Ganhou quase tudo, mas quer mais. Falta aquela taça que todos querem e poucos alcançam. No próximo verão, Carlo Ancelotti tem a oportunidade de juntar ao seu palmarés o Campeonato do Mundo. Vai com um dos históricos favoritos e, de acordo com o próprio, “a seleção mais importante do mundo”: o Brasil. Ainda assim, o técnico italiano garante que não está “obcecado em vencer o Mundial” e não esquece Neymar, cuja chamada à seleção “depende apenas dele”. O novo técnico da canarinha também não esquece… Thiago Silva, defesa central do FC Porto, que “está no radar”.
Não é obsessão por ganhar, diz Ancelotti. É “paixão por desfrutar dos momentos que o futebol” lhe deu, esclareceu em entrevista ao The Guardian. “Não estou obcecado em ganhar o Mundial, mas tenho o prazer e a paixão de desfrutar do momento que estou a viver, à frente da seleção mais importante do mundo”, afirmou. Muito mais do que ganhar, é o prazer que o desporto lhe dá, desde a longínqua época de 1976/1977, em que que se estreou pelo Parma com apenas 18 anos.
Foi pela via de jogador que chegou ao seu primeiro Mundial: México-1986. Não chegou a sair do banco e teve de esperar pelo Mundial de 1990, em Itália, para jogar a sua primeira partida num Campeonato do Mundo. Agora já se sabe que não sairá do banco, como em 1986. Mas por motivos distintos: Ancelotti vai estrear-se na competição como treinador. Há sempre uma primeira vez para tudo. Até para o treinador cujas primeiras vezes já foram há muito – antes de conquistar quase tudo no futebol europeu, entre uma Serie A, duas La Ligas, duas Bundesligas, uma Ligue 1, uma Premier League e cinco Ligas dos Campeões.
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Os tempos são outros, a missão também, mas a paixão é sempre a mesma. “Não conseguiria viver sem futebol. Se já não estiver em campo, estarei lá como adepto a assistir ao jogo. Para mim, ver um jogo na televisão não é trabalho. É um prazer. Adoro cinema. Para mim, o futebol é como o prazer de ver um filme. É a mesma sensação. No dia em que deixar de trabalhar no futebol, continuarei a assistir da mesma forma, sem qualquer problema”, garantiu o técnico italiano.
Esta nova missão de Ancelotti começa no dia 13 de junho no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, diante da seleção marroquina, numa partida a contar para o grupo C do Mundial-2026. Os outros adversários do escrete são o Haiti e a Escócia. Para atacar a competição, Ancelotti diz que o suficiente será o “talento” da seleção canarinha. “Tenho uma equipa muito talentosa”, atirou. Também a “enorme” vontade de “vencer outra vez, 24 anos depois” do último Mundial conquistado pelo Brasil, é um dos fatores que o selecionador acredita que fará diferença para os brasileiros levarem para casa o mais desejado troféu de seleções.
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A situação de Neymar e o inquérito que mostra ser tudo menos unânime
Para consumar esse desejo, Ancelotti poderá contar com a ajuda de Neymar, que não joga pela seleção brasileira desde outubro desde 2023, numa derrota frente à seleção uruguaia (2-0). Talento, tem. Se tiver a mesma vontade que o técnico italiano apontou, viajará com a equipa. “A convocatória do Neymar depende apenas dele. Depende do que o jogador demonstrar em campo. Esse é um critério muito claro e não se aplica apenas ao Neymar. No caso da maioria dos jogadores, é preciso avaliar o talento e a condição física. No caso do Neymar, só precisamos de avaliar a sua condição física, porque o seu talento é inquestionável. Depende dele, não de mim“, esclareceu a propósito do agora avançado do Santos.
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Para Ancelotti, não há grandes questões. Se Neymar estiver apto, conta. Para os brasileiros, no entanto, não é assim tão claro: um inquérito citado pelo jornal britânico revelou que 53% dos brasileiros querem Neymar no Mundial, enquanto 34% não querem e 13% estão indecisos.
Há um outro nome bastante familiar que também poderá integrar a lista de convocados de Carlo Ancelotti: Thiago Silva, jogador do FC Porto. O campeão mais velho de sempre na Liga Portuguesa pode marcar presença no quinto Mundial da sua carreira. “O Thiago Silva está no radar. Tem jogado muito bem, ganhou o Campeonato português e está em excelente forma física”, revelou o técnico, que lembra a importância da experiência dentro de um balneário. “Os líderes são importantes. Felizmente, este plantel conta com líderes muito respeitados. Líderes que não falam muito, mas lideram pelo exemplo, como o Alisson, o Casemiro, o Marquinhos e o Raphinha. Nesse sentido, o plantel está em boas mãos”, garantiu.
Vinícius Jr. e Ancelotti: uma reedição do (melhor) Real Madrid de 2024
A experiência poderá ajudar a colmatar algumas faltas. Éder Militão e Rodrygo, ambos lesionados, são duas baixas de peso na seleção brasileira para este Campeonato do Mundo, a par de outros nomes que estão agora a aparecer como Estêvão. “É uma preocupação. Até agora tivemos três grande lesões. Espero que não tenhamos mais problemas antes do Mundial”, afirmou Carlo Ancelotti. Mas a experiência não é apenas idade. Aos 25 anos, Vinícius Jr. é já um dos nomes de peso do Real Madrid e dos jogadores que trazem para si a responsabilidade, para o bem ou para o mal. O reencontro entre técnico e jogador, numa reedição daquele Real Madrid de 2024, vencedor da Liga dos Campeões, poderá ser um argumento de peso para os canarinhos na competição.
Foi, aliás, com Ancelotti que o avançado conseguiu os melhores número da sua carreira: 24 golos em 39 partidas, na temporada 2023/2024. “Vejo o Vinícius tal como o via no Real Madrid: um jogador espetacular e uma pessoa espetacular, capaz de decidir um jogo sozinho. Ele será muito importante para o Brasil no Mundial. Mas ser o número 1? O jogador estrela? Não precisamos de um número 1. Não podemos concentrar tudo num único jogador. Temos de pensar como uma equipa. É a única forma de ganhar o Mundial”, afirmou.
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Um desejo tão grande de ganhar o Mundial pode causar demasiada pressão sobre o craque do Real Madrid. “Os brasileiros têm um carinho especial pela camisola canarinha. Esse carinho especial pela seleção nacional é uma característica tipicamente brasileira. Noutros países, a seleção nacional não tem a mesma importância que tem no Brasil”, explicou. Por isso mesmo, “essa responsabilidade pode ser um fardo para ele”, alertou. “A nossa função na seleção nacional é aliviar-lhe um pouco desse peso, para que ele possa jogar com alegria, energia e todas as qualidades que possui”, acrescentou.
Com o Mundial em contagem decrescente, o peso da história da seleção brasileira torna as exigências e as expetativas elevadas. Ancelotti chegou ao Brasil para levantá-las. “A coisa mais importante que aprendi no Real Madrid, e que aplico no Brasil, é ter padrões elevados. Quando se é exigente, tem-se mais hipóteses de vencer. O Real Madrid é o clube com mais sucesso no mundo, porque é exigente com todos os que lá trabalham. Se formos exigentes, conseguimos tirar o melhor de cada um”, concluiu.