Israel pode ter manipulado o televoto da Eurovisão na edição do ano passado, através da interferência do Governo israelita na promoção da participação do país, segundo uma investigação do The New York Times, revelada esta segunda-feira. Contactados pelo mesmo jornal, os gabinetes do primeiro-ministro e do ministro israelita dos Negócios Estrangeiros não comentaram a investigação.
O jornal admite que “não há evidências” de uso de bots ou de “outras manobras encobertas para manipular o voto”, como foi especulado por fãs da Eurovisão. No entanto, dados recolhidos pelo Times dão conta de que, nalguns países, “apenas algumas centenas de pessoas seriam suficientes para assegurar a vitória no voto popular”, algo que chegava para “mudar o resultado do concurso”, algo possibilitado através de uma campanha organizada por instituições governamentais.
Por exemplo, em Espanha — onde o Governo tem sido muito crítico do genocídio em Gaza e 58,3% dos inquiridos num estudo são a favor da expulsão de Israel do certame — o país teve mais de 47 mil votos, cinco vezes mais do que o segundo país mais votado pelo público, a Ucrânia.
| País | Votos | Percentagem | Pontos |
| Israel | 47.570 | 33,34% | 12 |
| Ucrânia | 9.620 | 6,74% | 10 |
| Polónia | 8.080 | 5,66% | 8 |
| Estónia | 6.240 | 4,37% | 7 |
| Finlândia | 5.560 | 3,90% | 6 |
Votação Eurovisão
Cada país vota nas 10 canções que considera serem as melhores a concurso, da seguinte forma:
- 12 pontos para a melhor
- 10 pontos para a segunda melhor
- 8 pontos para a terceira
- 7 para a quarta
- E assim sucessivamente até à 10.º, que recebe um ponto
Existe um júri nacional e o televoto, cada um atribuindo este set de pontos.
Como cada pessoa podia votar até 20 vezes, o Governo israelita “lançou uma campanha para tentar influenciar o voto”, segundo o jornal, através de publicações nas redes sociais de diplomatas, ativistas e membros do executivo — como o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu —, e até da própria página oficial do Estado de Israel, assim como do apelo ao voto por parte da artista, Yuval Rapahel, em várias línguas, usando o concurso como “uma ferramenta de soft power”.
“Houve claramente uma campanha digital coordenada e financiada por Israel para mobilizar apoio”, garante ao jornal Achiya Schatz, diretor do FakeReporter, observatório que fiscaliza notícias falsas em Israel.
Essa campanha foi liderada pela a Agência de Publicidade do Governo de Israel, segundo uma investigação feita pela União Europeia de Radiodifusão (UER) em maio do ano passado, que abrange “vários gabinetes governamentais, empresas, companhias estatais, e companhias públicas”. No entanto, não foi qualquer auditoria aos resultados foi feita. Apenas foi contratado um consultor, Petr Dvořák, que entrevistou membros da Eurovisão sobre a participação de Israel.
Apesar de tal não consistir uma violação clara das regras da UER, a interferência direta de instituições do Estado constitui um abuso nas práticas de promoção das participação do país, pois quem participa no certame são emissoras de televisão e não governos.
“Estas regras [de competição justa e neutra] não proíbem as emissoras participantes ou terceiros como editoras ou outros de promover as suas participações online ou noutro lado, desde que tal promoção não instrumentalize o concurso ou viole as suas linhas editoriais”, afirmou em maio o diretor executivo da UER, Martin Green.
Eurovisão: um “bom investimento”
Anos antes da polémica, “registos financeiros mostravam que Israel gastou pelo menos 1 milhão de dólares [849,9 mil euros] em publicidade na Eurovisão”, avança o jornal, afirmando que parte desse dinheiro veio do “gabinete ‘hasbara’ de Netanyahu, um eufemismo para propaganda externa”.
O investimento remonta a 2018, quando Netta Barzilai venceu a Eurovisão, realizada em Lisboa, tendo a sua participação recebido mais de 100 mil dólares (84,7 mil euros) em “promoção nas redes sociais”, e que terá convencido o Governo israelita de que o concurso seria um “bom investimento”, segundo Doron Medalie, compositor da canção vencedora.
Desde essa data, o investimento por parte do executivo israelita tem aumentado, tendo ultrapassado os 800 mil dólares (679,9 mil de euros), em 2024, segundo o New York Times, apesar da emissora israelita KAN não ter tido conhecimento do assunto e assegurado ao jornal que “tanto quanto se saiba, as regras não foram violadas”. Nesse ano, Israel ficou em 2.º lugar no televoto, apesar de ter obtido apenas o 12.º no júri.
A disparidade na votação fez com que a emissora eslovena RTVSLO tivesse pedido o lançamento dos resultados completo por parte da UER, mas tal pedido não foi atendido. Em 2025, a diferença foi maior: 1.º lugar no televoto, mas 14.º no júri, algo que levou a mesma emissora a repetir o pedido e a ameaçar boicotar o certame em 2026, mas nenhuma investigação foi feita.
Mudança de regras não impediu boicotes, nem repetição de incidentes
Ainda que a polémica tenha levado a uma revisão das regras, em novembro, como a limitação da promoção dos artistas por terceiros — como Governos — e a redução do número de votos para dez, Martin Green afirmou à BBC, em maio de 2025, que a campanha não afetou o resultado final.
Este ano, apesar das revisão das regras, a UER emitiu um comunicado a 9 de maio, avisando Israel para “parar imediatamente qualquer distribuição dos vídeos [a promover a participação de Israel] e removê-los de quaisquer plataformas onde foram publicadas”, após prática semelhante à do ano passado ter sido detetada.
“As Instruções de Votação do Festival Eurovisão da Canção que cobrem a promoção são predominantemente direcionadas a desencorajar campanhas em larga escala financiadas por terceiros, e estamos satisfeitos que este vídeo não fez parte de tal campanha”, afirmou Martin Green no comunicado, que avisou que fazer um “apelo direto à ação de votar num artista ou canção também não está em linha com as nossas regras ou com o espírto da competição”. A emissora israelita KAN acatou com o aviso, mas a UER afirma que irá continuar a “monitorizar” a situação.
Os ataques em curso em Gaza levaram ao boicote de cinco países nesta edição — Espanha, Islândia, Eslovénia, Países Baixos e Irlanda —, o maior nos 70 anos de Eurovisão.