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(A) :: Um passeio, uma ausência... uma provocação? Como uma fotografia publicada por Mbappé colocou o clima no Real em ponto de ebulição

Um passeio, uma ausência... uma provocação? Como uma fotografia publicada por Mbappé colocou o clima no Real em ponto de ebulição

Não foi o teor – foi o timing. Depois de ser baixa a cinco minutos do fim da sessão de véspera do clássico, Mbappé publicou uma fotografia nas redes sociais, quando Real já perdia por 2-0 com o Barça.

Manuel Conceição Carvalho
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O fracasso da temporada do Real Madrid, “selado” com a conquista da La Liga pelo Barcelona no último domingo, não foi um evento súbito mas sim o culminar de uma crise interna que se arrastava há meses. No centro do furacão está Kylian Mbappé, cuja ausência num momento decisivo da época tornou-se o símbolo de um balneário fragmentado e de uma relação de confiança que parece ter chegado a um ponto sem retorno.

Essa dissonância entre jogadores terá começado em outubro passado, ainda sob o comando de Xabi Alonso. O balneário dividiu-se em duas fações. Os “pesos pesados” do plantel, liderados por Vinícius Jr. e Fede Valverde, contestavam abertamente a rigidez tática e o excesso de sessões de vídeo do técnico espanhol. De acordo com o jornal Marca, alguns jogadores chegaram a simular estar a dormir durante as sessões e o treinador terá gritado aos jogadores que “não sabia que vinha para um infantário”. Do outro lado, um grupo que incluía Tchouaméni defendia o treinador. Xabi Alonso deixou o comando técnico dos blancos e a chegada de Álvaro Arbeloa em janeiro poderia trazer alguma trégua ao balneário do Real Madrid.

https://observador.pt/2026/05/08/o-mes-de-outubro-os-dois-grupos-no-balneario-e-a-sugestao-de-um-bufo-o-momento-inacreditavel-do-real-madrid/

Poderia, mas não trouxe. A transição para Álvaro Arbeloa em janeiro não trouxe a paz esperada. O novo treinador herdou um grupo onde seis jogadores se recusavam sequer a dirigir-lhe a palavra e onde metade não entendia como é que a outra metade tinha destruído um projeto que tinha acabado de nascer. A ideia de estabilidade terá sido uma ilusão para o exterior até a eliminação na Liga dos Campeões, diante do Bayern, expor um problema que há muito minava a saúde do balneário madrileno.

A essa altura os problemas já eram latentes. O Real Madrid conquistou o último título em 2024 – a Taça Intercontinental – e, com o Barcelona a fugir na tabela classificativa, a certeza de que o jejum iria continuar foi ganhando cada vez mais força à medida que o Campeonato espanhol se ia acercando do final. Junto da massa adepta merengue, isso, só por si, já era motivo suficiente de tensão entre a equipa e as bancadas do Santiago Bernabéu. Os problemas pioraram ainda mais quando Mbappé foi apanhado num passeio de barco na Sardenha, em período de recuperação de lesão, sofrida a 24 de abril.

https://observador.pt/2026/05/04/o-aviao-o-barco-sardenha-e-ester-as-razoes-do-conflito-entre-mbappe-e-o-balneario-do-real-madrid/

A ideia seria estar apto para o clássico diante do Barcelona e a recomendação era de repouso. A divulgação das imagens do avião do atleta a aterrar em Madrid, num momento em que a equipa tentava adiar o título do rival, diante do Espanyol, a cerca de 600 quilómetros de distância, gerou uma vaga de indignação que culminou numa petição online com milhões de assinaturas a pedir a sua saída. Para a afición, o gesto foi visto como uma falha de compromisso de Mbappé com o grupo de trabalho.

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A tensão não parava de aumentar e, na semana do clássico, parece ter atingido o ponto de ebulição. Um (novo) conflito entre Valverde e Tchouaméni resultou num traumatismo cranioencefálico para o uruguaio, que desmentiu mais tarde ter havido um confronto físico com o francês. Fede Valverde, em comunicado nas redes sociais, sugeriu ainda a existência de um “bufo” no balneário do Real Madrid, que permitia constantes fugas de informação sobre o que se passava no seio do plantel blanco. 

A semana de preparação da partida contra o Barcelona estava, no entanto, ainda a começar, no pior sentido da palavra. Durante a sessão de véspera, marcada até por algum otimismo – devido à possibilidade de Mbappé voltar a ajudar a equipa –, o avançado abandonou o treino cerca de cinco minutos antes de este acabar, queixando-se de dores na coxa, conta o jornal Marca. De acordo com o El Mundo, a saída abrupta surpreendeu a equipa técnica, que contava com ele para o onze titular, e foi mal recebida pelos colegas de equipa, que não compreenderam a gestão que o jogador fez da sua condição física. Para outras publicações, terá sido o facto de perceber que não iria ser titular frente ao Barça que motivou a saída.

A ausência de Mbappé estava confirmada e o Real Madrid ia a jogo sem o avançado francês. Mas o mal-estar ia prolongar-se para o início da partida. Durante o clássicomais precisamente durante o 36.º minuto de jogo, Mbappé colocou uma story (publicação temporária) no seu perfil no Instagram. A descrição – “Hala Madrid” – , fora de contexto, parecia ser inofensiva. No entanto, o timing da publicação foi muito mal recebido pelos adeptos merengues, que interpretaram o post como uma provocação: o Real já perdia por 2-0, depois dos golos de Rashford (9′) e Ferran Torres (18′). O resultado é visível na fotografia publicada.

A acumulação de polémicas em volta do camisola 10 do Real Madrid levou, ainda antes do jogo com o Barcelona, à criação de uma petição online para a saída do francês do clube. A petição apelidada de “Mbappé Out” conta já com cerca de 73 milhões de assinaturas e antecipa um mercado de verão quente para os madridistas e para o próprio avançado, com ou sem saída do atleta da capital espanhola.

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