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(A) :: Morreu Davide Pinto, chefe de sala do Café de São Bento, em Lisboa. Guardou mesas e os segredos dos clientes por mais de 20 anos

Morreu Davide Pinto, chefe de sala do Café de São Bento, em Lisboa. Guardou mesas e os segredos dos clientes por mais de 20 anos

Clientes recordam a personalidade divertida de um dos funcionários mais antigos do restaurante e bar ao pé da Assembleia da República. Espaço destaca a sua "elegância discreta" na nota de pesar.

Larissa Faria
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Morreu esta semana David Pinto, o chefe de sala do café de São Bento, em Lisboa. A sua morte, sem data ou causa divulgados, foi anunciada esta quarta-feira através de uma nota de pesar do Grupo São Bento, que em 2022 incluiu a casa aberta em 1982 no seu portfolio de restaurantes. “Distinguiu-se pelo talento raro para bem receber e pela forma única como fazia cada cliente sentir-se em casa. Com um sorriso gentil e uma elegância discreta, dominava a arte da hospitalidade com dedicação, atenção ao detalhe e uma genuína disponibilidade“, diz o comunicado.

Junto à Assembleia da República por mais de 20 anos, — quase metade do tempo de existência do café — Davide iniciou a sua carreira na restauração em 1981, como barman, tendo também trabalhado nos bares Foxtrot e Pavilhão Chinês. “O bar é uma escola que você nem imagina… Aprendemos coisas sobre as pessoas que não se aprendem de outra forma. Em termos de Psicologia, evoluímos muito com isto”, partilhou ao Observador em 2022, na ocasião dos 40 anos do Café de São Bento. Na década de 1980 saiu e regressou por duas vezes a esta morada, onde permaneceu até este mês não só a servir os famosos bifes daquela casa, mas também a receber os clientes. Natural da Guarda, encaminhava os habitués para as zonas mais reservadas do restaurante. “Se aquela mesinha ali em cima falasse…”, comentou no mesmo artigo, ao apontar para aquela que chamava de “mesinha dos segredos“.

Davide mantinha também o sigilo dos pedidos de clientes habituais, como uma “senhora ilustre da nossa sociedade”, disse Fernando, seu colega de trabalho no São Bento. “Normalmente, a senhora bebia Jameson numa chávena de chá para ninguém saber”, revelou, ao recordar ser ele próprio que ensinou a Davide que deveria encher o bule com a “bebida secreta”. Era também ele o responsável por missões como levar até aos correios as cartas de felicitações enviadas pelo café quando os frequentadores faziam anos. “Houve um ano em que enviámos um postal com uma fotografia nossa, em que, quando se abria, cantávamos os parabéns [era uma espécie de postal com pilhas]”.

Considerado pelo Café de São Bento como “uma das figuras mais marcantes da história da casa” e um “profissional de excelência”, os elogios e memórias sobre a sua presença são corroborados pelos clientes. Uma avó recorda a personalidade divertida do chefe de sala, que dizia ao seu neto que o bolo de chocolate acabara. O miúdo jantava “muito triste”, diz, mas ficava alegre quando logo a seguir Davide trazia o bolo, comentou na publicação do Instagram com o anúncio da morte. Outra cliente diz que este fazia a mesma brincadeira, mas com o pudim abade de Priscos. “Dizia não ter naquele dia, mas trazia-o ao fim do jantar como se fosse um presente“. Em sinal de luto e homenagem a Davide Pinto, o Café de São Bento não abrirá as portas no dia 20 de maio.

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