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"As Águias da República": um "thriller" político no Cairo, entre filmes e conspirações

Em "As Águias da República", de Tarik Saleh, o mais popular ator do Egipto é obrigado a interpretar o Presidente do país num filme de propaganda para o governo. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Eurico de Barros
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Em 2020, a televisão do Egito exibiu a série patriótica The Choice, na qual o ator que interpreta o presidente do país, Abdel el-Sisi, não tinha a menor parecença física com este. A história serviu de ponto de partida para o realizador sueco-egípcio Tarik Saleh conceber As Águias da República, o terceiro filme da sua Trilogia do Cairo, sobre a corrupção institucional no país. Segue-se a The Nile Hilton Incident (2017), passado entre a polícia cairota (e que levou a que Saleh deixasse o país e não possa lá voltar mais) e Conspiração no Cairo (2022), sobre os choques entre a hierarquia religiosa islâmica, os serviços secretos e as Forças Armadas, que controlam o Estado e os principais sectores económicos do país — incluindo a indústria cinematográfica.

Em As Águias da República, Fares Fares, o ator favorito de Saleh, interpreta George Fahmy, a mais popular estrela do cinema egípcio e do mundo árabe (um dos seus maiores sucessos é uma comédia chamada Um Egípcio no Espaço…). Fahmy não é muçulmano mas sim cristão copta, está separado da mulher e tem um filho adolescente que negligencia e a quem dá presentes caros para compensar; e uma amante mais nova, também atriz, que lhe está sempre a pedir para a ajudar na carreira. Está a acabar uma nova fita e, juntamente com o realizador, a tentar convencer os censores a não terem que refilmar o final, considerado “depravado” (“É um plano à Antonioni”, chora-se aquele).

[Veja o “trailer” de “As Águias da República”:]

https://www.youtube.com/watch?v=zh3K9WxWxQA

Certa noite, Fahmy é abordado num bar por um punhado de pessoas que o questionam sobre o seu patriotismo e a sua lealdade ao Presidente el-Sisi, e responde em tom jocoso. No dia seguinte, é substituído por outro ator no novo filme que ia rodar e a sua luxuosa caravana é retirada do estúdio. É então que o seu agente lhe diz que os militares querem que ele interprete el-Sisi numa grande fita de propaganda sobre o golpe de Estado de 2013. Fahmy recusa porque não é nem de longe parecido com el-Sisi nem muçulmano, e não quer fazer filmes desses. Começa então a ser seguido e a receber ameaças contra o filho, percebe que tem o apartamento está sob escuta, e uma das suas colegas e grande amiga deixa subitamente de ter papéis e vai, em aflição, pedir-lhe ajuda.

Assustado, Fahmy aceita personificar el-Sisi no filme e é convidado para jantar em casa do ministro da Defesa com um grupo de figuras do regime, auto-denominado As Águias da República, que lhe dizem ser “o escudo que protege o Egito”, e o convidam – de forma irrecusável — para discursar perante el-Sisi nas comemorações do Dia das Forças Armadas. Na rodagem e fora dela, Fahmy sente-se cada vez mais vigiado e constrangido, em especial pelo misterioso e patibular Dr. Mansur (Amr Waked), que supervisiona as filmagens ao pormenor e intervém quando as coisas não lhe agradam, chegando até a intimidar o ator. Fahmy irá perceber, e de forma trágica, que é o pião das nicas de duas fações do governo numa conspiração.

[Veja uma entrevista com o realizador e com o ator:]

https://www.youtube.com/watch?v=hhn6_umDPdM

Nem nos anteriores The Nile Hilton Incident e A Conspiração do Cairo, Tarik Saleh foi tão longe, e de forma tão explícita, no seu ataque ao regime egípcio, ao Presidente el-Sisi e à oligarquia militar que controla o país e enriquece à custa dele como em As Águias da República, que faz lembrar o Costa-Gavras “engajado” das décadas de 70 e 80, na sua mescla de filme político-social e de policial mainstream. Saleh frisa ainda que se já muito antes do golpe de 2013 a indústria cinematográfica, e do entretenimento em geral, do Egito, tinha forte ligações ao poder, elas ficaram ainda mais fortes depois daquele (o filme, tal como os dois anteriores, foi rodado na Turquia)

Fares Fares é muito bom na vedeta egocêntrica que se deixa envolver lentamente numa intriga conspiratória que lhe escapa até ser tarde demais, e que vai vendendo a dignidade e a alma aos poucos, um homem que, tal como os protagonistas dos dois filmes anteriores, pensa controlar a sua vida e o seu destino, mas acaba quebrado por forças e interesses maiores e implacáveis. O filme fala do Egipto de hoje, da sua estrutura de poder oligárquica e autoritária e de como esta age e pesa sobre a sociedade, jogando também com a ressonância universal dos temas da censura, da propaganda, da manipulação das pessoas e das lutas internas entre os atores do poder.

O problema de As Águias da República fica guardado para o fim. A resolução da história é algo apressada e atabalhoada, contrastando com a clareza de exposição do filme até aí (e, já agora, a ocultação do putsch ao grande público, nesta era dos smartphones e das redes sociais, é muito improvável). A fita não fica totalmente comprometida, mas acaba a mata-cavalos e a coxear, quando tinha vindo a caminhar com calma e passo firme e seguro.