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António Costa - o cinismo de quem criou o problema

A divergência entre preços e rendimentos começou precisamente em 2016, durante os governos de Costa, e agravou-se de forma contínua durante toda a sua governação.

Alberto Veronesi
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Há momentos em que a audácia política choca de tal forma com os factos que só pode ser interpretada como um cálculo frio sobre a memória coletiva, ou a falta dela. Num discurso perante o Comité Económico e Social Europeu em Bruxelas, António Costa, atual presidente do Conselho Europeu e ex-primeiro-ministro de Portugal durante oito anos, declarou ser “inaceitável” que jovens portugueses tenham de gastar “100% do salário” durante duas ou três décadas para conseguir comprar uma casa. Uma afirmação verdadeira. Uma afirmação que ele deveria ter feito quando tinha poder para mudar o problema. Uma afirmação que, dita por ele, no papel que ocupa agora, é um insulto a cada português que viveu os anos da sua governação.

Comecemos pelo essencial. Os dados. Desde 2015, exatamente o ano em que António Costa chegou ao poder, os preços das casas em Portugal subiram 180%, a segunda maior valorização de toda a União Europeia segundo o Eurostat. Não é coincidência de calendário. É o retrato de uma política que durante anos privilegiou o turismo, o investimento estrangeiro no imobiliário sobre o direito à habitação dos seus próprios cidadãos.

O Índice de Preços da Habitação em Portugal partiu de uma base 100 em 2015 e chegou a 280 em 2025, o valor mais que duplicou em dez anos. Em 2022, ano ainda sob Costa, os preços subiram 12,6%. Em 2023, mais 8,2%. A aceleração não foi um acidente externo mas sim o resultado direto de políticas que o seu governo escolheu manter, promover e expandir.

Evolução dos Preços da Habitação em Portugal  ·  INE / Eurostat

A propaganda do PS governante fez do aumento do salário mínimo um troféu de campanha. E os números nominais são reais: o salário mínimo passou de 505 euros em 2015 para 820 euros em 2024, um aumento de 62%. Costa gostava de o anunciar com orgulho. O que nunca explicou é que esse mesmo período foi aquele em que os preços das casas triplicaram em Lisboa e no Porto, tornando o número um exercício de ilusionismo estatístico.

Os jovens com idades entre os 16 e os 24 anos auferiam, em 2024, um salário médio líquido de 840 euros mensais. Os jovens dos 25 aos 34 anos, 1.085 euros. Em 2023, 75% dos trabalhadores entre os 18 e os 35 anos ganhavam menos de 1.000 euros líquidos por mês. No mesmo período, arrendar um T2 na Grande Lisboa consumia frequentemente mais de um salário mínimo líquido inteiro , antes de se pagar qualquer outra despesa.

“Em 2023, Portugal foi o país europeu com pior acesso à habitação, medido pelo rácio preço/rendimento , o pior de toda a União Europeia.”

A OCDE mede o acesso à habitação através do rácio entre o índice de preços das casas e o rendimento per capita. Quanto mais alto o rácio, mais inacessível a habitação. Em 2023, Portugal foi o país europeu com o rácio mais elevado de toda a União Europeia , pior do que a Holanda, pior do que o Luxemburgo. Esta divergência entre preços e rendimentos começou precisamente em 2016, durante os governos de Costa, e agravou-se de forma contínua durante toda a sua governação.

O Fosso Entre Salários e Habitação  ·  Dados 2023–2024

Fontes: EDUSTAT/INE, Instituto +Liberdade, OCDE, Rádio Renascença

Perante estes factos, como é possível que um governo que dizia defender os mais vulneráveis tenha presidido a esta catástrofe silenciosa? A resposta está nas opções políticas concretas e não, como se quer dar a entender, nos acidentes externos.

Os Vistos Gold, um programa criado em 2012 para atrair capital estrangeiro através de investimento imobiliário, foram mantidos e promovidos durante anos pelos governos de Costa. Mais de 11.700 autorizações de residência foram emitidas. O próprio Costa acabou por reconhecer, em fevereiro de 2023, que o programa tinha “um impacto muito grande” no mercado imobiliário, só que o disse ao décimo segundo ano de vigência do programa, e ao oitavo do seu governo. O fogo já estava descontrolado quando ele decidiu chamar os bombeiros.

