(c) 2023 am|dev

(A) :: A arte (e a dificuldade) da memória literária, por Geoff Dyer: "Não teria conseguido escrever este livro com os meus pais vivos"

A arte (e a dificuldade) da memória literária, por Geoff Dyer: "Não teria conseguido escrever este livro com os meus pais vivos"

O relacionamento com os pais, os segredos guardados, a fuga para Oxford: “Trabalho de Casa” é a história real de uma família da classe trabalhadora na Inglaterra dos anos 60. Falámos com o autor.

Andreia Costa
text
Inês Lacerda
photography

Eis o protagonista desta história: um miúdo que brincava às guerras na rua e com soldadinhos de plástico em casa. Colecionava cartas sobre pássaros e carros que vinham nas caixas de chá ou pastilhas. Bebia sumo diluído e tinha uma dieta à base de açúcar: chocolates, cereais, iogurte, morangos e até as sandes — tudo tinha de ser devidamente açucarado em doses extra. Podia ser qualquer criança nascida no final da década de 50 (no caso, julho de 1958), mas esta, especificamente, chama-se Geoff Dyer e acaba de publicar Trabalho de Casa (através da Quetzal), um livro de memórias que nos leva até Cheltenham, onde o autor cresceu e viveu até ir estudar para Oxford, exatamente a fase em que a narrativa termina, assinalando a vida que deixou de existir aos 18 anos.

Com o humor e o sarcasmo que lhe são característicos  — os livros anteriores, como Yoga Para Pessoas Que Não Estão Para Fazer Yoga ou Os Últimos Dias de Roger Federer e Outros Finais, são prova disso —, Dyer, reconhecido sobretudo pelos livros de não-ficção (vai das viagens, em Areias Brancas, ao jazz, em Mas É Bonito, todos publicados entre nós pela Quetzal) faz um retrato repleto de descrições pormenorizadas (às vezes mais fruto da memória do próprio do que de factos concretos) das mudanças sociais e tecnológicas das décadas de 60 e 70.

Apesar de haver um terceiro capítulo no final, mais curto, que contempla a fase em que perde os pais, a obra está verdadeiramente dividida em dois com o exame escolar feito aos 11 anos a ser o ponto fulcral da história (o exame que definia qual o tipo de ensino que seria seguido depois da escola primária). Esse era o grande feito para a classe trabalhadora, passar no exame. Já chegar ao ensino superior representava um território completamente desconhecido para uma geração que nunca tinha estado sequer perto de tal universo. Para Geoff Dyer, nessa fase começou a criar-se um fosso entre o autor e os pais, que não sabiam lidar com algo desconhecido e não sentiam necessidade de melhorar a forma como viviam.

A mãe tinha falta de autoestima, constantemente agradecida por tudo; o pai era avarento e não ansiava por coisa nenhuma em particular. Ainda assim, o autor reconhece que foi um adolescente difícil, chegando a barricar-se dentro de casa, com os pais trancados do lado de fora. Não se poupa a ele próprio e não poupa ninguém, embora use sempre o humor em vez do tom crítico para recordar os acontecimentos, como o facto de o pai nunca encher mais de meio depósito do carro ou de reutilizar os saquinhos de chá até à exaustão; de terem uma sala de visitas raramente usada, com um bar que só servia para exposição; ou até quando fala da morte do pai e do momento em que se encontrou ao lado do corpo dele “sem vida, agora vazio após 90 anos de uso altamente económico”.

De passagem por Lisboa para participar no 5L (Festival Internacional de Literatura e Língua Portuguesa), o escritor de 67 anos falou do processo de escrita de Trabalho de Casa, que acaba por encerrar um ciclo a que Geoff Dyer demorou muito tempo a conseguir regressar.

Foi um livro que lhe deu prazer a escrever ou foi o mais difícil até agora por ser tão pessoal?
De certa forma, não foi diferente de qualquer outro tipo de escrita. Quer dizer, no início foi muito difícil e não consegui concentrar-me durante muito tempo. E depois, gradualmente, à medida que me fui envolvendo mais, tornou-se tudo o que queria fazer. E este é sempre um estado de êxtase, quando não se é tão afetado pelo que se passa no mundo, simplesmente temos este outro mundo no qual podemos entrar. Outra coisa importante é que eu estava a escrever na Califórnia e foi uma forma de me transportar para Inglaterra. Existem dois tipos de nostalgia: a do passado e também a chamada “nostalgia russa”, nostalgia por um lugar conhecido, serguro por ser previsível. Por isso, sim, foi uma experiência muito feliz escrevê-lo.

