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(A) :: Quem é o "senhor com sotaque sul-americano" que Florentino Pérez atacou — e que pode mesmo ser candidato nas eleições antecipadas

Quem é o "senhor com sotaque sul-americano" que Florentino Pérez atacou — e que pode mesmo ser candidato nas eleições antecipadas

Tem 37 anos, é empresário do setor da energia, amigo de Nadal e com negócios com a Iberdrola: quem é Enrique Riquelme Vives, o "senhor com sotaque" que pode mesmo desafiar Florentino nas eleições.

Mariana Fernandes
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Foi uma conferência de imprensa que atirou para dentro, para fora e para todo o lado. Ao longo de cerca de 65 minutos, numa declaração anunciada horas antes, Florentino Pérez procurou dar a cara pelo momento quase inédito do Real Madrid. Entre agressões entre jogadores, um treinador despedido a meio da temporada e nenhum título conquistado, convocou eleições antecipadas e garantiu que ainda é a pessoa certa para liderar os merengues. Mas levou os bolsos cheios de recados.

Desde logo, para os que não concordam com a ideia de que é a pessoa certa para liderar os merengues. Esta terça-feira, dois dias depois de o Real Madrid perder o El Clásico do Camp Nou e abençoar a conquista da La Liga por parte do Barcelona, Florentino Pérez pediu os opositores que não tem tido. “Peço que este ano existam candidatos. Esse senhor que fala com as empresas da energia e que tem sotaque sul-americano, que se apresente. Sotaque sul-americano. Dizem que somos muito maus, que somos uma ditadura. Que se apresente, esse senhor de que falamos e todos os que o querem”, vincou, sem nomear diretamente a quem se estava a referir, mas deixando bem claro quem era o destinatário da mensagem.

https://observador.pt/2026/05/12/eleicoes-antecipadas-uma-assinatura-do-abc-e-a-garantia-de-que-nao-tem-cancro-a-conferencia-onde-florentino-falou-de-tudo-menos-mourinho/

De forma óbvia, Florentino Pérez dirigia-se a Enrique Riquelme Vives, empresário espanhol de 37 anos que há muito é associado a uma espécie de oposição silenciosa no Real Madrid. Natural de Cox, em Alicante, é sócio dos merengues há mais de duas décadas e filho de Enrique Riquelme de la Torre, que chegou a fazer parte da Direção liderada por Ramón Calderón entre 2006 e 2009. Posicionou-se na altura da última reeleição de Florentino Pérez, em 2021, mas acabou por decidir não se candidatar e permanecer nas sombras à espera da altura ideal. A altura, com eleições antecipadas no horizonte, pode ter chegado.

Enrique Riquelme Vives é o atual presidente executivo da Cox Energy, empresa espanhola que fundou em 2014 e que se dedica às energias renováveis, particularmente à solar fotovoltaica, com projetos no México, Chile, Panamá, Colômbia, Espanha e também Portugal. Apesar de viver entre o Panamá e Espanha, tem uma presença empresarial muito forte na América do Sul e foi nessa condição que foi incluído na lista de Forbes que juntou os 100 latinos mais influentes contra as alterações climáticas — aparecendo até na capa da conhecida revista, apresentado como “o homem da energia solar”.

É apaixonado pelo desporto, incluindo a Fórmula E e o golfe, e marcou presença nas últimas três finais da Liga dos Campeões em que o Real Madrid esteve, em Milão, Kiev e Cardiff. Bem relacionado, a Cox Energy é patrocinadora da Team Rafa, a equipa de Rafael Nadal que compete no UIM E1 World Championship, a primeira competição de barcos elétricos do mundo — ou seja, tem uma ligação privilegiada ao tenista, que é também um dos adeptos mais conhecidos e reconhecidos dos merengues.

https://twitter.com/TouchlineX/status/2054479259230753140

Com negócios também nos EUA e no Médio Oriente, a Cox Energy está avaliada em vários milhares de milhões de euros e, há algumas semanas, finalizou a compra da Iberdrola México por quatro milhões de dólares. Uma ligação que também incomoda Florentino Pérez: David Mesonero, diretor de Desenvolvimento Corporativo da Iberdrola, também é sócio do Real Madrid e estará a ser preparado para ser o braço direito de Enrique Riquelme Vives no cenário de uma candidatura. Mais do que isso, David Mesonero é genro de Ignacio Sánchez Galán, o presidente da Iberdrola que é um conhecido adversário empresarial do atual presidente dos merengues.

