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(A) :: O Estado tritura quem trabalha e barateia quem somos

O Estado tritura quem trabalha e barateia quem somos

Exige-se decência absoluta para quem vem suar a camisa por este país, e exige-se um respeito sacralizado e cioso por aquilo que somos.

Rui Sampaio
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A nacionalidade portuguesa não é um recibo de vencimento, nem um prémio de assiduidade. Mas o imperativo de proteger o nosso passaporte não justifica a monstruosidade burocrática da AIMA, que tortura precisamente quem nos procura para suar, produzir e reerguer a economia.

Portugal padece de uma esquizofrenia institucional profunda, forjada ao longo de uma década de delírio ideológico. Confundimos a utilidade económica do imigrante com o seu direito automático à alma da nação. Transformámos o passaporte português, um documento selado a sangue, história e pertença cultural, num brinde de pacote de cereais, distribuído com a leviandade burocrática de quem odeia o próprio legado. E agora, acossado pelo pânico tardio da descaracterização demográfica e pela erosão da nossa soberania, o Estado tenta corrigir o laxismo histórico criando um matadouro administrativo que pune, com sadismo, os únicos que não têm culpa, os que apenas bateram à nossa porta para trabalhar.

A nacionalidade não se decreta no fim de uma jornada laboral. Não é um bónus contratual para colmatar a falência do nosso sistema de pensões. O endurecimento da lei da nacionalidade, com os seus prazos propostos de sete e dez anos seria a transição silenciosa para uma lógica de jus sanguinis, não é a tragédia fascista que a esquerda apregoa, é o instinto primário de sobrevivência de uma comunidade que recusa dissolver-se numa amálgama globalista sem rosto. Quem vem para colher nos campos de Odemira, erguer o imobiliário de Lisboa ou servir à mesa no Algarve merece o nosso mais profundo e absoluto respeito económico e contratual. Mas um contrato de trabalho não compra uma pátria. Confundir acolhimento laboral com cidadania instantânea é a arrogância moral de uma elite progressista que, no conforto dos seus condomínios fechados, nivelou por baixo o conceito milenar de ser português.

Contudo, a defesa intransigente e inegociável da nossa identidade não nos absolve da abominação moral, logística e política que dá pelo nome de AIMA. Chamar-lhe “agência” é um exercício de cinismo semântico. A AIMA é um purgatório institucionalizado, um buraco negro gangrenado por greves crónicas, mediadores culturais precários e suspeitas rastejantes de corrupção. O seu propósito prático não é regular, é vencer o estrangeiro pela exaustão. Se a premissa basilar de uma direita sã e realista determina que quem quer trabalhar com honestidade deve ter um tapete vermelho de eficiência à entrada, o Estado português responde trancando as portas do país, perdendo a chave e obrigando o operário a humilhar-se em filas de madrugada para preencher formulários digitais que nunca funcionam.

A nossa hipocrisia não tem limites. O país é um vasto lar de terceira idade, assombrado pelo inverno demográfico, cujo tecido empresarial, assente num modelo de baixo valor acrescentado, asfixiaria em quarenta e oito horas sem a injeção ininterrupta de força de trabalho imigrante. Precisamos desesperadamente de braços. A resposta estrutural a esta evidência matemática exigiria clareza contratual, rapidez de emissão de vistos laborais e dignidade logística na integração de quem produz. Em vez disso, a falência operacional da AIMA atira milhares de imigrantes honestos, reféns da letargia do Estado, para a clandestinidade, para as máfias do tráfico humano e para as catacumbas de uma economia paralela. Queremos desesperadamente trabalhadores, mas o Governo trata-os com a magnanimidade hostil de um carrasco soviético.

Entretanto, o espaço público foi sequestrado pelas trincheiras da indignação performativa. O algoritmo impiedoso do Facebook e do X alimenta uma guerra civil diária e intelectualmente estéril. De um lado, uma certa direita estridente e de visão curta, que exige a deportação sumária ou o fecho de fronteiras, fingindo ignorar olimpicamente que o seu sacrossanto café fecharia as portas sem o empregado brasileiro, cabo-verdiano ou nepalês. Do outro, a esquerda de salão, que chora lágrimas virtuais de “fraternidade” e ergue cartazes pelo acolhimento irrestrito, recusando assumir que foi a sua obsessão ideológica e a sua tolerância cósmica com a ineficiência do aparelho de Estado, que atirou estes migrantes para o subsolo social, amontoados em beliches nos T1 da Almirante Reis, financiando os senhores do rentismo que tanto juram combater.

Chegámos ao fim do caminho. Portugal transformou-se numa máquina burocrática de rejeição identitária dupla. Falhamos aos nossos e falhamos aos que chegam. Barateámos de tal forma a nossa nacionalidade que a reduzimos a um papel destituído de valor anímico e, numa pirueta de suprema indignidade, burocratizamos de tal forma a imigração laboral que transformamos a atração de talento num calvário processual.

Exige-se decência absoluta para quem vem suar a camisa por este país, e exige-se um respeito sacralizado e cioso por aquilo que somos. Um visto de residência é um contrato mútuo de utilidade e respeito, já o passaporte é um destino, uma herança intransmissível. Enquanto o poder político português não tiver a coragem intelectual de separar a enxada da Pátria, continuaremos a castigar quem trabalha, a vender quem somos e a definhar perante os olhos de um mundo que não nos perdoará a irrelevância. E, no fim de tudo, quando o sistema colapsar sobre o próprio peso, não haverá portugueses para defender os escombros, nem estrangeiros dispostos a limpar a nossa desgraça.