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Carlos Brito merecia mais, mas o PCP é o PCP

O comunicado do PCP é um retrato político: de uma organização incapaz de lidar serenamente com quem pensou pela própria cabeça.

Sérgio Guerreiro
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“ A pedido de vários órgãos de comunicação social sobre o falecimento de Carlos Brito”.

Começa assim o comunicado do PCP sobre a morte de um dos mais históricos homens ligados ao partido. Braço-direito de Álvaro Cunhal, líder parlamentar e candidato presidencial pelo PCP, Carlos Brito vê a sua história e tudo aquilo que deu ao partido resumido a um comunicado feito “a pedido de vários órgãos de comunicação social”.
Isto significa que, não estivesse a comunicação social atenta, o PCP talvez deixasse cair no silêncio a memória política de um homem que ajudou a construir grande parte da sua própria identidade no pós-25 de Abril.

Dissidente do partido porque, como escreveu Manuel Alegre, “não há machado que corte a raiz ao pensamento”, Carlos Brito acabou por descobrir aquilo que tantos descobriram antes dele: o PCP tolera mal a divergência quando ela nasce dentro das suas próprias paredes.
O partido demonstra, uma vez mais, que continua a aceitar com dificuldade a opinião de quem pensa diferente e a livre consciência cívica de quem ousa afastar-se da linha oficial.
Não perdoa quem discorda e muitas vezes, exclui da sua memória aqueles que um dia o fizeram crescer numa das épocas mais decisivas da democracia portuguesa.

Carlos Brito não foi um militante marginal. Foi um homem que ajudou a consolidar o partido, a dar-lhe voz parlamentar e a transformá-lo numa força política relevante num país acabado de sair da ditadura.
E como respeita hoje o partido essa memória? Com a frieza burocrática de um comunicado feito por obrigação circunstancial. Não há calor político, não há verdadeira dimensão histórica, não há sequer a grandeza de reconhecer o contributo de quem, durante décadas, serviu o partido ao mais alto nível.

O problema do PCP nunca foi a memória. Foi sempre a heresia. O partido aceita resistentes, aceita símbolos, aceita mártires. O que nunca aceitou verdadeiramente foi a divergência. Quem ousa pensar fora da cartilha deixa de ser camarada para passar a incómodo histórico.
E talvez por isso este comunicado seja tão revelador. Não é apenas um texto burocrático. É um retrato político. Um retrato de uma organização incapaz de lidar serenamente com quem pensou pela própria cabeça, mesmo quando esse pensamento nasceu dentro da sua própria casa.

Há partidos que discutem os seus dissidentes. O PCP apaga-os. Elimina-os da sua própria história, expulsa-os das sua casa. Como em certos regimes antigos que reescreviam fotografias para eliminar os caídos em desgraça, também aqui parece existir a tentação de conservar o símbolo e apagar o incómodo.

Talvez por isso exista também tanta dificuldade em olhar para a Ucrânia sem ambiguidades morais. Um povo invadido, uma soberania atacada, cidades destruídas e civis mortos continuam, para o PCP, a merecer mais relativismo ideológico do que solidariedade clara.
Se ao povo da Ucrânia se vira as costas, aos dissidentes do PCP, passa-se uma borracha por cima da história.

No fundo, o partido que tantas vezes fala em dignidade humana continua a demonstrar uma enorme dificuldade em aceitar duas coisas simples: a liberdade de discordar e o direito dos povos a existirem sem tutela nem invasão.