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(A) :: Eleições antecipadas, uma assinatura do ABC e a garantia de que não tem cancro: a conferência onde Florentino falou de tudo (menos Mourinho)

Eleições antecipadas, uma assinatura do ABC e a garantia de que não tem cancro: a conferência onde Florentino falou de tudo (menos Mourinho)

Conferência com caráter urgente serviu para Florentino Pérez denunciar uma campanha de ataque ao Real que motivou demissão para forçar eleições antecipadas. Sobre futebol ou Mourinho, nem uma palavra.

Bruno Roseiro
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Era juntar dois mais dois: se o Real Madrid teve uma das piores temporadas dos últimos anos, se nas últimas semanas se aponta de forma mais insistente o nome de José Mourinho ao Santiago Bernabéu, se o treinador esteve mais de metade da conferência de imprensa após o empate do Benfica frente ao Sp. Braga a falar no pretérito passado, alguma coisa estava para vir. No entanto, e entre o muito que estava para vir, em nenhuma parte entrava (pelo menos para já) o nome do técnico português. E sim, numa altura em que o clube mais vezes campeão europeu soma casos, vê as soluções diminuírem, multiplica fatores de risco a médio/longo e encontra uma massa adepta mais dividida, as contas que estavam agora em cima da mesa eram outras.

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“O Real Madrid comunica que esta tarde, às 18h [hora espanhola], o nosso presidente, Florentino Pérez, comparecerá na sala de imprensa da Cidade Real Madrid, após a celebração da Junta Diretiva, e responderá aos meios de comunicação numa conferência de imprensa”, anunciaram os merengues em comunicado no site oficial durante a tarde, abrindo um rol de especulações e deduções sobre aquilo que podia estar em cima da mesa. Com um dado paralelo que afastava (mais) a possibilidade de Mourinho ser o tema principal do encontro – o técnico aproveitou a folga para visitar a família em Londres, depois de na semana passada se ter ausentado do país quando não tinha treinos para cumprir compromissos publicitários (em Itália).

https://twitter.com/realmadrid/status/2054200924625588458

“Se assinava contrato como disse a 1 de março? Não. Porque 1 de março é 1 de março, a última semana do Campeonato não é para se pensar em futuro, em contratos, é para pensar na missão que tínhamos que era de fazer um milagre. Acho que percebem o quero dizer com o milagre. A partir do momento em que entrámos nesta última fase, decidi que não queria ouvir ninguém, que queria estar ‘isolado’ no meu espaço de trabalho. Há um jogo com o Estoril e a partir de segunda-feira já poderei responder o que será o meu futuro enquanto treinador e o futuro do Benfica. Cabe-me a mim dar a resposta. Já me viu esconder das minhas decisões? Agora, que ninguém me obrigue a comunicar decisões porque sou eu que decido os momentos. Não estou em condições de lhe responder”, comentou Mourinho após o empate com o Sp. Braga.

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“Terramoto e muita incerteza”, escrevia o jornal Marca ainda antes da conferência de Florentino Pérez, uma espécie de todo poderoso do Real Madrid e do futebol mundial que parecia estar a ver todo o projeto feito ao longo de duas décadas escapar por entre os dedos. Certezas? Apenas três: 1) os blancos falharam todos os troféus disputados esta temporada, entre Liga, Taça do Rei, Supertaça e Liga dos Campeões; 2) o balneário encontra-se partido como nunca, seja entre jogadores, seja pela forma como tudo o que acontece em termos internos sai para a imprensa; 3) a troca técnica de Xabi Alonso por Álvaro Arbeloa só piorou as coisas.

Não tenho problemas com Mourinho. Pareceu-me sempre um grande profissional. Não o quero no Real Madrid. Acho que outros treinadores teriam melhores condições para treinarem o clube da minha vida. Opinião pessoal, só isso”, escreveu Casillas no X após o anúncio da conferência.

