Primeiro o alarme por causa do hantavírus, um vírus respiratório agudo cuja mortalidade pode atingir os 40% na estirpe dos Andes, a que foi detetada num cruzeiro vindo da Terra do Fogo — que acabou por provocar a morte a três pessoas e cujos contágios continuam a surgir. Este domingo um novo susto, ao saber-se que num outro navio ao largo de Miami tinha sido detetada a presença de norovírus, que provoca vómitos e diarreia. Esta quarta-feira mais um outro surto (cujas autoridades suspeitam tratar-se também de norovírus) num cruzeiro em Bordéus provocou uma epidemia de gastroenterite, já causou a morte a pelo menos uma pessoa e deixou isolados os 1700 passageiros.
Nestes cruzeiros navegavam cerca de 150, 3.100 e 1.700 passageiros, respetivamente. A todos foram aplicadas medidas de confinamento. Mas serão os navios espaços mais onde há um maior risco para a propagação de vírus e bactérias. E porquê? Apenas porque muitas pessoas estão reunidas no mesmo espaço? “É difícil” dar uma resposta direta, diz uma especialista em Medicina do Viajante.
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Andreia Castro é médica de Medicina Geral e Familiar, mas a sua área de atividade clínica foca-se há muitos anos em Medicina de Viagem, explica ao Observador. Andreia chegou mesmo a exercer a sua atividade num cruzeiro, entre 2018 e 2019. É com base nessa experiência que começa por explicar que o cruzeiro onde foi detetado hantavírus é, na verdade, um navio de “pequena dimensão”, o que transportava apenas as 150 pessoas e vinha do “fim do mundo” numa experiência de aventureiros a que muito poucos podem chegar, já que as viagens custam entre 15 a 25 mil euros e partem da Argentina, com uma ida à Antártida, passando por várias ilhas remotas, até chegar a Cabo Verde.
“Atualmente temos navios na casa dos milhares de pessoas em circulação, entre turistas e membros de tripulação. No cruzeiro onde trabalhei havia um total de cinco mil pessoas, por exemplo, das quais três mil eram turistas”, detalha a médica, fazendo comparações com os grandes cruzeiros, como os que vemos, por exemplo, no porto de Lisboa .
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Segundo a especialista, os cruzeiros estão quase sempre ocupados por passageiros em contínuo: “Estão sempre em movimento. Os circuitos são pré-definidos, podem ser de 7 dias, 14 dias… E no último dia as pessoas saem e poucas horas depois entra uma nova leva de passageiros. Ou seja, há sempre uma continuidade grande de pessoas a entrar e sair.”
Além do elevado número de pessoas a bordo de forma constante, Andreia Castro acrescenta que os cruzeiros têm ainda uma outra particularidade. “Há sempre muita gente dentro do mesmo espaço, que acaba por ser um espaço relativamente confinado. E depois temos milhares de pessoas a tocar nos mesmos botões dos elevadores, a mexer no corrimão, a passar pelo bufete… Há muito contacto cruzado a uma elevada frequência”, diz.
E acrescenta que, apesar de os cruzeiros terem espaços ao ar livre, “a maioria da área pública [onde estão os passageiros] é entre quatro paredes, sendo que esse ambiente é mais adequado para a propagação de certos organismos”.
O foco tem de estar na limpeza constante das áreas comuns, diz a especialista. E também na higienização frequente das mãos.
“Há equipas específicas para limpar todos os segmentos de atividade que existem em cada cruzeiro, mas obviamente que pode sempre acontecer a transmissão de bactérias ou vírus na mesma”, diz. Andreia Castro dá como exemplo a legionella, que “é muito típica de zonas com água mais quente, como jacuzzis, daí que a componente da higienização do barco seja essencial”.
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Passageiros aprendem a identificar sintomas de doenças
Não há nenhuma fórmula mágica que assegure que ninguém fica doente ou que nenhum vírus é propagado entre os passageiros de um cruzeiro. No entanto, há um passo essencial para reduzir os riscos: “Quando alguém vai fazer um cruzeiro deve ir consciencializado que faz todo o sentido antes ter a chamada Consulta do Viajante, onde abordamos aquilo que é mais frequente [em termos de doenças] e capacitamos as pessoas para saberem identificar algumas situações e saber lidar com elas isso.”
