Para Daniel Soares, de 38 anos, Cannes vai ser um déjà vu após Bad For a Moment/Mau Por um Momento, que em 2024 raspou na Palma de Ouro da curta-metragem sem a conseguir agarrar (mas trouxe uma Menção Especial). Em 2026, nova tentativa para o cinema português, com Daniel a repetir o concurso (que João Salaviza ganhou em 2009, com Arena). No historial de Cannes, contam-se pelos dedos de uma mão os cineastas que atingiram tal feito. Terá hipóteses, mais do que aquelas que dita a matemática?
Vamos acreditar que sim, e por um motivo particular: Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio (produção da O Som e a Fúria) tem uma extraordinária capacidade de sugestão. É o que mais se pede a uma curta. E o que sugere o filme, em 14 minutos? Um retrato alegórico da vida contemporânea à beira-rio, arrancando com um grupo de raparigas e rapazes que se fingem mortos, a flutuar – na verdade, a morte é um convite, uma encenação para as redes sociais.
“Escrevi Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio antes de Bad for a Moment, que ficou mais narrativo e racional, ao passo que este é mais solto e livre, feito a partir de ideias que me vieram à cabeça: uma delas é a dos adolescentes que se fingem mortos”, contou-nos Daniel à mesa do café da Culturgest, durante o Indielisboa.
“Só depois fiz uma conexão com o rio: e se um daqueles corpos não se erguesse para respirar e continuasse a flutuar rio abaixo, cruzando o campo de visão de outras pessoas insensíveis ao que está à frente delas, ou que, pura e simplesmente, decidem não querer ver? Porque eu sinto isto também na vida, luta contra esta dificuldade em estar presente. Sinto-o com as minhas filhas (Daniel é pai de gémeas), isto é: estou com elas, mas também no telemóvel… O filme fala disto. De como interagimos dia-a-dia ao mesmo tempo que fazemos scroll no telemóvel de posts sobre a desgraça na Palestina, por exemplo. Fala de nós, presos aos nossos micro-cosmos.”

Daniel Soares, que nasceu na Alemanha, filho de emigrantes, é um cineasta auto-didacta que aprendeu fazendo, sem ter passado pelas escolas de cinema. Interessam-lhe os comportamentos colectivos e o mundo do trabalho que deixa as pessoas alienadas, assunto que será desenvolvido em breve em 900 Toneladas, a sua primeira longa-metragem, em fase de pré-produção.
“Passei uma década a trabalhar em agências de publicidade, na Alemanha, em Portugal e nos Estados Unidos. Isso marcou-me muito, ao ponto de ficar esgotado daquela forma de viver e até do tipo de conversas em que toda a gente coloca uma máscara. Há naquelas conversas imensos termos bélicos. O deadline… a war room em que 20 pessoas se fecham entre quatro paredes a ‘partir pedra’ enquanto comem encomendas do Uber Eats. Isto vem também muito da minha família, dos meus avós que foram para a Alemanha fazer trabalhos que ninguém queria.” Daniel foi aos poucos abandonando a publicidade para se dedicar ao cinema, “mas não para sempre.”
Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio cruza actores de craveira como Teresa Madruga ou com não-actores, personagens de diferentes idades e com óbvias diferenças de classe social, dos turistas portugueses aos estafetas sul-asiáticos que aproveitam uma breve pausa para descansar. O filme foi rodado em Arganil, Arouca e Sever do Vouga, terra dos avós paternos de Daniel, em rios diferentes que, no filme, parecem um só. É quase impossível para o espectador português não se recordar dos ambientes de Aquele Querido Mês de Agosto. Curiosidade ou não: foi este último o filme que, em Cannes (e também produzido pela mesma companhia), lançou, há 18 anos, o percurso internacional de Miguel Gomes.

