Sete anos depois de aparecer em cena com o estrondoso single Sushi, quando era apenas uma adolescente de 16 anos, Nenny apresenta-se oficialmente com um álbum de estreia, intitulado ID, a ser lançado esta sexta-feira, 15 de maio. É o resultado de dois anos intensos de trabalho, quatro writing camps — para os quais convidou uma série de outros artistas, compositores e produtores a juntarem-se a ela — e de um amadurecimento pessoal e artístico que foi essencial para construir este disco de 16 faixas.
“Precisei de recuar e ir à procura desta identidade”, afirma Marlene Tavares em entrevista ao Observador, referenciando o tempo que passou desde o EP Aura, editado em 2020, quando tinha 17 anos. “Precisei de me tornar a Nenny adulta para também mostrar mais da minha vulnerabilidade. Sempre achei que as pessoas se baseavam muito na minha confiança, no meu woman power nesta indústria de hip hop comandada por homens, mas agora vemos uma Nenny que quer experimentar muitas outras vertentes e simplesmente quer ser artista. Sinto que tive de passar por muitas coisas para meter mais de mim neste disco. Tive a minha primeira casa, a minha carta, o meu carro, estive a viver fora das redes sociais e isso permitiu-me fazer este disco e meter muito mais não só da Nenny, como da Marlene.”
Desde o início que se posicionou como uma artista que tanto podia soltar versos combativos de egotrip sobre um beat trap musculado como conseguia usar a sua voz melódica e açucarada em tons R&B, resgatando o balanço quente da sua herança cabo-verdiana ou aproximando-se de um registo emocional afadistado. Mais do que nunca, é em ID que Nenny se afirma como uma artista múltipla, de diferentes abordagens e valências, com uma flexibilidade criativa invulgar. As letras tanto falam de relações amorosas como contêm crítica social, entre versos autobiográficos, desabafos emocionais, braggadocio hip hop e a força lírica de uma jovem mulher emancipada que é dona do seu destino.

“Antes de ser artista, sou ouvinte e adoro muitas coisas. Tenho diferentes personalidades em diferentes ambientes e acho que, na verdade, toda a gente é assim. Vamo-nos adaptando às pessoas, às culturas, aos países — já emigrei duas vezes. Houve várias versões da Marlene que me fizeram crescer e ser quem sou agora. Adoro house, adoro pop e muitos outros géneros que incluí neste álbum, que antes não tinha coragem de trabalhar. Acredito que as pessoas vão conseguir perceber a minha verdadeira identidade neste disco.”
Hero, uma balada vulnerável onde canta sobre aceitação e amor próprio, é o momento em que mais sai fora de pé. Marlene Tavares desejava “realmente mostrar a voz” neste disco, deixar claro o quão gosta de cantar, e contou com a ajuda preciosa do treinador vocal Diogo Pinto nesse processo. “Agora sinto-me muito mais à vontade a nível vocal para fazer estas tonalidades, a voz de peito ou o falsete. Estou muito mais confortável para experimentar, dar a conhecer a minha voz e a minha versão que também gosta de cantar e não só dropar [rimas].”
Outro tema que sabia que tinha de incluir em ID era uma canção diretamente ligada a Cabo Verde, onde os pais nasceram e cresceram. Por isso mesmo, numa das muitas sessões de criação do álbum, resolveu convocar músicos como Nelson Freitas e Loreta, que levaram a sua crioulidade e experiência artística para o estúdio. O resultado foi a soalheira Onde eu Cresci, cantada em crioulo cabo-verdiano e português, uma colaboração com “uma lenda da música cabo-verdiana”, Lura, e o cantor Bluay, também com raízes no arquipélago atlântico, que Nenny considera “um irmão” e que deu o seu contributo para outras letras do álbum. Nascida em Portugal e criada em Vialonga, concelho de Vila Franca de Xira, nos subúrbios de Lisboa, Nenny argumenta que era fundamental integrar as suas raízes neste primeiro longa duração.
“Quis convidar músicos cabo-verdianos porque tenho essa origem, mas sou portuguesa, nasci e cresci cá. É importante ter por perto quem está mais envolvido na cultura. Sempre a tive, até porque há uma enorme comunidade cabo-verdiana em Vialonga. Quando estou cá, sou cabo-verdiana; quando estou em Cabo Verde, sou portuguesa. Há sempre este sentimento de querer pertencer a uma comunidade… Mas na verdade pertenço às duas”, conclui, num tema onde se ouvem as três vozes a entoar o verso “Nos é fruto di dós naçon” [“Nós somos o fruto de duas nações”], também ele o reflexo de uma aceitação própria — de quem, na diáspora, tantas vezes se sente num limbo identitário entre duas realidades.