Andreia Castro dá estas consultas e explica que, numa primeira instância, nesse espaço os futuros passageiros “são sensibilizados para as doenças que existem em cada sítio” onde o navio irá fazer uma paragem. Porque podem ser necessários cuidados especiais consoante as paragens dos cruzeiros, como vacinas ou medicamentes, ou apenas atenção a água, legumes, etc. Depois, alerta para os “sintomas” associados a estas doenças tropicais e explica também “como se transmitem”. Numa segunda fase — e dependendo das paragens que o navio fará — informa sobre repelentes e até as tais vacinas (como por exemplo a que previne a febre amarela).
A Consulta do Viajante serve para “preparar os viajantes para o que podem vir a contrair numa paragem”, ou seja, sempre que deixarem o cruzeiro temporariamente. E também para alertar para o dia a dia no navio. Segundo a médica especialista, uma das situações que se regista com maior frequência nos cruzeiros — especialmente se o circuito incluir regiões com temperaturas muitos baixas — “são as gripes, relacionadas com inalação de aerossóis” — que tamb´m se transmitem com facilidade.
E há outros problemas, que já não são transmissíveis, mas comuns. “Depois há também coisas comuns como o enjoo, que pode manter-se durante 2/3 dias, sendo que o organismo depois adapta-se às oscilações. Para além disso, em alguns circuitos, há também um maior excesso de consumo de bebidas alcoólicas, pelo que há muitas intoxicações. E ainda acidentes como escorregar ao pé da piscina, onde o desequilíbrio leva a fraturas.”

Funcionários incentivam passageiros a lavar mãos
Há ainda uma outra situação muito comum — para a qual Andreia Castro alerta os futuros passageiros com frequência, e um dos que está agora a acontecer, quer no fim de semana em Miami, quer agora em Bordéus: “A nível alimentar, a situação [de vírus] mais frequente é o norovírus, que é muito comum e de contágio muito fácil. E que tem que ver com uma transmissão facilitada pelo contacto direto entre as pessoas, superfícies e com objetos contaminados, ou até com o consumo de alimentos contaminados, como saladas e molhos”, aponta Andreia Castro.
Esta situação “é extremamente comum e a própria tripulação é sensibilizada para isto”. Tudo acontece assim que a tripulação entra no navio: todos os membros “passam por briefings”. “E aí fala-se sobre a frequência do norovírus, que tem um contágio muito fácil. Quando existem casos deste vírus, propaga-se muito rapidamente, por isso é fácil haver 100/200 casos a bordo.”
Ou seja, o norovírus que agora confina os 1700 passageiros em França (já com uma morte confirmada) é um vírus com impacto gastroentestinal e de rápido contágio.
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Ao mesmo tempo, é um vírus perfeitamente evitável, explica: basta lavar as mãos com frequência. “Os navios têm muitos pontos com dispensadores de álcool ou espuma, por exemplo à porta dos bufetes ou salões. Aliás na zona dos bufetes até há alguns funcionários a motivar as pessoas a desinfetar/lavar as mãos.”
Esta prática é tão valorizada — à semelhança do que aconteceu durante a Covid-19 — que o próprio Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA publicou em agosto de 2025 um conjunto de “dicas para viajar de cruzeiro de forma saudável”. “Lave as mãos com frequência. Evite expor-se a si mesmo e aos outros a qualquer coisa que possa causar doenças e espalhar germes. Lave as mãos com frequência, principalmente depois de usar a casa de banho e antes de comer ou fumar”, lê-se no comunicado.