Entre tudo isso, e num fenómeno estrutural que vai muito além da conjuntura negativa que se tornou numa autêntica lei de Murphy, o Real Madrid perdeu identidade. Perdeu estatuto. Perdeu referências. Olhando para esta época, Modric saiu para o AC Milan (apesar de Xabi Alonso ter pedido a renovação por mais uma época…) e Lucas Vázquez, que tinha mais de uma década do clube, foi para o Bayer Leverkusen. Antes, Toni Kroos tinha terminado a carreira, Nacho rumou à Arábia Saudita, Karim Benzema também fez o mesmo trajeto para o Médio Oriente. Mais: sem Zinedine Zidane ou Carlo Ancelotti, o conceito de liderança adaptado às necessidades de uma estrutura como a dos merengues também desapareceu. Quando se olha para uma temporada que começou a “entortar” cedo e nunca se endireitou, esse foi outro dos problemas.

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“Lamento, não me vou demitir. Mas vou convocar eleições. No Real não há um único dono, somos 100.000 sócios que compomos o clube. Tomei essa decisão porque se criou uma situação absurda, provocada por campanhas contra os interesses do Real e contra mim. Não foram os melhores resultados mas no desporto não se ganha sempre. Aproveitaram a situação para me atacarem pessoalmente. Perguntam ‘Onde está o Florentino?’ Habitualmente, não falo. Alguns disseram-me que tenho um cancro terminal… Aproveito para que as pessoas que se preocuparam comigo saibam que continuo a presidir ao Real Madrid e à minha empresa e que a minha saúde está perfeita. Não poderia estar em ambos os cargos se a minha saúde não estivesse perfeita. Se eu tivesse cancro, como foi dito, teria de ir a um centro oncológico; se eu lá fosse, não teria saído em todos os órgãos de comunicação do mundo?”, começou por dizer Florentino Pérez logo no arranque, antes de sacar do telefone e ler uma notícia que saiu no ABC, um jornal que “aprecia”.

https://twitter.com/AdriRM33/status/2054247622907515052

“Antes da reunião da Direção, Florentino disse ‘Estou muito cansado’. Mas alguém acredita mesmo que antes de entrar digo isto? David Sánchez de Castro, está aqui? É para cumprimentá-lo, para ver o porquê de ter publicado isto. Acordo cedo e sou o último de todos a ir para a cama, trabalho como um animal”, frisou.

https://twitter.com/realmadrid/status/2054255030635769950

“Partilho a frustração de todos porque este ano não conseguimos ganhar nada mas tenho de vos dizer e demonstrar que, comigo na presidência, ganhámos 66 títulos em futebol e basquetebol. Quero falar aos que estão por detrás desta campanha, que se movem na sombra. Que se apresentem às eleições, agora têm a oportunidade de fazê-lo. Irei apresentar-me para defender os interesses do Real. Há setores que querem mandar no Real mas não conseguiram. No Real não mandam jornalistas nem os seus companheiros. Os jornalistas pensam que intervêm nas decisões do clube porque são importantes mas não é assim. Aqui mandam os sócios, não inventem coisas. Quem se quiser candidatar, que se candidate, mas que não andem por trás a dizer que estou cansado. Não posso admiti-lo só porque este ano não ganhámos uma Liga e uma Champions. Dizem que agora o Real é o caos, quando é o clube mais prestigiado do mundo”, reforçou.

https://twitter.com/lbertozzi/status/2054235932966936749

A imprensa continuou a ser um dos grandes alvos do número 1 dos merengues, que voltou a dirigir-se de forma direta ao ABC. “O Real é a marca mais forte e valiosa do mundo, o clube com maior reputação do mundo. Porque é que os jornalistas se querem meter com o clube com mais prestígio, mais valor e mais seguidores do mundo? Fico envergonhado quando dizem que foi eleito o melhor presidente da história, há uns rapazes que se querem apresentar, então que se apresentem”, voltou a apontar Florentino.

