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(A) :: De "O Diabo Veste Prada 2" a "Euphoria". Marcas portuguesas ganham espaço nos ecrãs de produções internacionais

De "O Diabo Veste Prada 2" a "Euphoria". Marcas portuguesas ganham espaço nos ecrãs de produções internacionais

Das carteiras da Alameda Turquesa que aparecem em O Diabo Veste Prada 2 à colaboração dos Ernest W. Baker com a produção de Euphoria para construir o guarda-roupa de uma nova personagem.

Sâmia Fiates
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Quando Ana e Carolina foram ao cinema para assistir a O Diabo Veste Prada 2, ativaram o modo “olhos de lince” à procura de uma peça em especial. E é numa cena muito rápida, em que Nigel e Andrea — as personagens de Stanley Tucci e Anne Hathaway — conversam no closet da revista Runway, que estão lá posicionadas ao fundo as duas versões da Hana Bag. Um modelo de carteira em crochê com aplicações de pérolas criado por Ana para a filha Carolina ir a uma festa de 18 anos, já lá vão duas décadas. “Quando começámos a marca, eu disse que devíamos pôr as carteiras que ela fazia para mim e para a minha irmã porque toda a gente as adorava. É muito engraçado ver essas peças em produções tão grandes”, revela ao Observador Carolina Santos, uma das fundadoras da Alameda Turquesa, a marca portuguesa que conseguiu um lugar no concorrido guarda-roupa do filme.

O contacto com a marca foi feito há mais ou menos um ano. Entre as várias peças que a produção do filme escolheu para serem enviadas, estavam as carteiras de pérola na versão maior e menor, e vários pares das mules de pelo que já tinham feito furor ao aparecerem na série Emily in Paris no passado. Mas Ana e Carolina precisaram de manter o processo sob confidencialidade absoluta, não podendo revelar que tinham enviado peças até que o filme fosse lançado e as mesmas aparecessem no ecrã. “Nós somos uma marca pequenina, familiar e portuguesa. Achávamos que podíamos sair, mas não tínhamos 100% de certeza porque isto não foi nada pago, não foi placement. Tem a ver com a equipa querer que as nossas coisas apareçam ou não. Ir ao cinema e ver as nossas coisas, ainda que rápido, foi muito engraçado”, conta a co-fundadora.

Mas além da presença no cinema, a marca portuguesa ainda conquistou o elenco nos bastidores. “Eles pediram especificamente para ficar com as peças porque as atrizes as tinham usado no set entre as filmagens. Elas gostam muito de usar as nossas mules. Na devolução, disseram-nos que elas tinham gostado muito e pediram para ficar com elas”, diz Carolina, que conta ter enviado pares para as atrizes principais da produção, incluindo Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt.

As peças made in Portugal já têm conquistado o seu espaço no pequeno ecrã: antes da Alameda Turquesa chegar aos pés de Lily Collins na série da Netflix, em 2018 outra marca portuguesa entrou no guarda-roupa da espanhola Elite. Foi a personagem de Carla Rosón Caleruega a aparecer com uma carteira da Manjerica, marca de peças feitas à mão inspiradas nas ilhas dos Açores. Em 2023 foi a vez dos pijamas da Under Sleepwear aparecerem na série da HBO Pollos Sin Cabeza, vestidos por Sonia, a namorada do protagonista, interpretada pela atriz Dafne Fernández.

Voltando aos dias atuais, a terceira temporada de Euphoria tem sido elogiada nas redes sociais pelo guarda-roupa, que inclui várias criações nacionais. Quando Maddy, personagem de Alexa Demie, caminha à beira da piscina num casaco de pelo castanho, está a usar Ernest W. Baker, marca com produção no norte, encabeçada pela dupla de designers Reid Baker e Inês Amorim, e que fez o primeiro desfile na Paris Fashion Week em janeiro deste ano. Uma parceria que foi ao ponto da marca criar peças específicas para uma nova personagem. “Trabalhámos anteriormente noutra série da HBO, The Idol. Foi esse o primeiro contacto que tivemos com a figurinista Natasha Newman-Thomas. Fomos convidados por ela para participar na Euphoria. Mas dessa vez, foi mais ao pormenor: recebemos a explicação das personagens e fizemos custom books para a personagem do Alamo Brown. As peças foram criadas especialmente para ele, recebemos o moodboard para entrar no mundo dele”, conta ao Observador Inês Amorim.

Criar para a ficção tem, entretanto, as suas particularidades. “Alguns dos looks tivemos de repetir oito vezes e tínhamos de o fazer numa semana. Tínhamos prazos muito apertados, mas estando em Portugal, próximos dos nossos confecionadores, conseguimos. Íamos trabalhando com eles durante as filmagens”, revela a designer, que já vestiu nomes como Harry Styles e Pharrel Williams. “A nossa marca é muito inspirada em cinema e em moods. Achamos interessante expandir não só para lojas ou celebridades, mas para a ficção. Encaixa-se perfeitamente; o cinema sempre foi algo que admiramos e queremos continuar”, conta Inês. A marca trabalha, para já, no guarda-roupa de outra produção internacional que deve ter detalhes revelados em breve.

Fora do ecrã, mas ainda no universo das séries de sucesso, a Vista Alegre lançou recentemente uma coleção com a Netflix e a Shondaland, inspirada no universo de Bridgerton. Concebida e produzida pela centenária empresa de porcelana portuguesa, a coleção compõe um conjunto de chá com peças que vão dos 40 aos 240 euros. Inclui pratos, bule, açucareiro, leiteira, chávenas e suporte para bolos, todos com motivos românticos e florais, típicos do ambiente da série, que se passa durante a era regencial britânica.

“As flores originais da série foram reinterpretadas através da linguagem tradicional de pintura em porcelana da Vista Alegre. As composições foram desenvolvidas pelo VA Studio, inspirando-se tanto no universo visual de Bridgerton como nas composições decorativas do século XIX, introduzindo simultaneamente proporções contemporâneas subtis, refletindo o equilíbrio da própria série entre a elegância de época e uma sensibilidade moderna”, assinala Alda Tomás, Diretora Criativa da Vista Alegre, em comunicado.