Quando estava a escrever, já tinha decidido que queria voltar para Inglaterra [após dez anos a viver em Los Angeles] ou o livro influenciou a decisão?
Boa questão… a resposta sincera é que não me lembro. Estava a começar a formar uma imagem mais afetuosa de Inglaterra do que aquela que tinha há algum tempo. E agora estamos muito felizes por estarmos de volta a Inglaterra, em parte devido à proximidade daqui [Portugal] e de outros países europeus. E a América é um lugar onde… diria que tornou-se óbvio que o sonho californiano tinha chegado ao fim.

Mas durante muito tempo, como refere no livro, esse foi o seu sonho, viver na Califórnia.
Sim, sempre foi o sonho de muitas pessoas, a mudança para os Estados Unidos. Uma vez na América, sonha-se ir para a Califórnia porque, como diz Susan Sontag num dos livros dela, dentro da América existe uma outra América chamada Califórnia. Mas o sonho californiano está tão destruído, penso eu, por causa da terrível desigualdade que se vive. De certa forma, é quase como um estado falhado.

É difícil para alguém que ganha a vida a escrever inspirar-se numa cidade como Los Angeles?
Los Angeles é uma cidade difícil para mim porque não é uma cidade propriamente dita. A falta de um centro e a escassez de transportes públicos são um problema. Foi um pesadelo em muitos aspetos, mesmo que Londres seja considerada uma cidade muito mais stressante para viver.

"Tinha uma pasta com todas as coisas que tinha escrito e que, por sorte — porque nunca tive muito cuidado com as minhas coisas —, sobreviveu a todas as mudanças. Mesmo que a letra fosse má, os pormenores da época conservaram-se ali, nesses pedaços. Da maior parte das coisas lembrava-me, exceto dos pequenos detalhes."

Quando se mudou para lá havia o tal sonho americano. Quando é que ele desapareceu?
Sempre desejei viver na Califórnia, mas nunca me tinha divertido em Los Angeles. Já lá tinha ido muitas vezes e nunca tinha gostado. São Francisco era onde eu sonhava viver. E depois, de uma forma irónica, onde é que eu fui parar? A Los Angeles, onde não queria mesmo estar. Acabei por viver na parte de Los Angeles de que muitos europeus gostam, Venice Beach, porque dá para andar a pé. Mas, como fica mesmo na fronteira, ficamos lá presos porque depois das duas da tarde o trânsito no sentido leste fica terrível. Então simplesmente ficamos em Venice Beach e é isso.

Voltando ao livro e mais especificamente ao título: Trabalho de Casa tem um tom de obrigação, como uma composição escolar. Foi propositado?
Não o senti como uma obrigação porque, facto muito importante, nunca tenho contratos para os meus livros. Não gosto de obrigações. Homework [título original] acabou por ser o título perfeito, porque fala sobre o que a escola representa para mim. Penso que é Martin Amis que, no livro The Information, reflete sobre a vida de um escritor na casa dos 40 e diz: são 40 anos de trabalhos de casa. Portanto, é isso. Mas é também uma obra sobre a vida doméstica [home life em inglês].

Ia escrever um livro muito mais difícil, contando a história através de pontos num mapa. Queria fugir à típica cronologia, mas percebeu que às vezes o mais simples é que faz sentido?
Tem toda a razão, de certa forma já respondeu à sua pergunta. Tive esta ideia de fazer uma autobiografia que fosse espacial em vez de temporal.

