1 Ainda nem tínhamos entrado na pequena praça da Igreja de Santo Agostinho dos Jesuítas em Viena e já se ouvia Dvorak. É sempre assim aos domingos. O eco do ensaio da orquestra, solistas e coro que antecederia a missa dessa manhã, confundia-se já com o ar fresco da rua numa cidade ainda quieta. O impacto da descoberta desta igreja, de branca geometria exterior e deslumbrante intramuros, transformou-a numa tradição: a nossa presença dominical na missa dos Jesuítas passou a escolha obrigatória sempre que, por razões familiares, vamos a Viena. Vai-se cedo, assiste-se ao ensaio, com a igreja a essa hora quase deserta e normalmente gelada, e depois à missa. Um solitário, maravilhoso momento. Olhando para tudo aquilo com a certeza que a inspiração da música de cada compositor se cruzará sempre algures com o sopro do transcendente a descer sobre cada músico. Sempre acreditei que a Deus estava a falar comDvorak enquanto ele compunha.
2 É por estas e por outras que de cada vez que ando pela Europa – como em Abril em Viena ou, na passada semana, em Bruges e Gante – me lembro sempre e sempre com pasmo da elaboração da Constituição Europeia. Como foi possível que a matriz judaico-cristã tivesse sido voluntariamente arredada do texto constitucional, negando uma origem e banindo um berço civilizacional de que somos os felizes herdeiros? No saber acumulado, no caminho andado, nas descobertas, no progresso, na conquista. Mas também numa catedral, uma biblioteca, um desenho arquitectónico, uma partitura, um retábulo? Ou até na púrpura das pregas do manto de uma Madona, na dor inscrita nas lágrimas de mármore de uma Pietá?
Eram já tão fortes os ventos do tempo antiocidental que corria?
3 Ainda no decorrer dos laboriosos trabalhos do fazer da Constituição – e da polémica em torno da legitimidade de a sua matriz ali ficar impressa – o então Cardeal Ratzinguer fez ouvir a sua voz carregada de luminosa sabedoria. Outras se ergueram – muitas nem sequer católicas –, ninguém as ouviu. O tema foi-se sumindo ardilosamente de qualquer agenda. Ignoro se sobrará alguma indignação silenciosa mas as perguntas de ontem permanecem hoje, 40 anos depois, sem resposta: porque se negou tão decisivamente a origem e o legado de uma civilização?
Bastava ter ouvido aquela Missa de Dvorak em Viena para o pasmo permanecer o mesmo: intacto e inteiro.
4 E ainda a propósito: foi com vagar e deleite que há dias pude observar em Bruges e em Gante a que ponto ambas as cidades contam no seu excepcionalíssimo património peças absolutamente essenciais para entender a origem da história da pintura europeia. Não há entendimento ou vontade humana capaz de contrariar como elas estão naturalmente inscritas na raiz e matriz cultural judaica-cristã do solo que lhes foi berço, tão espezinhado pelos seus.
5 O sublime Retábulo “O Cordeiro Místico” dos irmãos Van Eyck – começado por Hubert, terminado por Jan – é um hino jubiloso à civilização europeia, ao representar Cristo sob a forma de “cordeiro”, motivo frequente e eloquente da simbólica eucarística. Se “O Cordeiro Místico” e os fulgurantes retratos pintados por Jan Van Eyck – luz, detalhe, beleza pura – foram, com as telas de Hans Memling, o mais emocionalmente impressivo que retive deste pequeno périplo, muito mais haveria a contar sobre a verdadeira identidade de uma matriz.
Mas há algo que não pode faltar, a César o que é de César. Devo absolutamente o ter aprendido a ver o que vi, ao professor Fernando António Baptista Pereira, historiador de saber enciclopédico, e dotadissimo comunicador. E, nesta feliz ocorrência, o cicerone inspirado do pequeno grupo de interessados a que me juntei durante quatro dias em Bruges e Gante.
6 Viena e Bruges ficaram lá. Foi pena. Voltar a Portugal foi um bocadinho difícil: alguém dará por isso que diariamente se desce um degrau na vida do país – politica, social, económica, cultural, educacionalmente?