Em 2021, quando se colocou a hipótese de se candidatar à presidência pela primeira vez, Enrique Riquelme Vives não escondeu que alimenta esse sonho. “Seja agora ou no futuro, quero tentar”, explicou em entrevista ao jornal El Confidencial. “Vejo a possibilidade de aplicar o que tenho aprendido e de trabalhar com uma Junta Diretiva hiper profissional, não de amigos, para levar o clube para outro nível. O clube tem de tomar uma direção diferente, profissionalizar ao máximo a gestão para se converter realmente num clube global, ou terá problemas. E ser global não é fazer uma digressão pelos EUA”, acrescentou.

Para além da possível e provável oposição de Enrique Riquelme Vives, Florentino Pérez dedicou 15 dos 65 minutos da conferência de imprensa à comunicação social — ou melhor, às críticas à comunicação social. Chegando a mostrar notícias do ABC no telemóvel, o presidente do Real Madrid atirou-se essencialmente ao jornal, questionando o porquê de “os jornalistas quererem meter-se com o clube com mais prestígio, mais valor e mais seguidores do mundo”.

https://twitter.com/mundodeportivo/status/2054241047354449925

https://twitter.com/alandete/status/2054287833901240338

“O ABC é da Vocento. Criaram o Relevo, sabiam o que era, não sabiam? De acordo com a Liga, dedicaram-se a fazer um jornal digital que, para resumir, perdeu 25 milhões durante o tempo em que existiu. Quando a Liga deixou de pagar, foram à Telecinco ver se eles pagavam. O seu único fim era atacar o Real e o seu presidente. E lamento porque o meu pai lia o ABC e fez-me a assinatura há muitos anos, mas agora tomei a decisão de cancelar a minha assinatura do ABC para honrar o meu pai, que me agradecerá. Como é que o ABC pode fazer uma coisa destas? Ninguém o comprava, ninguém o comprou e aquilo provocou lá um cisma. Anuncio, assim, que vou cancelar a minha assinatura do ABC, honro melhor o meu pai se a cancelar. Vejam estes dois artigos que escreveram hoje, de uma mulher que não sei se percebe ou não de futebol”, acrescentou.

De forma natural, já esta quarta-feira, o ABC respondeu — de forma institucional, num editorial, de forma mais pessoal, através dos dois jornalistas mencionados, e também com a brutal fotografia da capa. No editorial, o jornal rejeitou qualquer tipo de pressão. “Ao longo da sua história, o ABC atravessou pressões políticas, empresariais e institucionais de enorme magnitude. Nunca deixou de informar e de certeza que não irá fazê-lo agora. O Real Madrid é uma instituição querida e seguida com enorme atenção por esta casa e pelos seus leitores. Precisamente por isso, vamos continuar a contar tudo o que acontecer no clube, ainda que incomode o seu presidente. Mesmo que tenha decidido deixar de pagar a assinatura que o pai lhe deixou”, pode ler-se.

https://twitter.com/MFuentealamo/status/2054253766392648071

Já Rubén Cañizares, um dos jornalistas diretamente mencionados por Florentino Pérez, assinou um texto de resposta a que deu o título “E Florentino acusou-me de ser antimadridista”. “Florentino conhece-me perfeitamente. Não de hoje, de há muitos anos. E sabe perfeitamente que se existe algo que não sou é antimadridista. Se o esqueceu, convido-o a perguntar a todos esses jornalistas que considera madridistas se sou anti ou não. Vai perder por goleada. Não sinto raiva, nem sequer estou chateado. Tenho pena de que o melhor presidente da história do Real Madrid, que coloco num altar e admiro, tenha utilizado a sua primeira conferência de imprensa em 11 anos para tentar vender eu e o ABC somos antimadridistas. Aqui ninguém o obriga a ler-nos, mas não tente faltar-me ao respeito, porque nunca ninguém neste jornal lhe faltou ao respeito”, escreveu.

Por fim, também María José Fuenteálamo aproveitou para recordar que é “a mulher” que Florentino Pérez não sabe “se percebe ou não de futebol”. “Não esperava a referência a futebol porque eu nem sequer falei de futebol na minha coluna. Falei do que o Real Madrid, como instituição histórica, representa para a sociedade. Das suas cores. Do desportivismo. É-me indiferente se no Bernabéu se joga basquetebol, basebol ou à carica. Porque sou mãe e sei o que jogam os miúdos, quem são os seus ídolos e como temos de cuidar das referências. Porque sou, além disso, vizinha do bairro do estádio. Sim, estimado presidente, eu sou isto tudo. Uma mulher que, independentemente do que sabe de futebol, sabe o que se passa fora do Bernabéu. Porque isto não tem nada a ver com futebol. E agora sou eu que tenho dúvidas sobre o que o senhor sabe ou não sabe”, sublinhou.