Porque não queria escrever mais uma autobiografia?
Porque já tinha feito um pequeno trabalho para uma antologia, onde pediram a vários escritores que desenhassem mapas. Gostei muito e o mapa que fizemos ficou lindo. Achei interessante organizar algo sobre a minha vida, não em termos de tempo, mas em termos de espaço, mas deparava-me sempre com obstáculos, como muros. Assim que abandonei aquele plano, relutantemente, os muros desapareceram e tudo se tornou muito mais simples. Embora siga um formato bastante convencional, cheguei a este formato da mesma forma que chego ao formato de todos os meus livros. Acabou por estar organizado de forma cronológica porque percebi que não fazia sentido de outra forma

Há pouco disse que, quando começa a escrever um livro, tem muita dificuldade em concentrar-se. É sempre assim?
Sempre, sempre, sempre. E quando acabo um livro, o padrão é sempre o mesmo, infelizmente. Os últimos nove meses, ou seis meses mais ou menos, da escrita de um livro são de pura felicidade. Depois penso: “Bem, agora preciso de começar a viver como estes escritores profissionais, acabar de escrever um livro na sexta-feira e começar outro na segunda-feira”. Mas nunca funcionou assim. Há sempre um intervalo em que não faço grande coisa ou em que me dedico apenas a alguns trabalhos jornalísticos. E a razão para tal é que, ao contrário de muitos escritores de carreira, não escrevo apenas versões do mesmo livro. Todos os livros são tão diferentes que preciso de viver um período em que me liberto do encanto, do ritmo, ou seja o que for que queiramos chamar-lhe, do livro anterior.

Soube desde o início que a foto que está na capa era aquela que mais queria. Porquê?
Porque ela expressa… bem, a família, estamos nós os três [Dyer, a mãe e o pai]. O primeiro romance que escrevi chama-se A Cor da Memória e esta imagem está impregnada disso, cor da memória, penso eu.

Teve de retocar as cores?
Não, este é o original. É um documento, mas também uma imagem da memória, é como uma essência. Tudo nela é perfeito.

"À medida que fui ficando mais velho, desde a altura em que estava em Oxford, as coisas tornaram-se realmente difíceis entre nós [ele e os pais], e aí eu ficava furioso com eles, sabe? Simplesmente nunca quiseram fazer nada de bom e essa recusa absoluta deixava-me louco."

Tinha essa fotografia em casa ou encontrou-a durante a sua pesquisa?
Encontrei-a há alguns anos e, felizmente, guardei-a em segurança, porque sabia que me seria muito, muito útil. Na minha geração, as pessoas só tiravam fotos em dias diferentes, especiais. Embora não fosse como na era vitoriana, com as suas longas exposições, havia sempre esta preocupação de que não havia luz suficiente para uma fotografia e é por isso que nos lembramos da nossa infância como sendo tão ensolarada, porque todas as evidências sugerem que era ensolarada.

Os seus pais tinham máquina fotográfica?
O meu pai era notoriamente forreta. Tínhamos uma máquina fotográfica, mas o seu uso era racionado.

Incluiu muito poucas imagens no livro. Isso estragaria a experiência da leitura?
Sobretudo isso, sim. Trata-se de um livro de palavras, não de imagens. Não queria que as palavras ilustrassem simplesmente as imagens, isso seria desvirtuar todo o propósito.

Foi buscar muitas memórias a páginas soltas que tinha escrito aos 17 e 18 anos. Sabia onde tinha isso tudo guardado?
Tinha uma pasta com todas as coisas que tinha escrito e que, por sorte — porque nunca tive muito cuidado com as minhas coisas —, sobreviveu a todas as mudanças. Mesmo que a letra fosse má, os pormenores da época conservaram-se ali, nesses pedaços. Da maior parte das coisas lembrava-me, exceto dos pequenos detalhes. Foi útil, mas não essencial, penso eu. A única coisa sobre a qual escrevia era sobre a minha vida familiar.

Nessa fase mostrava a alguém aquilo que escrevia?
Acho que mencionei no livro o episódio embaraçoso em que mostrei ao meu pai algo que tinha escrito. O meu pai nunca tinha lido nada na vida, e foi tão embaraçoso que, passados ​​dois minutos, peguei nas folhas de volta e ele ficou aliviado. Por isso, não mostrava nada a ninguém.

