(c) 2023 am|dev

(A) :: Hantavírus: uma emergência zoonótica e os desafios da Infeciologia

Hantavírus: uma emergência zoonótica e os desafios da Infeciologia

O elemento que mais preocupação gerou junto da comunidade científica foi a identificação do vírus Andes, uma variante rara, e a única claramente associada a transmissão interpessoal sustentada.

Emília Valadas
text

A infeção por hantavírus representa um modelo paradigmático das infeções zoonóticas emergentes, exigindo uma compreensão integrada da relação entre ecossistemas, reservatórios animais e saúde humana. Ao contrário de muitos outros agentes virais, os hantavírus estabeleceram uma relação de coevolução altamente especializada com os seus hospedeiros naturais nos quais a infeção permanece persistente e assintomática. A transmissão ao ser humano ocorre de forma acidental, predominantemente por via inalatória, através da exposição a aerossóis provenientes de urina, saliva ou fezes secas destes animais. Uma vez estabelecida a infeção, a replicação viral no endotélio microvascular despoleta uma disfunção da barreira endotelial, mediada não por citopatologia direta, mas por uma permeabilidade imunomediada onde a sinalização aberrante de citocinas, a ativação das vias do VEGF e da bradicinina e a resposta robusta de células T constituem o núcleo da sua fisiopatologia.

As manifestações clínicas variam consoante a estirpe viral envolvida e a distribuição geográfica. Na Eurásia predomina a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal, enquanto nas Américas se destaca a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus, frequentemente associada a taxas de mortalidade elevadas. Apesar das diferenças clínicas entre ambas as entidades, o mecanismo central permanece semelhante: um aumento abrupto da permeabilidade vascular mediado por uma resposta imunitária exacerbada, conduzindo ao extravasamento plasmático, hipotensão, edema pulmonar e, nos casos mais graves, ao choque cardiogénico e insuficiência respiratória aguda. Esta fisiopatologia demonstra como a infeção por hantavírus adquiriu relevância crescente no contexto das doenças infecciosas emergentes e da saúde global.

Em Portugal, estudos realizados nas últimas décadas, nomeadamente pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e pelo Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infecciosas (CEVDI), identificaram a presença de anticorpos contra hantavírus em populações específicas (trabalhadores rurais e indivíduos em contacto com roedores, com taxas de positividade baixas, de 1-2%) e em reservatórios animais. Ao contrário das estirpes americanas, estas estão mais ligadas a quadros de nefropatia epidémica, muitas vezes ligeiros, podendo alguns casos ligeiros ter sido subdiagnosticados.

A importância desta problemática tornou-se particularmente evidente com o surto internacional de hantavírus associado ao navio de cruzeiro MV Hondius, ocorrido em maio de 2026. O navio, que realizava uma travessia atlântica após partir da Argentina, registou múltiplos casos de doença respiratória grave entre passageiros e tripulantes. Até ao momento, a Organização Mundial da Saúde confirmou oito casos associados ao surto, incluindo seis infeções laboratoriais confirmadas pela estirpe Andes e três mortes. A situação obrigou à ativação de mecanismos internacionais de vigilância epidemiológica, quarentena, rastreio de contactos e evacuação médica em vários países, envolvendo autoridades de saúde da Europa, América do Sul e África.

O elemento que mais preocupação gerou junto da comunidade científica foi precisamente a identificação do vírus Andes, uma variante rara e particularmente relevante do ponto de vista epidemiológico por ser a única claramente associada a transmissão interpessoal sustentada. Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde sublinhou repetidamente que o risco de disseminação global permanece baixo, uma vez que a transmissão entre humanos continua limitada e muito menos eficiente do que a observada em vírus respiratórios clássicos.

Apesar dessas garantias, o impacto mediático do surto demonstrou como a experiência coletiva da pandemia de COVID-19 alterou profundamente a perceção social do risco biológico. A associação entre um vírus respiratório desconhecido, mortes súbitas, quarentenas e circulação internacional de passageiros foi suficiente para desencadear receios imediatos de uma nova pandemia global. Em poucos dias, as redes sociais passaram a amplificar teorias alarmistas, especulações sobre confinamentos e comparações diretas com os primeiros meses da crise de COVID-19.

