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Sabedoria em tempos de IA

A sabedoria, neste tempo, exige uma forma particular de resistência. Exige que continuemos a hesitar quando a máquina não hesita, a perguntar o que poderá faltar quando a resposta parece completa

Rodrigo Adão da Fonseca
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Há pelo menos vinte e cinco séculos que a filosofia ocidental se interroga sobre o que seja a sabedoria, e o mais curioso é que as respostas mais fecundas raramente a descrevem como um armazém de conhecimentos ou um catálogo de verdades finais. Sócrates considerou a sua forma mais elevada a consciência de que nada sabia, uma confissão de ignorância que, longe de ser modéstia retórica, era o ponto de partida de toda a investigação séria. Aristóteles cunhou o termo phronesis, sabedoria prática, para distinguir a capacidade de julgar bem em situações concretas, sob pressão, quando a informação é incompleta e os valores em jogo entram em conflito. Kant falava-nos do uso prático da razão. As tradições chinesas, com Confúcio, o taoísmo e os textos clássicos, associam a sabedoria ao sentido da proporção, à atenção ao contexto, à suspeita perante o conhecimento rígido e à coerência entre meios e fins. Nenhuma destas vias trata a sabedoria como um stock de conhecimento. Todas a descrevem como uma disposição, uma maneira de estar no mundo, sobretudo quando o mundo resiste a ser arrumado.

Podemos condensar o fio comum em três traços. Desde logo, uma humildade epistémica, ou seja, a consciência de que aquilo que julgamos saber pode ser parcial, datado ou simplesmente errado. Depois, a presença da atenção ao contexto, ou a recusa de aplicar fórmulas gerais a situações singulares sem antes olhar com cuidado. Por fim, a capacidade de agir sem exigir certeza total, aceitando que a decisão sábia se mede menos pelo desfecho imediato e mais pela qualidade do juízo que a orientou. A sabedoria, dizem-nos as tradições, é uma prática, não uma posse, e vive mais na conversa longa entre gerações do que no cume que um pensador isolado julgue ter atingido.

É aqui que a inteligência artificial generativa nos coloca uma questão inédita. Pela primeira vez, grande parte da população dispõe de um interlocutor disponível vinte e quatro horas por dia, que responde a tudo com fluência e convicção. O acesso ao conhecimento, à interpretação da realidade, ao enquadramento de problemas e até à formulação de decisões passa, cada vez mais, por essa mediação. A questão filosófica interessante prende-se menos com a ferramenta em si e mais com o efeito que ela produz sobre as disposições que constituem a sabedoria.

O primeiro efeito é o apagamento silencioso da humildade epistémica. Quando a máquina responde sempre, e responde depressa, somos levados a confundir disponibilidade com verdade, fluência com autoridade. A hesitação, que em Sócrates era o sinal mais sério do pensamento em funcionamento, passa a parecer uma falha do sistema. O segundo efeito é a erosão da atenção ao contexto. A resposta genérica, bem escrita, aparentemente exaustiva, poupa-nos o trabalho de olhar para a situação concreta à nossa frente e perguntar o que há nela que a torna diferente. O terceiro efeito é a substituição do juízo pela delegação. É muito confortável pedir uma recomendação, uma síntese, uma decisão ponderada a quem nunca carrega o peso das consequências. Delegar a síntese é relativamente inócuo; delegar o juízo é outra coisa, porque quem decide continua a ser quem aceita a resposta sem a submeter a escrutínio.

A sabedoria, neste tempo, exige uma forma particular de resistência. Exige que continuemos a hesitar quando a máquina não hesita, a perguntar o que poderá estar a faltar quando a resposta parece completa, a suspeitar da confiança quando a confiança passou a ser a moeda barata do sistema. Exige a consciência de que o mapa oferecido pelo modelo, por mais bem desenhado, jamais coincide com o território real, que tem textura, história e exigências próprias. Exige que tratemos cada resposta gerada como uma hipótese articulada com elegância, sujeita a correcção, e nunca como um veredicto. Exige, sobretudo, que recuperemos o instinto de olhar duas vezes para aquilo que parece evidente: o equivalente contemporâneo daquele velho princípio segundo o qual, antes de derrubar qualquer coisa, é preciso perceber porque foi erguida. Muitas das práticas, rotinas profissionais, formações e métodos que a IA promete automatizar foram construídos por razões que não se leem à primeira vista.

Ser sábio no tempo da IA é, porventura, isto: manter viva a qualidade humana de reparar. Reparar no contexto, nas pessoas à nossa frente, nos sinais que o modelo não vê por não ter sido treinado para os ver. Reconhecer que a resposta mais útil será, muitas vezes, aquela que a máquina não formulará: a que aceita a incerteza, recusa simplificar, deixa espaço para rever. A inteligência artificial oferece-nos uma extraordinária extensão da nossa capacidade de processar informação, e muitas outras coisas que estamos todos os dias a descobrir. A sabedoria, essa, continua a ser humana, a arte, profundamente nossa, de decidir o que fazer com ela e, talvez ainda mais importante, o que nela não delegar.