Mas teve um professor que refere no livro, Bob Beale, que viu algo em si.
Na verdade, acho que eu vi algo nele. Vi nele esse prazer da leitura, foi isso que me transmitiu e foi muito, muito encorajador. Morreu há poucos dias e teve um impacto transformador na minha vida. Foi ele que realmente me inspirou a seguir Literatura e sugeriu que me candidatasse a Oxford. Portanto, é uma história clássica sobre um professor influente. Poderia ir a todos os países do mundo e encontraria alguma história semelhante a desenrolar-se.

Ele chegou a ler o livro?
Fico muito feliz que, antes de morrer, tenha podido ver a dedicatória que lhe fiz, mas acho que estava a começar a perder capacidades. Não me parece que tenha de facto conseguido ler, mas conseguiu aguentar e ver o livro impresso.

E algum dos seus amigos daquela época, leu o livro? Teve esse feedback?
Um livreiro organizou um evento na minha antiga escola primária, a escola onde estudei até aos 11 anos. Quando vinha alguém pedir-me um autógrafo, eu pensava: “Porque é que está aqui esta pessoa com 100 anos”? — até perceber que tinham a minha idade. Portanto, eu também devia parecer ter 100 anos. Na verdade, tenho poucos amigos dessa altura, mas nunca ninguém se queixou do que escrevi sobre eles.

Foi confirmar detalhes para que tudo fosse histórica e cronologicamente rigoroso?
Tentei que fosse o mais preciso possível e, assim que o livro foi publicado, tornou-se óbvio que existiam várias imprecisões.

"Os filhos únicos são muito egoístas, não olhei para trás. Fui à minha vida, estava ávido disso. Passar no exame de admissão para o ensino secundário era algo que todos os pais da classe trabalhadora queriam para os seus filhos, compreendiam a importância do mesmo, mas quando entrei em Oxford, foi algo diferente."

Tais como?
Descrevi a minha tia a chegar com o marido num Rolls Royce branco para nos visitar. E depois, quando o livro foi publicado, a outra irmã da minha mãe disse que o carro não era branco, era amarelo. E eu disse: “Não, estás enganada, era branco”. Ela enviou-me uma foto e lá estava ele, amarelo. Como não queria que o texto fosse alterado, na edição britânica de bolso conseguimos adicionar uma nota a explicar que, para ser fiel à minha memória, não posso fazer estas alterações no texto. Mas, em nome da precisão, tenho de reconhecer que isso está errado.

Houve alguma referência difícil de encontrar?
Sim, houve uma. A razão pela qual não conseguia encontrá-la é porque, na verdade, ela não existia.

Qual era?
A gravação de Peter Cushing ou Christopher Lee a interpretarem Ricardo III, na peça de Shakespeare. Assim que o livro foi publicado, várias pessoas nas sessões de autógrafos disseram-me que foi o Peter Finch. E assim que ouvi a gravação do Peter Finch, percebi, claro, que era ele. A memória é teimosa. E estes foram exemplos de teimosia extrema, sabe? Outra coisa é que, em termos de verificação de informação, havia muito poucas provas, muito poucas cartas. A minha tia [Yo, irmã da mãe], com quem verifiquei a informação, é uma verdadeira criadora de mitos na família, pelo que não é de confiança. Mas, claro, esta é uma autobiografia, por isso é a minha versão da história.

Depois de uma era de grande privação, na Segunda Guerra Mundial, seguiu-se uma era de ascensão monetária. Na sua família não viviam na pobreza, mas os seus pais insistiam em não melhorar a qualidade de vida ou não investir naquilo que, estavam certos, não era necessário. Teriam também algum receio de voltar a passar por outro período de guerra?
Os meus pais ascenderam socialmente por minha causa, mas viveram praticamente até ao fim das suas vidas como se ainda estivessem, em muitos aspetos, na década de 1930. Foram muito marcados pelos anos de escassez dessa década, depois pela guerra e pelo racionamento em Inglaterra, que continuou até à década de 1950. E depois, por causa do tipo de pessoas que eram, havia coisas que não queriam. A mentalidade do meu pai, como sabe pelo livro, era a de ser extremamente cauteloso com o dinheiro, mesmo que de forma desnecessária, até ao fim da vida. Quando estava a poupar dinheiro de uma forma insana, minúscula, esse era o único resquício de poder que lhe restava, para ver quantas vezes conseguia reutilizar um saquinho de chá. E o propósito disto era garantir que todo o dinheiro que ele tinha seria para mim.