De Daniel Soares, passamos para Clara Vieira, que também encontrámos à mesa do café da Culturgest. “Sou de Vila do Conde, tenho 22 anos e estudei teatro no secundário”, começou por dizer-nos. “Na pandemia, durante a impossibilidade de estarmos juntos, os professores incentivaram-nos a fazer curtas-metragens em vez de ensaios filmados. Comecei a gostar do que fui levada a fazer. Aos 12 anos, era YouTuber, sentia-me à vontade com os filmes.”
Só depois veio Clara Vieira para Lisboa, para a faculdade, admitida no curso da Escola Superior de Teatro e Cinema. Onde Nascem os Pirilampos é o filme do primeiro semestre do terceiro ano da licenciatura, “o último que realizarei na ESTC”. Foi selecionado pelo comité La Cinef, para a competição deste ano, eleito entre 2750 curtas-metragens enviadas para Cannes por escolas de cinema do mundo inteiro.
Onde Nascem os Pirilampos é um filme sobre dinâmicas de grupo, também ele sobre jovens em fim de adolescência. Arranca com um genérico de animação, influenciado pelo teatro, depois passa para imagem real e para aqueles 5 amigos, campistas na floresta, em lugar indeterminado. Provocam-se, insinuam-se, a sexualidade está latente neste jogo e há-de cruzar-se com os “guardiões da floresta”, como Clara lhes chama, criaturas imaginárias. “O pré-requisito para o grupo de amigos era eles serem amigos, de facto. É interessante falarmos de dinâmicas porque o processo foi muito colaborativo com os actores: grande parte dos diálógos foram trazidos por eles para os ensaios.”
https://www.youtube.com/watch?v=4_u1icsB6Ns
A ideia do filme surgiu por causa do dia do apagão. “Nasci em 2004 e nunca tinha visto as pessoas tão conectadas, como se estivéssemos noutro tempo e noutra vida. Sem querer romantizar – sei que foi um dia muito difícil para muita gente – senti uma certa culpa por me sentir tão bem naquele estranho pedaço de tempo. Sou estudante deslocada, estava na faculdade nesse dia, conheci aleatoriamente uma rapariga e acabei por ficar a dormir na casa dela sem a conhecer de lado nenhum.”
O filme nasce, de certa forma, dessa culpa, assume Clara: “Daí a aventura dos dois adolescentes que se beijam pela primeira vez; em seguida, à medida que vai entrando pela floresta, ele apercebe-se de que há qualquer coisa não tão boa a acontecer. São mixed feelings. É desta forma que olho para a adolescência e, em especial, para a relação entre homens. Muitos amigos meus que hoje se assumem gays tinham esta relação mútua meio agressiva, meio possessiva, que ainda não estava definida antes de se assumirem. Tocavam de forma divertida nos corpos uns dos outros porque ‘ele é o meu brother’. O filme fala disto, desta proximidade divertida, ainda por definir.” Não deixa de ser erótica, perguntamos. “Completamente”, concorda Clara.

Já em relação aos ditos “monstros das floresta” que acompanham as personagens, inicialmente, numa fase anterior do argumento, era suposto que fossem escuteiros, “mas por questões de tempo, a ideia evoluiu para aqueles seres espirituais com luzes nos olhos. Um deles está ‘doente’ e a desaparecer, simbolizando a extinção dos pirilampos.” A realizadora tinha receio que a natural falta de recursos da ESTC para um filme de escola tornasse esta parte “de magia” um tanto goofy, mas acabou por abraçar um tom que não tenta ser excessivamente sério.
E receio (pelos monstros) de estar a filmar “à la Apichatpong Weerasethakul”? Clara faz jus ao nome e torna as coisas “claras” em relação ao autor de O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores: “É uma referência forte, assumo, mas o meu filme vive sozinho, não sou Apichatpong e nunca serei.” De facto, Onde Nascem os Pirilampos não precisa dessa colagem. Deixem-no respirar, sem etiquetas. E no que ao sentido de humor diz respeito, é um gracioso filme, muito mais português que tailandês.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.