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A “Rosa” tinha espinhos para Portugal. Bandidos do Cante falham apuramento para a final da Eurovisão

Bandidos do Cante trouxeram "Rosa" à primeira semifinal em Viena, mas não receberam pontos suficientes. Portugal falha apuramento para a final da Eurovisão pela primeira vez desde 2019.

António Moura dos Santos
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A concorrer com Rosa, dos Bandidos do Cante, Portugal falhou o apuramento para a final deste sábado, 16 de maio, da 70ª edição do Festival Eurovisão da Canção, numa noite novamente marcada pela contestação à participação de Israel no concurso.

A participação portuguesa esteve a concurso na primeira de duas semifinais a decorrer na arena Wiener Stadthalle, em Viena, na Áustria, mas não conseguiu ficar colocada entre os 10 classificados para seguir para a final.

Nesta semifinal, Portugal concorreu com Moldova (com a canção Viva, Moldova, interpretada por Satoshi), Suécia (My System/FELICIA), Croácia (Andromeda/LELEK), Grécia (Ferto/Akylas), Geórgia (On Replay/Bzikebi), Finlândia (Liekinheitin/ Linda Lampenius & Pete Parkkonen), Montenegro (Nova zora/ Tamara Zivkovic), Estónia (Too Epic To Be True/Vanilla Ninja), Israel (Michelle/Noam Betten), Bélgica (Dancing on the Ice/ESSYLA), Lituânia (Sólo quiero más/Lion Ceccah), São Marino (Superstar/SENHIT), Polónia (Pray/ALICJA) e Sérvia (Kraj mene/LAVINA).

Os apurados — fruto dos votos dos júris nacionais e do público — foram a Moldova, a Suécia, a Croácia, a Grécia, a Finlândia, Israel, a Bélgica, a Lituânia, a Polónia e a Sérvia. Pelo caminho ficam, além de Portugal, a Geórgia, Montenegro, a Estónia e São Marino. Os pontos não foram divulgados pela organização.

Oriundos de Beja, os Bandidos do Cante garantiram a sua presença em Viena com a vitória da 60.ª edição do Festival da Canção a 7 de março, com Rosa, canção pop fortemente inspirada pelas tradições do cante alentejano. O quinteto — que contou com os préstimos da violinista Sara Fernandes durante a atuação — sucedeu aos Napa.

Com este resultado, Portugal volta assim a falhar uma passagem à final, tornando-se assim a sexta ocasião em que tal acontece desde que o formato da Eurovisão foi alterado em 2008. Até então, todos os concorrentes participavam numa única semifinal, à exceção do país anfitrião e dos “Big Five” (Alemanha, Espanha, França, Itália e Reino Unido), que tinham passagem direta à final. Com a entrada de mais países a concurso, nesse ano passou a haver duas semifinais; desde então, Portugal falhou cinco vezes a passagem: em 2011, 2012, 2014, 2015 e 2019.

Na véspera desta primeira meia-final, Portugal granjeava de muito ténues probabilidades de apuramento para a final nas casas de apostas: foi só esta terça-feira que passou a figurar no lote dos 10 apurados, com 51% de hipóteses, ultrapassando Montenegro, com 42%.

Portugal atuou em quinto lugar, após as atuações da Moldávia, da Suécia, da Croácia e da Grécia. Em décimo lugar na ordem da noite, a atuação de Israel foi marcada por alguns gritos de “stop the genocide” [“parem o genocídio”] durante o início de Michelle, a canção trazida pelo cantor Noem Bettan. Um dos autores do protesto foi inclusive detido e conduzido para fora da sala durante a atuação.

No final, escutaram-se principalmente aplausos, mas também foram percetíveis alguns apupos por parte do público. O momento em que a comitiva israelita soube que se tinha apurado para a final foi igualmente afetado por uma reação mista.

Tal situação deveu-se em parte à decisão da emissora anfitriã, a ORF, de não recorrer a ruído artificial para abafar vaias ou gritos de contestação nem de banir a presença de bandeiras oficiais da Palestina no interior do recinto — contrastando que se passou na edição de 2025, na Suíça . “A nossa tarefa é mostrar as coisas como elas são”, afirmou Stefanie Groiss-Horowitz, diretora de programação da emissora austríaca.

Esta primeira semifinal, transmitida em direto pela RTP1 às 20h00, contou também com as interpretações da Itália (Per sempre sì/Sal Da Vinci) e da Alemanha (Fire/Sarah Engels), países que já estavam à partida apurados por fazerem parte dos Big 5 (os outros são a Espanha, a França e o Reino Unido).

A segunda semifinal sucede-se esta quinta-feira, onde competem mais 16 países por outros dez lugares na final: Bulgária, Azerbaijão, Roménia, Luxemburgo, República Checa, Arménia, Suíça, Chipre, Letónia, Dinamarca, Austrália, Ucrânia, Albânia, Malta e Noruega. E, tal como hoje, serão apresentadas as canções de outros três países com entrada direta na final: França e Reino Unidos, assim como a Áustria, por ser o país anfitrião da edição deste ano.