Esta entidade recomenda ainda aos passageiros que “descansem bastante e bebam bastante água”. “O descanso ajuda a fortalecer o sistema imunológico. Beber água ajuda a manter a hidratação. Se estiver doente informe o centro médico do navio. E se vir alguém mal, saia da área e informe a tripulação do cruzeiro”
De acordo com o CDC, por ano ocorrem 2.500 surtos de norovírus nos EUA (o deste domimgo, ao largo de Miami, que contagiou cerca de 100 pessoas, não foi por isso tão alarmante), estando este vírus fortemente associado a cruzeiros por um motivo particular, lê-se no Cruise Critic, uma plataforma da Tripadvisor: os navios são obrigados a registar as doenças a bordo (algo que não acontece em hotéis, por exemplo). Já o de Bordéus parece ter uma maior dimensão.
Aviões VS. navios: qual é mais seguro?
Quando confrontada sobre se os navios são locais onde o contágio de vírus é mais fácil, a especialista em Medicina do Viajante Andreia Castro diz que é difícil dar uma resposta direta, até porque depende sempre da “comparação com algum outro tipo de ambiente”.
Se compararmos com um avião, por exemplo, a especialista aponta para os diferentes tipos de filtros que existem em cada um destes meios. “Ao falarmos de aviões, falamos de algumas horas em que há um contacto próximo entre os passageiros. Mas os aviões têm, na sua circulação, uns filtros — os filtros HEPA — que facilitam a filtragem de microorganismos de forma altamente eficiente”.
Ou seja, “apesar de o mesmo ar estar em circulação, está a ser devidamente filtrado, por isso a disseminação de algo [como um vírus] é muito mais difícil”. O mesmo não acontece num navio — ou pelo menos não com a “mesma facilidade”. No entanto, destaca a médica, algumas empresas já estão a instalar estes filtros nos seus navios.
Mas há ainda um outro pormenor: “Nos cruzeiros, as pessoas estão sempre em circulação, a subir ou descer pisos, as pessoas às vezes fazem muitos quilómetros dentro de um navio e nem sabem”. Por outro lado, nos aviões, os passageiros não se mexem com tanta facilidade, pelo que se torna mais difícil disseminar qualquer vírus.
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Raio-X e fatos de proteção. Navios têm clínicas que respondem “à maioria das situações”
Sobre o protocolo que existem nos cruzeiros em caso de doença, a médica começa por explicar que “todos os cruzeiros, hoje em dia, têm uma clínica médica no interior em permanência, com uma equipa de enfermagem e uma equipa médica“. Esta clínica “dá resposta à maioria das situações”, garante a especialista, salientando que o espaço inclui salas de observação e permite, por exemplo, fazer análises, raio-X e até ecografias.
“Quando acontece algo a bordo, normalmente faz-se uma chamada da cabine (ou de um espaço comum) e é ativado um dos enfermeiros, caso a pessoa não vá diretamente à clínica. A seguir, um enfermeiro vai ter com o passageiro e, se necessário, ativa-se depois a equipa médica.” Segundo a especialista, uma de duas situações podem registar-se. Pode haver “uma situação aguda que se resolve no momento, como por exemplo uma queda com fratura”. Andreia Castro explica que situações deste género resolvem-se frequentemente “no navio ou, caso não seja possível, a pessoa sai na paragem seguinte ou é retirada de helicóptero”.
Por outro lado, pode também registar-se “uma situação mais progressiva, em que a pessoa se sente um pouco doente, com mal estar, febre, diarreia, vómitos, etc. E é feita observação depois dá-se medicação e, para certas situações, é recomendado isolamento na cabine, para se evitar um risco de contágio”. Se a pessoa doente estiver a partilhar a cabine (por exemplo com o companheiro), “muitas vezes as duas pessoas ficam juntas”.
Seja como for, Andreia Castro garante que em casos de isolamento — como se verificou no caso do hantavírus detetado no navio MV Hondius — “a equipa médica vai sempre acompanhando a situação e, inclusivamente, tem fatos de proteção individual e algum grau de segurança para entrar no quarto”. Contudo, isto pode não se verificar em casos excecionais. Tudo depende das situações, até porque “ninguém espera que haja [num navio] um vírus com mortalidade de 40% [como o hantavírus] não é algo que acontece todos os dias”.
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