O Rei Carlos III fez esta quarta-feira um discurso na Câmara dos Lordes, como é habitual em todas as sessões de abertura do Parlamento britânico. Cumprindo a tradição, o monarca leu um documento escrito pelo Governo chefiado pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer. O Executivo do Labour aproveitou o momento para projetar uma imagem de estabilidade, numa altura em que a liderança de Starmer está cada vez a ser mais contestada — principalmente pelo ainda ministro da Saúde, Wes Streeting.
O monarca, no discurso, começou por lembrar o contexto internacional. “Um mundo perigoso e volátil ameaça o Reino Unido com o conflito no Médio Oriente a ser o exemplo mais recente. Elementos energéticos e de defesa serão colocados em causa.” O Rei Carlos III assinalou que o Governo está a planear tomar iniciativas para proteger a segurança da “economia, a energia e defesa a longo termo”, defendendo os valores da “tolerância e respeito pela diferença”.
“O Governo tomará medidas urgentes para combater o antissemitismo e garantir que todas as comunidades se sintam seguras”, prosseguiu o Rei, que indicou no discurso que o Executivo tentará reverter o aumento de custos de vida “em todas as partes do Reino Unido”. Para isso, será usado “o investimento público para moldar os mercados e atrair mais investimento privado”. “Será mobilizado o poder de um Estado ativo em parceria com as empresas e serão permitidas reformas que apoiem um maior crescimento e um tratamento justo para os trabalhadores.”
Nesse contexto, o monarca — que leu um discurso escrito pelo Executivo chefiado por Keir Starmer — promete melhorar as relações comerciais “para aumentar significativamente o crescimento económico”. Entre os parceiros, um deles será a União Europeia (UE). Ainda sobre o bloco comunitário, o Rei disse que os ministros do Executivo “procurarão melhorar as relações com os parceiros europeus como um passo vital para o reforço da segurança europeia”.
“Neste mundo volátil, o Governo continuará a conduzir uma política externa baseada numa avaliação dos interesses nacionais. Continuará a conceder um apoio inabalável ao corajoso povo da Ucrânia, que luta na linha da frente da liberdade”, continuou o monarca, que referiu que o Governo “continuará a promover a paz a longo prazo no Médio Oriente e a solução de dois Estados em Israel e na Palestina”.
Ainda na política externa, segundo Carlos III, o Governo “manterá também o compromisso inquebrável do Reino Unido com a NATO e com os nossos aliados da NATO, inclusive através de um aumento sustentado dos gastos com a defesa”.
No final do discurso, Carlos III recordou que “o Reino Unido assumirá a presidência do G20” no próximo ano, prometendo “impulsionar o crescimento global e reforçar a estabilidade mundial”. O Executivo de Keir Starmer está “empenhado na força e integridade da União do Reino Unido e continuará a trabalhar em estreita colaboração com os governos descentralizados para dar resultados aos cidadãos em toda a nação”.
Após o fiasco eleitoral do Partido Trabalhista nas eleições locais, o primeiro-ministro britânico está numa posição cada vez mais vulnerável politicamente. Vários trabalhistas estão a pedir a sua demissão — e quatro governantes apresentaram na terça-feira a sua demissão.
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Neste contexto, o discurso do Rei serviu como uma oportunidade para o Governo determinar as prioridades políticas para os próximos meses, tentando enfraquecer a oposição interna a Keir Starmer. O primeiro-ministro tem garantido que se manterá no cargo.
Entretanto, segundo avança o The Times, o ministro da Saúde britânico, Wes Streeting, terá dito a aliados próximos que se prepara para se demitir do Governo e desencadear uma luta pela liderança do Partido Trabalhista, desafiando diretamente Keir Starmer.
Um aliado que falou diretamente com Wes Streeting indicou que o governante deverá anunciar a decisão já esta quinta-feira. Nos bastidores, estarão também a decorrer contactos para reunir o apoio de deputados necessário a formalizar a candidatura.
*Artigo atualizado às 17h45 para clarificar que o discurso lido por Carlos III é escrito pelo Governo e não é da sua autoria