Da mudança das votações aos boicotes: uma edição ensombrada pela contestação a Israel

Organizada este ano em Viena devido à vitória do austríaco JJ, com Wasted Love, em 2025, a 70ª edição do Festival Eurovisão da Canção já partia para esta noite inaugural com um recorde negativo: foi a primeira em mais de duas décadas a ter o menor número de participantes, com 35 países a concorrer.

Tal deveu-se à decisão da Irlanda, dos Países Baixos, da Eslovénia, da Islândia e, principalmente, da Espanha (um dos principais financiadores do concurso, sendo o quinto país do grupo dos “Big Five”) de boicotar esta edição devido à participação de Israel. A oposição à presença do país do Médio Oriente — o primeiro estado não europeu a poder participar no certame, em 1973 — deve-se aos ataques militares de Israel no território palestiniano da Faixa de Gaza, desde outubro de 2023, que mataram pelo menos 72 mil pessoas e foram classificados como genocídio por uma comissão internacional independente de investigação da Organização das Nações Unidas.

A União Europeia de Radiodifusão (EBU), a entidade organizadora do Festival Eurovisão da Canção, tem enfrentado apelos para excluir Israel do concurso desde 2024, mas tem permitido sempre a sua participação, resultando em protestos e controvérsia nos últimos anos.

Antes desta edição, chegou a ser equacionada uma votação entre os países membros da EBU sobre a participação de Israel. Todavia, a organização fez saber que uma “grande maioria” dos membros se tinha oposto a tal iniciativa, optando antes por aprovar a introdução de novas regras destinadas a impedir que governos e terceiros promovessem desproporcionalmente canções para influenciar os eleitores. Como tal, o número máximo de votos possível para cada espectador (feitos online, por SMS ou chamada telefónica) foi reduzido de vinte para dez, as semifinais voltaram a ter júris profissionais e passou a haver uma repartição de “aproximadamente 50/50 entre os votos do júri e do público” para as diferentes provas do concurso.

Como tal, os cinco países acima mencionados retiraram a sua participação. Entretanto, esta segunda-feira ficou a saber-se que as estações públicas de Espanha, da Irlanda e da Eslovénia decidiram não transmitir este ano o concurso. O grupo esloveno, RTV, anunciou que, em vez do Festival Eurovisão da Canção, iria exibir um programa dedicado ao povo palestiniano, o espanhol RTVE, um evento musical sem ligação à Eurovisão, e a cadeia pública irlandesa, Father Ted, uma série de comédia.

Da parte portuguesa, não obstante a vontade dos seus trabalhadores, a RTP recusou-se a apoiar o boicote, mas vários dos músicos a concurso no Festival da Canção — que apura o representante português na Eurovisão — assinaram uma carta onde assumiam a recusa em representar Portugal em Viena caso vencessem. No entanto, os vencedores dessa edição, os Bandidos do Cante, não subscreveram tal manifesto e fizeram saber que participariam na Eurovisão em caso de vitória.

Não foram, porém, apenas concorrentes a boicotar esta edição da Eurovisão. Sertab Erener, vencedora pela Turquia em 2003, Johnny Logan — que venceu pela Irlanda tanto em 1980 como em 1987 — e o português Salvador Sobral, que trouxe a vitória ao nosso país pela primeira vez na história do festival em 2017, foram alguns dos artistas que declinaram publicamente atuar em Viena.

Dada a contínua contestação à presença israelita, temia-se a repetição dos incidentes dos últimos dois anos. Em 2024, a 68.ª edição do Festival Eurovisão da Canção, em Malmö, na Suécia, ficou marcada por manifestações nas ruas, protestos na arena e vaias ao representante de Israel durante as atuações. A participação dos Países Baixos foi cancelada, depois de um “incidente” nos bastidores com a delegação de Israel. No ano passado, manifestantes pró-Palestina e polícia entraram em confronto em Basileia, Suíça, no dia da final.

A previsão de iguais protestos levou a autarquia de Viena a optar pelo reforço do policiamento na cidade, mas esta terça-feira foi marcada por apenas uma pequena manifestação na Schwedenplatz, a cinco quilómetros da arena Wiener Stadthalle, noticiou o Der Standard. A iniciativa contou com a presença de pequenos caixões com fotografias de crianças palestinianas falecidas e slogans como “Bloqueiem a Eurovisão, não celebrem genocídio” e decorreu pacificamente, escreve o jornal austríaco.

