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Cinco filmes para ver esta semana

O belga "A Dança das Raposas", os portugueses "Soco a Soco" e "A Providência e a Guitarra", "Mais Forte que Eu" e o egípcio "As Águias da República" são as escolhas de Eurico de Barros esta semana.

Eurico de Barros
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“A Dança das Raposas”

A primeira longa-metragem do belga Valery Carnoy passa-se num colégio interno desportivo e centra-se em Camille (Samuel Kircher), um jovem e promissor pugilista que sofre um acidente e é salvo pelo melhor amigo, ficando magoado num braço. O rapaz recupera depressa mas começa depois a sentir uma estranha dor, que poderá ser psicossomática, mas que lhe afeta a confiança e o deixa sensível à dor alheia, tornando-o, aos olhos dos outros membros do grupo, num fraco que o poderá prejudicar gravemente, já que Camille chega a desistir de um combate que estava quase a ganhar. Carnoy capta o ambiente de competitividade intensa, e a masculinidade estuante e atabalhoada, e por vezes agressiva demais, do grupo de atletas, mas não deixa muito claro se o faz com compreensão e admiração, ou se para os mostrar como realidades negativas.

https://www.youtube.com/watch?v=sCMxpkrMVoo

“Soco a Soco”

Um retrato do septuagenário pugilista lisboeta Orlando Jesus, que além da sua destacada carreira no boxe nas décadas de 70 e 80, e das subsequentes funções de treinador e árbitro internacional, teve uma existência muito movimentada e aventurosa, passando por Espanha (para onde fugiu após ter desertado já depois do 25 de Abril) e pelo Brasil, e levou uma vida de boémia como dono e frequentador de espaços noturnos da capital. Teve filhos de cinco mulheres, um dos quais lhe seguiu os passos no pugilismo. Além de contar a história de Orlando Jesus, nascido numa família humilde da Lisboa popular, e de o ouvir recordar as suas peripécias, este documentário de Diogo Varela Silva é, ao mesmo tempo, uma evocação da cidade desses tempos, mais dura, ingrata e perigosa do que a de agora, mas também mais genuína, homogénea e humana.

https://www.youtube.com/watch?v=CqFrNZbVGVk

“A Providência e a Guitarra”

Passado em dois tempos que chegam a intersectar-se, o século XIX e os nossos dias, a nova realização de João Nicolau inspira-se num conto de Robert Louis Stevenson para mostrar, no passado, um casal de artistas ambulantes que encontra dificuldades quando mostra o seu espectáculo numa vila; e no presente, uma banda rock pindérica, que tem um membro que milita num movimento de extrema-esquerda apostado em mudar o sistema da Segurança Social. Verboso até dizer chega e nebuloso nas suas intenções (será sobre as dificuldades intemporais encontradas pelos artistas? Sobre as inevitáveis malvadezas do capitalismo e as injustiças do mercado?), A Providência e a Guitarra é uma seca cerrada, tagarela e autoindulgente, que conta com Salvador Sobral e Rui Reininho no elenco (mas não cantam).

https://www.youtube.com/watch?v=VXfRHB7BeI8

“Mais Forte que Eu”

Vencedora dos prémios BAFTA para Melhor Ator e Melhor Elenco, esta fita realizada por Kirk Jones conta a história real do escocês John Davidson (Robert Aramayo), que, na década de 80, e quando tinha 15 anos, foi diagnosticado com a síndroma de Tourette, que faz aqueles que dela sofrem dizer palavrões de forma imprevisível e descontrolada. Esta condição, à época ainda muito incompreendida, afetou profundamente a sua existência quotidiana com a família, bem como o convívio com os seus pares durante a adolescência e na entrada da idade adulta, e levaria mesmo Davidson a tentar suicidar-se. O rumo da sua vida mudou após ter conhecido Dottie Achenbach, enfermeira num hospital psiquiátrico. Mais Forte que Eu conta também com as participações de Maxine Peake e Shirley Henderson.

https://www.youtube.com/watch?v=05IwUaP6J3Q

“As Águias da República”

Após The Nile Hilton Incident (2017), e Conspiração no Cairo (2022), As Águias da República é o terceiro filme da chamada Trilogia do Cairo, da autoria do realizador sueco-egípcio Tarik Saleh, sobre a corrupção institucional no seu país. Fares Fares, o ator favorito de Saleh e seu grande amigo, interpreta George Fahmy, a mais querida e popular estrela do cinema egípcio e do mundo árabe, “O Faraó do cinema”, que é forçado pelos militares a interpretar o Presidente Abdel el-Sisi num grande filme de propaganda do governo, sobre o golpe de Estado de 2013. Fahmy irá perceber, e de forma trágica, que é o pião das nicas de duas fações político-militares em confronto, sendo impiedosamente manipulado por ambas. As Águias da República foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.