Quantas vezes foi o Festival de Cannes criticado nestes últimos anos por “jogar sempre com os mesmos”, apostando em valores consagrados do cinema mundial que aqui se ergueram e consolidaram o seu trabalho? De facto, anos houve que foi preciso procurar pela novidade como agulha em palheiro no concurso principal, edições em que apenas um cineasta desconhecido, máximo dois, lograva entrar na “corrida dos grandes”, face a 18 ou 19 concorrentes de renome e já com obra feita.
2026 vem alterar abruptamente este padrão, numa altura — é curioso — em que até a conservadora Academia de Hollywood une esforços para ganhar abrangência à escala global. A vitória surpreendente do sul-coreano Parasitas, de Bong Joon-ho, Palma de Ouro em Cannes 2019 e quatro vezes premiado em Los Angeles (Óscar de Melhor Filme incluído), foi apenas um primeiro sinal de mudança.
Ora, em Cannes 2026, dos 22 filmes a concurso, 11 deles foram realizados por cineastas que se estreiam na corrida pela Palma de Ouro. Isto não é só um facto assinalável, é uma revolução completa na linha de programação do festival, inédita nas últimas três ou quatro décadas, prova de que o festival está em fase de abertura a uma nova fornada de artistas.

À conversa com os jornalistas, em conferência de imprensa, sobre o estado do cinema actual e os “tempos de insegurança que o mundo atravessa”, Thierry Frémaux, delegado-geral de Cannes há 18 anos (integra a sua direcção há 25), destacou a novidade que acima se aponta, recordando depois que também foi na insegurança que o festival se formou (a edição-piloto, planeada para 1939, ficou em suspenso até 1946 por causa da II Guerra Mundial).
Entretanto, Cannes tornou-se uma fortaleza, o mais poderoso dos festivais, em qualquer área que se socorra desse nome; continua a ser, a larga distância, o evento cultural com maior cobertura mediática do planeta. Cannes também tem que lidar hoje com os boatos venenosos de redes sociais (que tanto fizeram manchete em Berlim devido a declarações de Wim Wenders colocadas fora de contexto), o avanço da Inteligência Artificial (que não assusta Frémaux) ou a imposição generalizada de quotas de género (que o delegado-geral renega porque, com quotas, “é posta em causa a liberdade editorial do comité de selecção”).
Aliás, só a “falta de quotas” explica que, face a apenas dois filmes americanos no concurso (duas produções alheias às lógicas dos grandes estúdios), The Man I Love, de Ira Sachs, e Paper Tiger, de James Gray, encontremos este ano três produções japonesas no mesmo lote (Fukada, Kore-eda e Hamaguchi) e, ainda mais invulgar, três espanholas, oriundas de três gerações (precisou Frémaux) “bem distintas”: Amarga Navidad, do eterno visitante Pedro Almodóvar (a Palma de Ouro é um dos poucos louros que lhe faltam), El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, e a novidade La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi.

Já em relação ao cinema americano, não há cão nem gato que não diga por estes dias que ele está em falta, mas atenção: os rostos de Hollywood, actrizes e actores, esses, virão em peso. Virão, também, porque os intérpretes começaram a procurar novas formas de fazer cinema no pós-pandemia de greves e ambientes políticos menos favoráveis ao cinema. Aqui encontraremos John Travolta (em estreia na realização), Andy Garcia, Woody Harrelson, Adam Driver, Kristen Stewart, Scarlett Johansson ou Cate Blanchett, em contrapeso aos europeus Javier Bardem, Léa Drucker, Monica Bellucci, Catherine Deneuve ou Isabelle Huppert. E até a equipa de Velocidade Furiosa já anda pela Croisette, para celebrar os 25 anos da franchise da Universal. “Tem alguma coisa que ver com Cannes?”, perguntaram a Frémaux. “Claro que tem: é um filme de género e um fenómeno de popularidade impressionante.” Cannes tem uma noção exacta do valor do seu show. Quer ser a casa do cinema todo.
https://observador.pt/2026/04/09/almodovar-hamaguchi-pawlikowski-ira-sachs-e-arthur-harari-na-competicao-pela-palma-de-ouro-de-cannes/
Outro aspecto a salientar: Cannes é cada vez mais — para o melhor e para o pior — a montra privilegiada da indústria do cinema francês e de suas infinitas ramificações no globo. Há países que investem na industrialização massiva, outros na guerra e na geo-política, até na expansão territorial. Dá vontade de escrever que a França — beneficiando do facto de ser um país rico — escolheu investir em cultura. E nenhum país investe tanto na diversidade do cinema, a larga distância de qualquer outro.
É uma estratégia económica pensada e posta em prática há décadas, permitindo que cada vilarejo do hexágono tenha hoje o seu multiplex — e as salas, aqui, levam as pessoas a sair de casa. E estão cheias. Nada que ver com a infeliz realidade portuguesa. O Libération destaca, na edição da segunda-feira que antecede o arranque do festival, que a frequência das salas francesas deste Abril subiu 35% face ao mesmo mês do ano passado.

