hora de vermos a JUSTIÇA!“. Recorde-se que Donald Trump nunca escondeu a intenção de usar o Departamento de Justiça para levar a cabo vinganças políticas. O Presidente dos EUA demitiu a ex-procuradora-geral Pam Bondi precisamente porque esta não conseguiu avançar com processos contra Comey e outros adversários políticos de Trump, segundo o Guardian. A acusação contra o ex-diretor do FBI avançou entretanto, já com o Departamento de Justiça sob a liderança de Todd Blanche.
Depois de partilhar um vídeo que alegadamente mostra cidadãos negros a roubarem produtos de uma loja de conveniência, Donald Trump volta a acusar o ex-presidente Barack Obama e Hillary Clinton de “sedição”, partilhando uma publicação que pede prisão para o ex-presidente norte-americano, a ex-candidata presidencial e ainda para James Comey e John Brennan. “Prendam todos eles. Processem todos. Encarcerem-nos todos de uma vez por traição, traição à pátria e conspiração sediciosa para derrubar os Estados Unidos”, conclui a publicação. De seguida, Trump volta a republicar um vídeo, em que alegadamente se vê um cidadão negro a derrubar propositadamente a comida transportada por um empregado de mesa em Miami. “Não lhe chamaria um homem. Um verdadeiro homem nunca desrespeita outra pessoa desta forma. Chamar-lhe-ia o que ele é, um POS [piece of shit, monte de merda, numa tradução livre para português]”, lê-se na publicação.
Às 22h47, o Presidente dos EUA volta a atacar Barack Obama, partilhando uma publicação que classifica o ex-presidente dos EUA como “a força mais demoníaca da política norte-americana em décadas”. De seguida, republica uma publicação do gerenal Mike Flynn, um apoiante de longa da data, voltando a defender que existiu fraude nas eleições presidenciais de 2020. “A eleição de 2020 foi roubada. Tivemos um presidente falso durante quatro anos”, diz a publicação, que acusa ainda os meios de comunicação social de terem sido “cúmplices desse crime”. Às 22h51, Trump volta a sugerir que a empresa Dominion influenciou a votação de 2020, desta vez no estado do Michigan, outro swing state, que Trump ganhou em 2016 mas perdeu quatro anos depois. Segundo a BBC, o problema registado com a votação no Michigan, nomeadamente no Condado de Antrim, mas causado por uma falha da Dominion mas sim por erro humano, como apontou a Secretária de Estado de Michigan, Jocelyn Benson. Os resultados iniciais estaduais estavam incorretos, e foram corrigidos posteriormente. Ainda assim, Joe Biden manteve a vantagem, vencendo por cerca de três mil votos.
Às 22h51, Trump partilha uma publicação de uma página de homenagem a Charlie Kirk (ativista política de direita, assassinado em 2025) que alega que a Administração Obama bloqueou uma investigação criminal a Hillary Clinton por causa do uso de um email pessoal para comunicações oficiais, enquanto Clinton desempenhou as funções de Secretário de Estado, entre 2009 e 2013. “O ex-Diretor da CIA John Ratcliffe afirma que Lisa Page [ex-advogada do FBI] admitiu sob juramento que o DOJ (Departamento de Justiça) de Obama disse ao FBI para nem sequer considerar o indiciamento de Hillary Clinton pelo escândalo dos e-mails sigilosos”, lê-se na publicação. Recorde-se que o FBI investigou o caso, tendo concluído que, embora o o uso do email pessoal para transmissão de informações classificadas tenha sido “extremamente descuidado”, Hillary Clinton não fez de forma deliberada, tendo recomendado a não abertura de um procedimento criminal — indicação que o Departamento de Justiça acolheu.
Logo de seguida, Trump partilha um vídeo que mostra um discurso que o próprio fez, na Nações Unidas, e no qual defende uma relação entre a imigração em massa e o tráfico de crianças. “Qualquer sistema que resulte no tráfico em massa de crianças é inerentemente maligno, mas é exatamente isso o que a agenda migratória globalista tem feito…Nos EUA isso tem os dias contados”, lê-se no texto que acompanha o vídeo.
Depois um interregno, Trump faz a última publicação de um conjunto de 55 posts na Truth Social à 1h13 de terça-feira, criticando um artigo jornal New York Times, que dava conta de que vários funcionários do Departamento do Interior expressaram preocupação com a qualidade e a velocidade dos trabalhos de reparação do Espelho d’Água do Lincoln Memorial, em Washington. “O decadente New York Times, um dos piores jornais do mundo, que perde assinantes a cada hora, está aí de novo. Assim como cobriram a minha vitória esmagadora nas eleições presidenciais de 2024 de forma imprecisa e sem vergonha […] agora tentam justificar a tentativa desastrosa e cara de Obama e Biden de arranjar o espelho d’água, há muito estragado, feio e insalubre. Desperdiçaram pelo menos 55 milhões de dólares a tentar, sem sucesso algum”, escreveu Trump, afirmando que a intervenção piorou a situação.
“Trabalhei com o nosso agora forte Departamento do Interior […] Em vez de levar quatro anos para construir, a um custo de 400 milhões de dólares, incluindo os pavimentos de granito, poderíamos construir um espelho d’água muito superior por 5 ou 6 milhões de dólares, e concluir o projeto em duas semanas em vez de quatro anos. Que diferença em tempo e dinheiro, e para um resultado final muito superior! Isto não é apenas uma pintura, como afirmou de forma tão imprecisa e maliciosa o “repórter” desprezível David Fahrenthold, do NYT. Trata-se de uma obra de construção inteligente e bela, profundamente complexa. Não terá infiltrações, brilhará e será o orgulho de Washington D.C. durante décadas. Economizei mais de 390 milhões de dólares e quatro anos, e, claro, não recebi nenhum crédito do tendencioso New York Times”, escreveu Trump.
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