Embora conte as coisas como elas aconteceram, nunca tem um tom crítico em relação aos seus pais, mesmo quando diz que o seu pai não ansiava por nada, por exemplo. Essa compreensão ou aceitação vem com a idade? Era algo que o incomodava noutros tempos e que, entretanto, entendeu?
De certa forma, é o oposto. Este livro termina, na sua maior parte, aos 18 anos. Eu estava a começar a ficar frustrado com os meus pais, mas acho que à medida que fui ficando mais velho, desde a altura em que estava em Oxford, as coisas tornaram-se realmente difíceis entre nós. Nessa altura, eu ficava furioso com eles. Simplesmente nunca quiseram fazer nada de bom e essa recusa absoluta deixava-me louco. A minha mulher, por exemplo, é muito próxima dos pais e nunca perde a paciência com eles. Mas a relação natural que temos com os pais é de sermos levados à loucura — ou é essa a minha experiência. Não abordo essa parte no livro, mas perdia a paciência com eles a toda a hora, só por frustração.

Porque não havia necessidade de viverem de forma tão austera?
Sim, austera é a palavra. À medida que ia conhecendo e apreciando cada vez mais coisas, às vezes essas coisas tornavam-se muito confrangedoras. E quando tentava melhorar a vida deles, era sempre rejeitado. Quando estava no carro com o meu pai, e colocava no rádio uma cassete do Keith Jarrett, por exemplo, de quem gostava, dizia ao meu pai: “Gostas disto”? Ele respondia: “Não muito, Geoff”. Não gostavam de nada, ou melhor, não gostavam de melhor comida, melhores coisas, eram muito inflexíveis. Quando me casei, a minha mulher achou que podíamos fazer coisas melhores com eles, mas descobrimos que não podíamos. Se fôssemos a um restaurante, simplesmente não gostavam. Arrependo-me de algumas coisas, gostava muito de os ter forçado de alguma forma a andar de avião, por exemplo. Para eles, era um desperdício de dinheiro. Havia um aeroporto perto de nós. Podia tê-los levado a fazerem um passeio de avião de uma hora, mas não estavam interessados ​​​​nisso.

No livro conta o episódio em que vão de férias para Londres e vão até Heathrow para ver os aviões levantar e aterrar, não para viajar.
Sim, só para observar. Fomos de transportes, vimos os aviões, e voltámos para trás.

Sendo estas as suas memórias, porque é que decidiu que o livro terminaria no momento em que vai para a faculdade? Foi devido a essa frustração familiar que se intensificou quando saiu de casa para estudar?
Eu sabia que ali seria o ponto final. Até ali é que está a história, a história da mudança social. Depois existem aquelas 40 páginas no final [capítulo “Jerusalém”] em que falo do ano em que os meus pais morreram, mas aos 18 é quando mudo literalmente para um mundo diferente. É uma distância geográfica muito curta, mas, como sabemos pela literatura de Thomas Hardy e outros, é Oxford. Toda a gente sabe onde fica Oxford, mas pouca gente sabe onde fica Cheltenham [onde cresceu].

"Um amigo americano disse-me que eu não devia incluir aquela parte em que o meu pai diz que não venderia a casa e que esperava que os vizinhos não a vendessem a uma pessoa negra. E este foi um conselho que, claro, ignorei porque está no livro. Esse era um sentimento comum naquela altura. Não é um detalhe."

Um filho único é quase sempre solitário, mas quando um filho único sai de casa sem nunca olhar para trás, os pais ficam numa solidão profunda, fica uma casa vazia. Eu sou filha única, reconheço-me nisso com alguma culpabilidade. Também pensou nisso ao longo da vida?
Os filhos únicos são muito egoístas, não olhei para trás. Fui à minha vida, estava ávido disso. Passar no exame de admissão para o ensino secundário era algo que todos os pais da classe trabalhadora queriam para os seus filhos, compreendiam a importância do mesmo, mas quando entrei em Oxford, foi algo diferente. Os meus pais sabiam que era algo importante, mas não percebiam realmente o que significava.