Nenny faz o mesmo exercício quando, em diversos momentos ao longo do disco, procura afirmar e reforçar a auto-estima das comunidades negras. “Era muito importante para mim realçar a minha negritude, a minha comunidade, as minhas raízes, a minha população, a minha cor, porque realmente é a minha identidade e aquilo que sou”, defende. Em Fácil, um tema que ocupa a fronteira entre o rap e o R&B — composto com o músico Luar, um dos colaboradores mais decisivos neste projeto — sublinha que “o ADN da música é preto”, numa faixa acutilante onde denuncia um “país com estruturas feitas para nós nunca governarmos” e onde alega que o vermelho da bandeira nacional “são litros de sangue negro”.
“Quando digo que ‘o ADN da música é preto’, digo-o porque foi a comunidade preta em vários países que criou quase toda a música que se ouve hoje em dia. Às vezes caímos na narrativa de que muitos géneros musicais foram criados por vários povos, mas a origem vem muito da comunidade preta no mundo inteiro. Não são só os Estados Unidos, não é só o continente africano ou as Caraíbas, é uma comunidade preta no mundo inteiro. E o que estou a dizer na música é que as pessoas têm a tendência de me meter na caixa de rapper, mas se for fado, se for pop, se for R&B, eu vou fazer porque a origem dessas músicas também vem de uma comunidade preta. Era muito importante realçar isso no álbum.”
[o vídeo de “Eu Quero um Preto”, o primeiro single de “ID”:]
https://www.youtube.com/watch?v=r2qLyZGtq34
Um dos singles desvendados antes do lançamento de ID, que provocou um enorme impacto em redes sociais como o TikTok e o Instagram, gerando tendências orgânicas entre milhares de fãs, foi Eu Quero Um Preto, uma canção que pretende desconstruir os padrões de beleza e, mais uma vez, fortalecer o amor próprio e a auto-aceitação na sua comunidade.
“É uma música que vem muito de uma Nenny adolescente que imaginava e que queria um namorado assim ou assado… É uma declaração à minha comunidade porque nós temos várias inseguranças dentro das consequências que nos deixaram do racismo. Temos muito este preconceito, mesmo connosco próprios. Eu olhava-me ao espelho e não gostava da minha cor. Porque é que todos os meus colegas são brancos e eu sou preta? Porque é que tive de nascer assim? E a questão do colorismo: havia pessoas negras, mais claras do que eu, que me criticavam pela cor que tenho. Sinto que muitos homens negros também tiveram essas inseguranças. Houve uma altura em que sentiram que ninguém os queria, que ninguém os desejava, tal como eu me senti enquanto mulher negra. Então decidi fazer esta declaração à minha própria comunidade, para eles saberem que nós gostamos deles.”
O tema nem fora escolhido como single, mas um vídeo espontâneo gravado por Nenny que captava a sua mãe — eternizada na sua obra como Dona Maria — a reagir à canção tornou-se viral e gerou uma imprevisível onda de reações nas redes sociais. Acabou por ser elevada a single, tendo em conta a forma como o público a tinha abraçado.
“É lindo porque temos toda uma estratégia de comunicação, pensamos naquilo que vai bater ou não, e na verdade nunca sabemos porque o público é que escolhe, o público é que manda. Mas é muito engraçada esta adesão, são coisas que me fazem querer estar aqui e ser a artista que sou.”
Entre as inquietudes e a confiança, a certeza de uma ambição global
Quando começou a fazer música aos 16 anos, impulsionada pelos conterrâneos Wet Bed Gang e o seu núcleo duro — no qual se incluíam o compositor e produtor Charlie Beats e o DJ e produtor Supa Dust Man —, Nenny era uma jovem intérprete que aproveitara uma oportunidade depois de o quarteto de Vialonga a ter descoberto, através dos vídeos que publicava no YouTube. Uma versão do êxito Devia Ir chegou aos ouvidos de Gson e companhia, que a acolheram de imediato no seu círculo, até porque conheciam o seu irmão. Sushi, que hoje soma mais de 16 milhões de visualizações no YouTube e outros 10 milhões no Spotify, foi uma estreia explosiva que provou que havia um caminho a percorrer e espaço para uma artista como Marlene Tavares.