O Alojamento Local, transformado em indústria turística à escala de bairro inteiro, retirou progressivamente habitação permanente do mercado em Lisboa, Porto e em dezenas de concelhos costeiros. António Costa chegou a reconhecer que, num único ano, mais de duas mil habitações tinham saído do mercado para entrar no regime de Alojamento Local. Mas as licenças continuaram a ser emitidas, os benefícios fiscais continuaram a existir, e a lei só mudou, timidamente, e com muitas exceções, em 2023, quando o estrago já estava feito.

Para perceber o fracasso relativo da política salarial portuguesa, basta olhar para além da fronteira. Em 2015, quando Costa chegou ao poder, a diferença entre o salário mínimo em Portugal e em Espanha era de cerca de 150 euros mensais. Em 2024, essa diferença tinha duplicado para mais de 300 euros, com Espanha a pagar 1.134 euros mensais enquanto Portugal pagava 820 euros. O país mais parecido com Portugal, com uma história económica semelhante e a mesma herança de crise da troika, conseguiu aumentar o salário mínimo em muito mais do que nós durante o mesmo período.

Num país onde os salários são os nonos mais baixos dos 27 da União Europeia , segundo o Eurostat para 2023 , e onde os preços da habitação sobem ao segundo ritmo mais rápido da Europa, a matemática é cruelmente simples. Não é necessário gastar “100% do salário” numa hipoteca de 30 anos porque os jovens sejam irresponsáveis ou escolham mal. É porque o Estado, o Estado que Costa liderou, lhes vendeu essa equação como se fosse um problema de outros.

Há qualquer coisa de profundamente revelador no momento e no lugar em que esta declaração foi feita. António Costa não disse isto num comício em Setúbal ou numa entrevista a uma rádio local. Disse-o em Bruxelas, perante um comité europeu, num discurso sobre a autonomia estratégica da União Europeia. Disse-o com a distância confortável de quem já não tem de responder por nada, de quem trocou o Largo do Rato por Bruxelas, de quem transformou o fracasso interno num argumento de política europeia.

O populismo de Costa não tem a brutalidade de outros, é um populismo fino, de aparato académico, vestido de preocupação genuína. Mas é populismo na mesma. É o discurso que diz “isto é inaceitável” sem nunca dizer “eu fiz isto acontecer”. É a indignação de quem assina as leis e depois finge ter sido atropelado por elas.

Os dados são implacáveis. Entre 2015 e 2024, sob governos liderados por António Costa, os preços das casas em Portugal subiram 180%, tornando o país no de pior acesso à habitação de toda a União Europeia. Os salários dos jovens ficaram muito abaixo dessas subidas. As políticas que alimentaram a especulação imobiliária, Vistos Gold, Alojamento Local, incentivos fiscais ao investimento estrangeiro, foram promovidas, toleradas ou corrigidas demasiado tarde e de forma insuficiente.

Quando António Costa diz em Bruxelas que é “inaceitável” gastar um salário inteiro em habitação, tem razão nos factos e é desonesto na omissão. A questão não é se o problema existe, existe, e é grave. A questão é quem o criou, quem o agravou e quem agora o instrumentaliza para parecer estadista europeu.

Portugal não é um exemplo de boa governação habitacional que foi atingido por forças externas. É um exemplo de como oito anos de prioridades erradas destroem o futuro de uma geração.

E quando o arquiteto dessas prioridades ergue a voz para se indignar, a única resposta honesta é perguntar-lhe onde estava quando o problema ainda era possível resolver?

Fontes: INE , Índice de Preços da Habitação (2015–2025); Eurostat , House Price Index e Rental Price Index (Abril 2026); OCDE , Price-to-Income Ratio Housing Database; EDUSTAT/INE , Distribuição salarial por faixa etária 2024; Instituto +Liberdade , Evolução SMN e salários jovens; O Contador , Rácio preço/rendimento habitação na UE; Polígrafo , Fact-check evolução SMN 2015–2024; Rádio Renascença , Comparação salarial Portugal/Espanha; RTP Notícias , Declarações de António Costa (29 Abril 2026).