“O ABC é da Vocento. Criaram o Relevo, sabiam o que era, não sabiam? De acordo com a Liga, dedicaram-se a fazer um jornal digital que, para resumir, perdeu 25 milhões durante o tempo em que existiu. Quando a Liga deixou de pagar, foram à Telecinco ver se eles pagavam. O seu único fim era atacar o Real e o seu presidente. E lamento porque o meu pai lia o ABC e fez-me a assinatura há muitos anos mas agora tomei a decisão de cancelar a minha assinatura do ABC para honrar o meu pai, que me agradecerá. Como é que o ABC pode fazer uma coisa destas? Ninguém o comprava, ninguém o comprou e aquilo provocou lá um cisma. Anuncio, assim, que vou cancelar a minha assinatura do ABC, honro melhor o meu pai se a cancelar. Vejam estes dois artigos que escreveram hoje, de uma mulher que não sei se percebe ou não de futebol”, criticou.

https://twitter.com/mundodeportivo/status/2054241047354449925

Quando começou a parte das perguntas dos jornalistas, José Mourinho foi de imediato tema. Uma vez, duas vezes, vezes sem conta. Sempre com respostas lacónicas, sem fechar portas mas longe de abrir as janelas que têm sido descritas. “Não vou falar de treinadores nem de jogadores. Candidato-me para devolver o património aos seus sócios. Estão a tirá-lo aos sócios, pelo que vejo dia após dia, devido a alguns jornalistas que querem que eu me vá embora. Não só não me vou embora. Quero que o Real continue a ser dos seus sócios. Apresentei-me há 26 anos e tive de pagar aos que não recebiam e defender a instituição”, salientou.

https://twitter.com/diarioas/status/2054249681132114296

“Treinador? Não estamos nessa fase do processo, estamos focados em garantir que o Real continue a ser dos seus sócios. Quero discutir com eles, que se candidatem, que me digam o que é que fizeram na vida pelo Real. Tenho de acabar com uma campanha absurda contra o Real. Alguma vez houve um Real mais glorioso em toda a história? Se me elegeram como o melhor presidente da história do clube e de todos os clubes… Eu vou defender-me, não por mim, mas pela instituição, mas hoje não falamos de futebol. Há um tema prioritário que tenho de tratar”, continuou, de novo fintando qualquer questão sobre o português.

Entre várias alusões ao polémico caso Negreira, com a garantia de que os sócios estão com a Direção perante a promessa de ir até às últimas consequências para que o rival Barcelona seja castigado, Florentino Pérez ainda abordou de forma rápida o confronto entre Valverde e Tchouaméni antes de continuar a disparar para vários meios de imprensa. “Um ano com três treinadores, não foi a primeira vez que aconteceu. Um ano com uma discussão entre jogadores, também não é a primeira vez. Aqui o que mudou é que pela primeira vez houve alguém que contou e sabemos quem é que fez isso. Parece-me muito mau o que aconteceu mas pior é ter vindo a público. Levo 26 anos aqui e em nenhum não houve uma pega entre jogadores. Diferença? Ficava dentro de casa. Dão uma patada, a seguir são amigos. O caos que tentaram transmitir é que não vou voltar a permitir. Passar a informação cá para fora é o pior, nunca tinha visto isso acontecer”, referiu.

https://twitter.com/DAZN_ES/status/2054248399981945215

“Há uma orquestração dos maus jornalistas contra o Real e tenho de defender o clube. Vamos convocar eleições, serão dentro de dias. Quero que se apresentem todos os que assim desejem. Críticas? Disse que havia maus jornalistas, não que as notícias eram más. Tenho muitos anos disto, sei o objetivo que tinham que era meterem-se com o Real. É isso que não vou permitir”, voltou a assegurar Florentino Pérez, que mesmo quando o responsável da imprensa disse que a conferência estava terminada… quis continuar a falar. “Os inimigos do Real nos meios de comunicação social estão identificados. Quando jogamos mal, que digam que jogamos mal, mas o Florentino não se vai embora até que os sócios queiram. Os que se quiserem candidatar que se candidatem. Foi assim que fiz antes de 2000, quando até os mortos votavam. Vamos voltar a essa etapa? Não. Estamos a trabalhar para que o futebol e o Real melhorem”, salientou o líder merengue.