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(A) :: Está tudo errado

Está tudo errado

A miserabilidade da chefia tem o efeito de promover no agente de autoridade todos os defeitos que a inação tem sobre as pessoas que não têm nada que fazer.

Bruno Bobone
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Temos acompanhado, nas últimas semanas, um caso que é de polícia, mas que envolve agentes daquela entidade.

Uma entidade que devia ser a referência da segurança, do exemplo de comportamento e da confiança de todos os cidadãos e que chegou ao mais baixo nível da sua actuação.

O uso de violência sobre os cidadãos, quando suspeitos ou mesmo depois de serem considerados culpados, é inaceitável.

O abuso dessa violência, ao nível que chegou neste caso, mostra um desvio profundo de comportamento e mesmo uma certa perfídia, que não se espera por parte de quem se propõe servir a comunidade e defendê-la desses mesmos comportamentos.

Acredito que estamos a chegar a um ponto em que não podemos mais “tapar o sol com a peneira” e temos que, definitivamente, enfrentar a enorme incompetência com que tem sido gerido este país, especialmente nesta área tão sensível de protecção dos cidadãos.

Uma força de segurança tem que ser o garante da tranquilidade de um país e, para isso, tem que prevenir as situações que ponham em causa essa estabilidade social e, caso não seja possível, tem que estar pronta para as resolver de uma forma rápida e eficiente, garantindo que apenas os responsáveis por tais situações são punidos pela sua autoridade e sempre dentro da lei.

Para isso, uma força de segurança deve acolher na sua estrutura apenas profissionais bem preparados, especialmente educados e com características que se adaptem a estas necessidade.

Por isso também, os agentes que sejam selecionados para esse importante trabalho devem ser respeitados e compensados, tanto financeiramente como socialmente com condições de dignidade, de forma a assegurar a sua boa actuação.

Mas estas estruturas, como provavelmente a maioria dos serviços do Estado, têm que ser dotadas de chefias, verdadeiramente responsáveis que não se limitem a determinar aquilo que esperam das suas equipas, de forma geral, mas sim intervindo diariamente nas suas actividades e criando controlos eficazes, que permitam avaliar comportamentos e que sirvam para repreender os que falham e para premiar os que são cumpridores das suas obrigações.

Que tenham coragem de ser chefia!

A avaliação de uma boa chefia reconhece-se facilmente pelos comportamentos mais simples das suas equipas e, quando notamos que os agentes de autoridade, que deveriam ser dissuasores de situações perturbadoras da tranquilidade, não saem das esquadras durante dias inteiros e se mantêm agarrados aos telemóveis sem deles tirar a vista durante as horas de trabalho, quando os vemos de guarda a instituições públicas – os únicos que não estão nas esquadras os dias inteiros – agarrados aos mesmos telemóveis sem sequer olhar quem passa, podemos facilmente concluir que a chefia é miserável.

E a miserabilidade da chefia tem ainda o efeito de promover no agente de autoridade todos os defeitos que a inação tem sobre as pessoas que não têm nada que fazer e que começam a perder a noção da sua responsabilidade, começam a ter comportamentos de abuso de autoridade, com que tentam garantir o seu status quo, pretendendo manter os benefícios sem ter que cumprir a suas obrigações.

Mas, ainda mais, levam outros que não estariam sequer alinhados com aqueles que se desviam nos seus comportamentos e que acabam por não denunciar aqueles que prevaricam.

Temos que deixar de ter medo de decidir e de assumir as responsabilidades.

Temos que pedir responsabilidade a quem quer ser detentor dos lugares de chefia.

Não podemos mais aceitar que aquilo que se passou apenas vai cair sobre os prevaricadores, sem compreender que é na verdadeira liderança que está a solução do problema.

Se não o fizermos vamos voltar a ter o mesmo resultado.