Mas mostravam-se orgulhosos? Nunca ninguém na família tinha chegado tão longe.
Isso sim, incrivelmente orgulhosos, mas orgulhavam-se de algo que também lhes era incompreensível. Simplesmente não sabiam o que significava. Depois, quando me visitavam em Oxford, ficava sempre incomodado porque os outros pais eram recebidos pelos porteiros, que eram no fundo empregados, e sabiam como falar com eles. Os meus pais ficavam completamente sem jeito. Quando estava a passar por tudo isto, pensava que se tratava apenas de ser bom na escola e coisas do género. E depois, retrospetivamente, lá pelos meus 20 e poucos anos, comecei a compreender que isto é uma experiência de classe, de diferença de classe.

Numa parte diz: “Muito do que aqui está foi escrito a partir do que falta”. O que quer dizer com isto?
Já nem sei o que quis dizer… Será que há alguma coisa que eu tenha reprimido de alguma forma? Acho que não, mas… não sei. Talvez devesse ter cortado essa frase.

Gostava de ter escrito este livro quando os seus pais ainda estavam vivos?
É uma ótima questão, mas não, não teria conseguido. Na verdade, é uma tentativa de explicar aos meus pais o que realmente nos aconteceu. De certa forma, seriam os leitores ideais para este livro. Talvez tenham lido o meu primeiro livro. Depois disso, não leram mais nada. Este livro faz-lhes justiça. E não se pode fazer justiça a alguém omitindo as características negativas. Por exemplo, um amigo americano disse-me que eu não devia incluir aquela parte em que o meu pai diz que não venderia a casa e que esperava que os vizinhos não a vendessem a uma pessoa negra. E este foi um conselho que, claro, ignorei porque está no livro. Esse era um sentimento comum naquela altura. Não é um detalhe.

Era fruto da época. O anormal era pensar de forma diferente.
Exatamente, sim. No entanto, sei que se uma família negra se tivesse mudado para a casa ao lado, se tivessem sido simpáticos, não tenho dúvidas nenhumas de que os meus pais teriam sido igualmente simpáticos.

Foi o que aconteceu com os vizinhos testemunhas de Jeová que tiveram [uma família que parece uma ameaça para o pai, no início, mas que se revela mais do que pacífica, deixando os Dyer cultivarem até a horta deles].
Sim, se forem bons vizinhos, não há problema. O meu pai nunca deixou de desconfiar das testemunhas de Jeová, no entanto. Sempre achou que era algum tipo de seita. Mas esta é uma visão de como a vida era naquela época.

Nas notas referiu o jornalista português que lhe perguntou se escreveria sobre inícios, depois de ter escrito sobre finais [Os Últimos Dias de Roger Federer e Outros Finais, 2023]. Agora que já escreveu sobre finais e inícios, o que se segue?
Acabei de terminar um romance na semana passada. Passa-se no final dos anos 90, num país que parece ser Itália, mas cujo nome não é mencionado. Tem uma festa parecida com uma rave numa casa de campo e, uns amigos decidem, em vez de irem de carro, passar três dias a caminhar até lá. É um relato da sua caminhada por esta paisagem para chegar a esta festa e, neste momento, o título provisório é L’avventura, como o filme de Antonioni.

Pensa que talvez um dia possa escrever sobre o período de Oxford em diante?
Não, isso está encerrado. Ou melhor, existe um romance meu, o primeiro que publiquei em 1989, chamado A Cor da Memória, que trata da minha vida aos 20 anos, quando vivia do subsídio de desemprego em Brixton, portanto fiz algo com essa parte, sim. Examinei todas as outras partes da minha vida e demorei bastante tempo a voltar a este ponto, à infância, à adolescência, à vida familiar. Estou finalmente confortável com isso.

[Renato Seabra matou Carlos Castro, isso ninguém contesta. A pergunta a que os jurados têm de responder é outra: o jovem modelo português pode ou não ser responsabilizado pelo crime? Sentiu raiva ou estava mentalmente perturbado? Ouça o sexto e último episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o Podcast Plus do Observador narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro episódio, aqui o quarto episódio e aqui o quinto episódio]