Nos anos que se seguiram, a “filha dos filhos do Rossi” — como se apresentou nesse single inicial, assumindo-se como herdeira dos muito populares Wet Bed Gang — cresceu e conquistou uma autonomia que hoje a torna definitivamente líder do seu próprio projeto, mesmo que conte com os contributos de diferentes artistas à sua volta, na composição ou nalgumas das letras.
“Estou muito mais confiante e certa de mim”, conta. “Praticamente todas as ideias do álbum, toda a estrutura, a estética, a ideia de ter músicas com banda [Ivo Costa, Djodje Almeida, Gui Salgueiro, Rui Pedro Pity, Jéssica Pina, Frederico Martinho, Kenny Caetano e Rodrigo Correia foram alguns dos reputados instrumentistas convocados], tudo isso veio de mim e deixa-me super feliz, porque há uns anos não tinha essa independência criativa. Hoje posso simplesmente fazer e mostrar ao mundo.”


Ainda assim, do processo de dois anos a preparar ID resultaram mais de 30 canções gravadas. O desafio “extremamente difícil” foi selecionar os temas que fazia sentido integrar no disco, esculpir um alinhamento que fosse “equilibrado”, mas também lidar com as expetativas de um público já formado desde tenra idade.
“Só queria mostrar aquilo que realmente sou neste momento”, explica. “Às vezes as pessoas metem-nos aquela pressão: ‘gostava mais da Nenny quando ela lançava música aos 16 anos’. Temos que ter alguma cautela para não perder o nosso público, mas temos de quebrar a barreira e perceber como é que vão conseguir ouvir a Nenny que agora tem 23. Porque tenho outras coisas para dizer, estou mais adulta, tenho contas para pagar, é uma nova versão.”
Além de todos os temas que foi lançando ao longo dos anos, na trajetória que a levou até este disco, Nenny tem sido frequentemente convidada para fazer colaborações um pouco por toda a lusofonia. Foi uma das poucas convidadas de Coisas Naturais, o mais recente álbum da estrela pop brasileira Marina Sena; partilhou uma Vibe com os gigantes dos PALOP Anselmo Ralph e Nelson Freitas; revelou-se essencial no marcante álbum de estreia de Mizzy Miles, Fim do Nada. Soraia Ramos, Yasmine, MC PH, Phoenix RDC e SleepyThePrince foram outros dos que requisitaram os dotes de Nenny, demonstrando como a sua voz assentava tão bem numa kizomba afro-pop como num instrumental hip hop, fosse num disco editado no Brasil, em Angola ou em Portugal.
Nenny assume que ambiciona ser “uma artista mundial” — fez uma performance no formato internacional A Colors Show, em 2021; e foi uma das artistas portuguesas destacadas na série da HBO Acoustic Home, em 2023, já a trilhar esse percurso — e encara o mercado internacional da língua portuguesa como uma oportunidade. O alinhamento do seu álbum de estreia também reflete esses horizontes, com a angolana Carla Prata, o brasileiro Jotapê, o português Bispo ou a cabo-verdiana Lura, entre outros, a representarem essa diversidade natural.
“Cresci com várias culturas à volta, não só a minha, não só a portuguesa e a cabo-verdiana. Cresci com a cultura angolana, com a brasileira, fez parte do meu crescimento e quis totalmente incluir todas essas comunidades no álbum. Sinto que Lisboa é uma mistura de várias culturas. Quando olho para Lisboa, ou para Portugal, não vejo uma imagem só, vejo várias imagens e comunidades que fazem Portugal ser culturalmente aquilo que é.”
Antes de começar a preparar ID, entre 2023 e 2024, Nenny esteve nos Estados Unidos da América a gravar um disco em inglês, que por enquanto se mantém nos arquivos. Desejava — e ainda deseja — construir uma carreira verdadeiramente global, percorrer o planeta em digressão, conquistar uma audiência mundial, enfim, tornar-se a estrela que sonhara ser em criança, nos tempos em que cantava as músicas da Disney em frente da televisão. Com apenas 23 anos, talvez esteja a lançar à terra as sementes para o concretizar. “É muito difícil fazê-lo em português, mas não acho que seja impossível. Há cada vez mais portas abertas.”