O concurso realiza-se anualmente desde 1956 e já houve países excluídos, caso da Bielorrússia, em 2021, após a reeleição do presidente Aleksandr Lukashenko, e da Rússia, em 2022, após a invasão da Ucrânia. É por essas exclusões que, dias antes da Eurovisão começar, a Amnistia Internacional acusou a EBU de “trair a humanidade” e “expor um flagrante caso de dois pesos e duas medidas” ao aceitar a participação de Israel quando quatro antes tinha suspendido a Rússia de concorrer.

https://observador.pt/2026/05/12/israel-pode-ter-manipulado-o-televoto-da-eurovisao/

Na véspera da 70ª edição da Eurovisão deu-se ainda uma nova controvérsia relacionada com Israel, desta feita na sequência das alterações ao sistema de votação aprovadas no final de 2025. Uma investigação do The New York Times denunciou indícios de manipulação do televoto na edição anterior do concurso, implicando o governo israelita.

De acordo com o NYT, o caso não se prendeu com o uso de bots, mas sim de campanhas de mobilização para tentar influenciar o voto, recorrendo ao facto de que cada pessoa podia votar até 20 vezes. O governo de Israel terá então feito repetidos apelos através de publicações nas redes sociais do artista a concorrer, de diplomatas, ativistas e membros do executivo — como o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu —, e até da própria página oficial do Estado de Israel.

Este ano, ainda que tenha diminuído o número de votos que cada pessoa dispõe de 20 para 10, ainda assim a representação israelita foi advertida pela própria EBU para o facto de Noem Bettan ter divulgado vídeos a fazer apelos semelhantes aos de 2025.

“Na sexta-feira, 8 de maio, fomos informados de que tinham sido publicados e divulgados vídeos com uma instrução no ecrã para ‘votar 10 vezes em Israel’ pelo artista que representa a KAN [a emissora israelita]. Em 20 minutos, contactámos a delegação da KAN para lhes pedir que suspendessem imediatamente qualquer distribuição dos vídeos e os retirassem de todas as plataformas onde tivessem sido publicados. Eles agiram imediatamente nesse sentido”, lê-se no comunicado da organização.

Eis a lista das 17 canções desta noite, por ordem de atuação:

Moldova (Apurado)

Satoshi – “Viva, Moldova”

https://youtu.be/sJjTOalT4DY?si=TL4RBycltJN6kCpZ

Suécia (Apurado)

FELICIA – “My System”

https://www.youtube.com/watch?v=az6XIorzZxM

Croácia (Apurado)

LELEK – “Andromeda”

https://youtu.be/-qtoDzlS-rk?si=ro9m4gp_qLtTPAKl

Grécia (Apurado)

Akylas – “Ferto”

https://youtu.be/G0y1sZ4CxaE?si=ncBDuOKrYd3XWmWw

Portugal (Não apurado)

Bandidos do Cante – “Rosa”

https://youtu.be/kWXyEWtB7KM?si=WIKxya73te1ToDkg

Geórgia (Não apurado)

Bzikebi – “On Replay”

https://youtu.be/6LzvIh9FQ0Q?si=HbZJ_fjGE3VDhKCF

Itália (Já apurado)

Sal Da Vinci – “Per sempre sì ”

https://youtu.be/OknnSe8SG8Q?si=xn_DCLl_kaiXbgOx

Finlândia (Apurado)

Linda Lampenius & Pete Parkkonen – “Liekinheitin”

https://youtu.be/i8vlDO89YQA?si=qBqk1vQpK7WEGezs

Montenegro (Não apurado)

Tamara Živković – “Nova zora”

https://youtu.be/_Xo12vfHqtk?si=bM3g6jrdORm6m2Mf

Estónia (Não apurado)

Vanilla Ninja – “Too Epic To Be True”

https://youtu.be/FfvawqmkXnA?si=SzFyigYOdBq13szP

Israel (Apurado)

Noam Bettan – “Michelle”

https://youtu.be/L9JVTSHKeqc?si=tX6KdHsnaYHY8YD0

Alemanha (Já apurado)

Sarah Engels – “Fire”

https://youtu.be/FpGjPN1E2DE?si=6NaEnREwTfZmEf8u

Bélgica (Apurado)

ESSYLA – “Dancing on the Ice”

https://youtu.be/hz8CWouTIoo?si=qQTHR_RxwFylAU-p

Lituânia (Apurado)

Lion Ceccah – “Sólo quiero más”

https://youtu.be/_0kkvvTc3hQ?si=YZC8x0XnxW-qUnK0

San Marino (Não apurado)

SENHIT – “Superstar”

https://youtu.be/VhwoT8ah9R8?si=TEnQoR9R2cNG4Azz

Polónia (Apurado)

ALICJA – “Pray”

https://youtu.be/WsmVIlscdJU?si=0Ba0z0VmjZwFlQY4

Sérvia (Apurado)

LAVINA – “Kraj mene”

https://youtu.be/uyfdKvR1nJM?si=LKrw6DUx0Xr5HDyJ

*com Lusa