Da enérgica produção interna à propagação impressionante das suas co-produções mundo fora, França financia hoje cinematografias tão díspares como a argentina, a congolesa, a romena ou a iraniana (veja-se o caso da Palma de Ouro do ano passado, Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi, que concorreu aos Óscares sob bandeira francesa…), permitindo que estes países, malgrado as suas dificuldades políticas e sócio-económicas, continuem a falar do presente através do cinema. Ora, todas estas vozes vêm dar a Cannes, como é evidente. “À grande e à francesa”, como em Portugal se diz.
Para que se faça uma ideia, porque o número faz sorrir: Cannes exibe este ano 69 (!) — não é engano — longas-metragens francesas ou co-produzidas com envolvimento financeiro do hexágono, espalhadas por todas as suas secções, da selecção oficial aos programas paralelos. O cinema francês abunda na Selecção Oficial e na Quinzena dos Cineastas, mesmo quando o realizador tem nacionalidade iraniana (Asghar Farhadi), russa (Andrey Zvyagintsev), romena (Christian Mungiu) ou nipónica (Ryusuke Hamaguchi).
A Semana da Crítica e o ACID estão com taxas de ocupação francófona muito acima dos 50%. É uma percentagem esmagadora, quase chocante, para um festival que se diz “internacional”, só que a questão é outra, de facto: a França é que se antecipou, “internacionalizou-se”, no que ao cinema diz respeito. O seu mercado interno é tão pujante que lhe permite estas digressões.

Filmes franceses “por inteiro”, sem outra bandeira, no festival das Palmas, temos seis: L’inconnue, de Arthur Harari, com Léa Seydoux, Histoires de la nuit, de Léa Mysius, Notre salut, de Emmanuel Marre, Garance, de Jeanne Herry, La vie d’une femme, de Charline Bourgeois-Tacquet e Moulin, este realizado pelo húngaro László Nemes. A todos eles voltaremos nas crónicas dos próximos dias.
Mas é preciso dispersar, é até provável que o melhor nem esteja na competição. Há que falar de Mauvaise étoile, sólida estreia da dupla Lola Cambourieu e Yann Berlier, que abre esta quarta-feira o ACID, história de um casal com filha menor, que se agride lentamente, pela psicose do marido e pela dependência afectiva da mulher, que vai resistindo para manter a família à tona.
Há que falar do comovente La Gradiva, escolha da Semana da Crítica, primeira longa da directora de fotografia da francesa Marine Atlan e filme raro no seu fôlego romanesco, a acompanhar um grupo de finalistas franceses do liceu, em viagem escolar às ruínas de Pompeia — é o fim da adolescência em efervescência, em rima com a história do Vesúvio: vai ser uma das revelações deste festival.

Há que falar de Quelques mots d’amour, de Rudi Rosenberg, entrada do Un Certain Regard, com um papel à medida de Hafsia Herzi, entre a comédia e o melodrama de fundo sempre triste, porque a mãe solteira tem uma filha que o pai abandonou, mas a filha insiste em conhecê-lo. Seguimo-la dos 7 aos 14 anos de idade. Ou de Congo Boy, de Rafiki Fariala, jovem refugiado congolês, tornado cineasta, que Boris Lojkine, o autor de A História de Souleimane, descobriu em Bangui, capital da República Centro Africana.
Há que falar de Gabin, documentário de Maxence Voiseux (Quinzena dos Cineastas) que segue o rapaz da província do título, dos 8 aos 18, filho de talhantes e ele próprio destinado a seguir o negócio da família — mas o rapaz quer mudar de rumo porque “os animais escutam-nos, compreendem coisas.”
Incontornável será Les roches rouges, novo filme de Bruno Dumont, de produção portuguesa (da Rosa Filmes), rodado em Anthéor, a poucos quilómetros de Cannes. É uma versão livre de Romeu e Julieta interpretada por crianças com menos de 10 anos. Nunca ninguém filmou crianças com menos de 10 anos a fazer o que fazem os jovens intérpretes de Dumont. É um filme que tem a polémica à sua espera (tal como Yes, de Nadav Lapid, no ano passado, por muito diferentes razões). Dumont dará uma masterclass depois da exibição, a Quinzena programou-o em sessão especial.
Na primeira noite, Cannes abre em jeito de amuse-bouche: La Vénus Électrique, de Pierre Salvadori.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.