Contudo, do ponto de vista epidemiológico, existem diferenças fundamentais entre ambas as situações. Enquanto o SARS-CoV-2 apresentava elevada transmissibilidade aérea, disseminação assintomática e rápida propagação comunitária, os hantavírus mantêm uma transmissão predominantemente zoonótica, sendo a transmissão entre humanos extremamente rara e dependente de contacto próximo e prolongado.

Este fenómeno demonstrou igualmente que a gestão moderna das doenças infecciosas não depende apenas da capacidade clínica e laboratorial, mas também da comunicação pública e da literacia em saúde. O medo coletivo gerado pela memória recente da COVID-19 demonstrou que a dinâmica da comunicação digital condiciona a perceção pública do risco antes mesmo da consolidação dos dados epidemiológicos. Assim, para além do controlo epidemiológico, tornou-se essencial combater a desinformação e contextualizar cientificamente o risco real associado ao surto.

Neste contexto, a especialidade de Infeciologia assume um papel determinante. O médico infeciologista não intervém apenas no diagnóstico diferencial (distinguindo a infeção por hantavírus de outras patologias febris agudas, como a leptospirose, a dengue, a gripe ou infeções bacterianas sistémicas) mas lidera igualmente a abordagem terapêutica de suporte avançado. Na ausência de antivíricos universalmente eficazes contra todas as estirpes conhecidas, a sobrevivência do doente depende, em larga medida, da precisão do controlo hemodinâmico e ventilatório. A monitorização rigorosa do equilíbrio hídrico torna-se particularmente crítica, uma vez que a administração excessiva de fluidos pode agravar significativamente o edema pulmonar e precipitar falência multiorgânica.

Paralelamente à prática clínica, a Infeciologia moderna expandiu-se para áreas de vigilância epidemiológica, biologia molecular e investigação translacional. O especialista desempenha atualmente um papel central na interpretação de dados genómicos e na monitorização de mutações virais potencialmente associadas ao aumento de virulência ou transmissibilidade. A utilização de técnicas avançadas de sequenciação genómica e modelação epidemiológica permite hoje antecipar surtos, identificar cadeias de transmissão e compreender de forma mais precisa a evolução destes agentes patogénicos.

Apesar dos desafios impostos pelas alterações climáticas, pela destruição de habitats naturais e pela crescente proximidade entre populações humanas e reservatórios animais, os avanços científicos das últimas décadas sustentam uma perspetiva moderadamente otimista. O desenvolvimento de plataformas de diagnóstico point-of-care permite atualmente confirmar suspeitas clínicas em tempo útil, favorecendo intervenções precoces e reduzindo significativamente a mortalidade. Paralelamente, os progressos tecnológicos acelerados pelas pandemias recentes impulsionaram a investigação de vacinas de nova geração e de terapias dirigidas, incluindo anticorpos monoclonais específicos contra hantavírus, atualmente em fases promissoras de desenvolvimento. Acresce ainda a integração da inteligência artificial na modelação de nichos ecológicos e padrões epidemiológicos, possibilitando a identificação preditiva de áreas de risco com um grau de precisão anteriormente inalcançável.

Embora a expansão dos reservatórios naturais exija vigilância, o cenário atual permite um otimismo cauteloso. É um facto que a imunoterapia e as novas vacinas permanecem em fase experimental, e que o uso de IA e diagnósticos rápidos enfrenta ainda barreiras operacionais. Contudo, a compreensão detalhada da patogénese molecular oferece, hoje, uma base mais sólida para a intervenção.

Emília Valadas é licenciada em Medicina pela FMUL (1986) e doutorada em Imunidade Celular pela Universidade de Londres (1999). É infecciologista no Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital de Santa Maria (ULS Santa Maria) e Professora Auxiliar pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (2000). Tuberculose, infeção por VIH1 e VIH2, vacinas e doenças tropicais são os seus interesses actuais, nas vertentes clínica e de investigação translacional.