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(A) :: Porque é que os portugueses se sentem estrangeiros em casa 

Porque é que os portugueses se sentem estrangeiros em casa 

A falsa alternativa — imigração ilimitada ou hostilidade aos imigrantes — destrói qualquer deliberação séria. A pergunta que importa é mais difícil: como pode Portugal acolher sem se dissolver?

Eduardo Almeida Pinto
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O Chega não criou a hostilidade que hoje se manifesta em torno da imigração; deu-lhe linguagem, direcção e representação política. Surgiu porque havia um vazio: de autoridade, de mediação, de integração e de forma comum. Perceber esse vazio é mais urgente do que condenar quem o preencheu.

Durante décadas, Portugal teve imigração. Brasileiros, africanos, europeus de leste, asiáticos, comunidades diversas que chegaram, trabalharam, se estabeleceram e, em muitos casos, se integraram. Havia tensões, preconceitos e desigualdades, mas não havia ainda a sensação generalizada de que o país estava a ser transformado sem consentimento. A imigração era percebida como fenómeno integrável, ou pelo menos compatível com a continuidade da comunidade nacional.

O que mudou nos últimos anos foi a escala, a velocidade e a visibilidade. A imigração deixou de ser sentida por muitos portugueses como presença ordenada e passou a ser sentida como excesso: excesso na habitação, nos serviços, nos bairros, no trabalho, nas ruas, na alteração quotidiana de lugares antes reconhecíveis. O problema não é apenas estatístico. É político, social e, mais profundamente, uma questão de ordem.

Uma comunidade política não é uma soma de indivíduos residentes no mesmo território. Um povo é uma unidade orgânica de pertença comum: uma forma histórica de vida feita de língua, memória, hábitos, símbolos, deveres, expectativas e continuidades. Essa unidade pode integrar estrangeiros, e muitas vezes fê-lo. Mas só os integra verdadeiramente quando a chegada do novo é ordenada pela forma comum já existente. A integração não é mera coexistência física. É a inserção progressiva de quem chega numa comunidade que tem anterioridade, densidade e direito à sua própria continuidade.

É aqui que a linguagem habitual dos direitos se revela insuficiente. Fala-se do direito a circular, do direito a residir, do direito a trabalhar, do direito à protecção jurídica. Tudo isso importa. Mas uma sociedade não se compreende apenas pela soma dos direitos que reconhece. Compreende-se pela ordem concreta que produz: pelo modo como distribui lugares, pertenças, deveres, vínculos e responsabilidades. Uma política pode ser formalmente legal e ainda assim produzir desordem; pode respeitar procedimentos e, ao mesmo tempo, ferir a estrutura viva da comunidade.

A saturação portuguesa nasce precisamente daí: da sensação de que o povo português está a perder lugar no seu próprio mundo. Não porque o imigrante não tenha dignidade. Mas porque a entrada rápida, numerosa e desregrada, quando não é mediada por integração real, altera a forma comum antes de a comunidade conseguir assimilá-la.

Importa ser claro: dizer isto não é apelar à xenofobia, nem minimizá-la. A xenofobia é uma degradação moral porque transforma pessoas concretas em símbolos de perigo — e isso não se justifica. Mas combate-se nomeando a saturação que a alimenta, não negando-a. Quando as instituições recusam essa nomeação, a inquietação não desaparece: radicaliza-se. E quando quem fala de limites é tratado como suspeito, o discurso dos limites acaba entregue aos que falam sem prudência, sem justiça e sem responsabilidade.

Foi isso que aconteceu. Durante demasiado tempo, as elites confundiram integração com absorção automática, abertura com virtude suficiente, tolerância com ausência de limite. Quem perguntava quantos podiam entrar, em que condições, com que deveres e dentro de que ideia de país era colocado sob suspeita moral. Mas uma sociedade não sobrevive apenas pela acumulação de direitos individuais, contratos de trabalho e autorizações de residência. Sobrevive porque existe uma forma comum capaz de transformar diferença em pertença.

O Chega cresceu nesse vazio. Não inventou a saturação: organizou-a politicamente. O seu crescimento é menos a origem do problema do que o sintoma de uma falência anterior: a incapacidade das instituições para proteger simultaneamente a dignidade de quem chega e a continuidade de quem recebe.

A falsa alternativa — imigração ilimitada ou hostilidade aos imigrantes — destrói qualquer deliberação séria. A pergunta que importa é mais difícil: como pode Portugal acolher sem se dissolver?

O estrangeiro não chega ao vazio, chega a uma comunidade anterior a ele, com memória, forma e direito à sua própria continuidade. Quando o Estado esquece isto, deixa de praticar hospitalidade ordenada e passa a administrar dissolução. A imigração só é politicamente saudável quando é recebida por uma comunidade ainda capaz de integrar — e essa capacidade não é ilimitada, nem se reconstitui por decreto. Portugal ainda tem essa capacidade. A questão é saber por quanto tempo a continuará a desperdiçar.