Pedro Passos Coelho voltou esta terça-feira a criticar o rumo escolhido por Luís Montenegro, lamentando que o atual primeiro-ministro, tal como António Costa, se recuse a compreender a grande lição da crise que obrigou à intervenção da troika em Portugal. Sem reformas estruturais, sem um aumento da produtividade, sem uma diversificação da economia, sem coragem para explicar às pessoas o que é preciso mudar e porquê, o país está condenado a ficar ainda mais para trás e enfrentará, ciclicamente, choques de ajustamento.
O antigo primeiro-ministro participou no colóquio “Governação em Contexto de Crise“, organizado pela Associação Académica da Universidade Lusíada. O encontro era de entrada livre, mas foi vedado à comunicação social, contando com a presença de mais de 70 pessoas. Segundo apurou o Observador, Pedro Passos Coelho fez uma longa exposição sobre os desafios que Portugal enfrenta, falando a partir da sua experiência muito própria como primeiro-ministro de um país intervencionado pela troika, para concluir que os líderes políticos atuais se recusam a tratar os portugueses como adultos, procurando sobreviver no poder à boleia de medidas populares.
O antigo primeiro-ministro lamentou, assim, que António Costa tivesse demonstrado “aversão” a reformas estruturais, desperdiçando oito valiosos anos que deveriam ter servido para aproximar Portugal dos países mais produtivos da Europa. Para Passos, o socialista intuiu que os portugueses estavam cansados da designação “reformas estruturais” e, como tal, limitou-se a navegar à vista, mascarando os problemas. “Tenho muitas dúvidas que António Costa seja avesso a transformações. O que não esteve foi para as promover, porque isso podia custar-lhe o lugar.”
Passos Coelho falou depois sobre Luís Montenegro, concedendo que o atual primeiro-ministro até tivesse alguma vontade de fazer reformas. O problema, lamentou o ex-chefe de Governo neste colóquio da Lusíada, é que o esteja a fazer sem grande “profundidade, velocidade ou consequência”. “É mesmo preciso saber como é que se faz [reformas estruturais] e convencer as pessoas de que é preciso mudar”, apontou Pedro Passos Coelho. “A maior parte dos políticos são populistas. Fazem sondagens, veem do que é que as pessoas gostam e alinham-se por aí. Dizem o contrário, mesmo que pensem diferente.”
Essa crítica, aliás, seria uma das notas dominantes da intervenção do antigo primeiro-ministro. Pedro Passos Coelho lamentou que os políticos estejam demasiado reféns da ideia de que têm de “agradar às pessoas” a curto prazo, sem cuidar do futuro e sem explicar que a fatura de não se fazer nada será sempre muito mais pesada. “O tempo vai passando e o futuro sempre acaba por chegar. “Liderança é respeitar quando não se é seguido, mas não aceitar ir atrás de qualquer coisa. Liderança é dizer o que se tem de fazer”, disse Passos.
Passos revela ter rendimento líquido mensal de cerca de 2 mil euros
De resto, o ex-chefe de Governo apontou, pelo menos, três pecados capitais a Luís Montenegro: a forma como está a voltar a velhas práticas de aumento da despesa pública, a falta de empenho na redução de impostos sobre o rendimento e o que vai sendo feito em matéria de pensões. No primeiro caso, o antigo primeiro-ministro disse mesmo sentir-se “muito triste” com o facto de o Governo do seu partido estar a aligeirar as regras no uso dos recursos do Estado, nomeadamente através do fim do visto prévio do Tribunal de Contas para contratos públicos até aos 10 milhões de euros.
Ao mesmo tempo, Passos Coelho criticou o esforço fiscal a que os portugueses estão obrigados, “uma coisa avassaladora“. “É por essa razão que os mais novos vão embora. O Estado trata qualquer pessoa com rendimentos medianíssimos como se fosse riquíssimo”, lamentou o antigo primeiro-ministro, que chegou ao ponto de revelar que tem como rendimento líquido mensal cerca de dois mil euros, com uma taxa de imposto de 42% mais os 11% que paga para a Segurança Social. “O que se entrega ao Estado é uma brutalidade.”
Como se não bastasse, continuou Pedro Passos Coelho, fruto da incapacidade estratégica do Estado, os serviços públicos, do Serviço Nacional de Saúde à Escola Pública, são cada vez mais deficitários, o que afasta os profissionais que neles queiram trabalhar e os portugueses que os procuram e que, perante a falência dos serviços, perdem confiança no Estado e no modelo de funcionamento da sociedade. “Um dia as pessoas que pagam a Saúde do seu bolso e que pagam a Educação do seu bolso vão começar a perguntar: “Mas eu estou a pagar impostos para quê?“, provocou o antigo primeiro-ministro.
Ora, para Passos, esta realidade só será transformada se houver o reconhecimento dos problemas que o país tem pela frente e lideranças políticas fortes, que digam a verdade aos portugueses e que os consigam mobilizar para as reformas estruturais que são necessárias. “O impulso tem de vir da liderança política. É isso que fará a diferença. Se a liderança política quiser fazer de conta que faz, o impulso perde-se. Nada resiste à prova do tempo. As pessoas que acham que mudam o mundo com conversa, com anúncios, a anunciar programas e intenções, estão completamente erradas. Isso não muda nada”, criticou o antigo primeiro-ministro.
“Já não tenho mesmo paciência para histórias da Carochinha”
Pedro Passos Coelho deu ainda como exemplo “caricato” dessa recusa dos líderes políticos em falar a verdade aos portugueses os bónus que o governo de António Costa e de Luís Montenegro têm entregado todos os anos aos pensionistas — um apoio extraordinário que se vem repetindo ano após ano. “Sinto-me sempre completamente gozado”, atirou, acusando este e o anterior governos de ignorarem o problema de sustentabilidade do sistema de Segurança Social. “Porque é que estão a distribuir dinheiro se dentro de 10 anos a gente não sabe se tem lá dinheiro para pagar as pensões?”, interrogou.
“Quando andamos a mascarar a situação, não tratamos as outras pessoas como se fossem inteligentes, adultas e merecedoras da nossa confiança. Se de Belém a São Bento, passando por Bruxelas, todos dissermos ‘não há nenhum problema com as pensões, nem com a sustentabilidade das pensões’, que é o que se diz, fica difícil que as pessoas percebam o que é preciso fazer, não é?”
Partindo deste diagnóstico, Pedro Passos Coelho voltou a falar do exemplo da troika para exigir aos atuais governantes que falem a verdade aos portugueses. “Não podemos permitir que sejam as pessoas a saber das más notícias pelas piores razões. Termos chegado àquela situação em 2010 e 2011 foi um clamoroso falhanço da liderança política. E há responsáveis por isso. O país não precisava de passar por aquilo porque houve com muito muita antecedência quem chamasse a atenção de que aquilo ia acontecer. E ninguém quis saber. As pessoas esperam que aqueles que têm a responsabilidade e a liderança desses processos chamem a atenção.”
“É por isso que supostamente são líderes e têm essas responsabilidades. Não é para nos contarem histórias da Carochinha. Já não tenho mesmo paciência para histórias da Carochinha. Primeiro, porque vou fazer 62 anos daqui a dois meses; e segundo porque já passei por muita coisa. A gente já devia ter aprendido com isto e parece que não aprendeu. Portanto, é deixar de contar histórias da Carochinha, falar das coisas, falar dos problemas que temos. Não é ser pessimista, é querer resolvê-los. Só podemos mobilizar o apoio das pessoas para mudar alguma coisa se lhes dissermos que alguma coisa precisa de mudar. E explicar porquê”, rematou Passos Coelho.
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