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O fim do bipartidarismo no Reino Unido?

O que pode sinalizar uma mudança mais estrutural no sistema partidário britânico é o facto de o Partido Conservador não ter sido capaz de capitalizar o descontentamento com os trabalhistas.

André Azevedo Alves
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O Reino Unido tem um sistema fundamentalmente bipartidário há mais de três séculos. Primeiro, de forma embrionária, com a divisão entre Whigs e Tories. A partir de meados do séc. XIX, de forma mais clara e bem definida com a rivalidade entre o Partido Conservador e o Partido Liberal. E, finalmente, desde há cerca de 100 anos, com o Partido Trabalhista a rivalizar com o Partido Conservador. Como é bem conhecido de quem estuda Ciência Política, o sistema eleitoral First Past the Post (FPTP) é um factor explicativo importante para a persistência, em traços gerais, deste tipo de sistema partidário. Esse sistema, que consiste na eleição à primeira volta do candidato mais votado em círculos uninominais sem quaisquer mecanismos de compensação, gera fortes incentivos para que os votos convirjam em dois partidos principais. Tal não impediu que outros partidos fossem tendo representação em Westminster, mas facilitou regra geral a formação de maiorias de governação com um só partido e um sistema partidário assente na alternância entre dois grandes partidos. A facilitação dessa alternância periódica na governação é aliás um dos principais factores habitualmente avançados em defesa do sistema eleitoral FPTP, não obstante o prejuízo claro da proporcionalidade e da representatividade.

Dada a elevadíssima insatisfação com o governo liderado por Keir Starmer (que dificilmente ressuscitará politicamente depois deste resultado…), a esmagadora derrota trabalhista não surpreende. Mas o que pode sinalizar uma mudança mais estrutural no sistema partidário britânico é o facto de o Partido Conservador não ter sido capaz de capitalizar esse descontentamento a seu favor, como tipicamente acontece no âmbito do bipartidarismo. Desgastado por anos de governação medíocre, inconsistência programática e erros sucessivos, o Partido Conservador perdeu boa parte das suas bases de apoio tradicionais e assiste à subida fulgurante do Reform liderado por Nigel Farage. Como salientou João Marques de Almeida:

“O sistema bipartidário, dominado pelos conservadores e pelos trabalhistas (com mais de um século), também parece ter chegado ao fim. Já falei da derrota trabalhista, mas os conservadores também perderam. Foram os segundos grandes derrotados das eleições. Depois dos trabalhistas, os Tories foram quem mais perdeu em Inglaterra. Na Escócia, ficaram em quinto lugar, atrás do partido nacionalista, dos trabalhistas, do Reform e dos Verdes. No País de Gales, ficaram em quarto lugar, muito atrás do Reform. Na Escócia e no País de Gales, o partido de Farage já é o maior partido de direita. Desconfio que também será em Inglaterra, após as próximas eleições legislativas.”

À esquerda, o Partido Trabalhista vê também a sua vida a complicar-se devido à ascensão dos Verdes, assentes numa coligação política radical que tem tanto de bizarra como de instável e potencialmente explosiva ao unir (?) a extrema-esquerda woke com extremistas identitários islâmicos. O resultado final de tudo isto foi devastador para o Partido Trabalhista, com a perda de bem mais de metade dos lugares que detinha e que foram disputados nestas eleições (um número global de perdas aliás similar aos ganhos globais do Reform – que aumentou em quase 1500 o seu número de councillors). Isto ao mesmo tempo que o Partido Conservador também sofreu perdas significativas e que os Verdes cresceram de forma substancial evidenciando assim um sistema partidário claramente mais fragmentado.

É também sintomático que a primeira sondagem YouGov publicada depois das eleições locais dê o Reform com 28% e uma vantagem de quase dez pontos percentuais sobre o Partido Conservador, que recolhe apenas 17% das intenções de votos, seguido pelos Verdes e pelo Partido Trabalhista, cada um com 16%. Dado o sistema eleitoral britânico, não é de todo evidente que esta fragmentação conduza a um governo de coligação (nomeadamente entre Reform e Partido Conservador). Ainda que a distribuição regional assimétrica de apoio entre os dois partidos possa favorecer essa possibilidade, o sistema FPTP faz com que não seja impossível ao Reform conseguir uma maioria parlamentar com um resultado apenas ligeiramente superior ao que vai tendo por agora nas sondagens. Ou seja, o Reform pode mesmo substituir o Partido Conservador.

Ironicamente, uma das principais esperanças dos opositores do Reform pode ser a afirmação à direita do Restore, o novo partido liderado por Rupert Lowe, que aponta baterias à alegada brandura de Nigel Farage, especialmente em matéria de política migratória. Sendo certo que uma eventual afirmação do Restore pode ajudar a normalizar o Reform e facilitar o crescimento do partido de Nigel Farage ao centro, há também o risco de o Restore provocar a perda de lugares marginais pelo Reform, um risco que é especialmente acentuado com o sistema FPTP.

Admitindo que o partido de Farage continua a sua trajetória ascendente, o resultado destas eleições locais reforça que poderemos ter num futuro não muito distante o Reino Unido governado pelo Reform. Com a possibilidade real de o Rassemblement National também chegar ao poder em França, uma coisa parece certa: nos próximos anos o tema da imigração (incluindo propostas de remigração) vai estar cada vez mais no topo da agenda na Europa.