Em maio, quando a Europa se olha ao espelho e celebra o seu “dia”, vale a pena lembrar que nem sempre foi evidente que ela chegaria viva até aqui. Foi preciso que alguns poucos, em horas decisivas, recusassem ceder ao fascínio organizado da barbárie. Winston Churchill é um desses poucos.
Winston Churchill não cabe nas hagiografias ingénuas com que tantas vezes se tenta domesticar a história. Porque pertence àquela rara categoria de líderes que não apenas atravessam o seu tempo, mas o definem nos momentos em que tudo está em causa.
A sua vida começa na era vitoriana, quando o Império Britânico não era só uma realidade geopolítica, mas uma convicção civilizacional de poder global. E, nesse quadro, formou uma ideia central que nunca abandonaria, a de que a estabilidade internacional depende de ordens políticas capazes de garantir liberdade e equilíbrio.
Churchill entra no século XX como um político errático, mas nunca irrelevante. O verdadeiro traço distintivo de Churchill emerge, porém, no período entre guerras, nesse intervalo instável onde as democracias europeias hesitaram entre a memória do desastre da I Guerra Mundial e o medo de o enfrentar de novo.
Foi aí que revelou a sua singularidade. Identificou, com uma clareza, a natureza ideológica e expansionista do nazismo. Percebeu que não se pode negociar com o totalitarismo, só existe a alternativa de o enfrentar.
Mais do que ter razão, teve coragem para romper com o consenso, para suportar o isolamento. Nem sempre esteve certo, mas soube, como poucos, distinguir o essencial do acessório e seguir o caminho que julgava justo.
A Europa estava em colapso, esmagada entre extremos ideológicos que rejeitavam a liberdade como princípio organizador das sociedades. Churchill recusou essa fatalidade com lucidez, sabia que a rendição ao totalitarismo não seria o fim da guerra, seria o fim da liberdade europeia.
Prometeu resistência. E ao fazê-lo, não defendeu apenas a soberania britânica, defendeu uma ideia de Europa.
A ideia que ainda serve de pedra basilar da nossa União Europeia, como um lugar onde os povos determinam o seu destino sem submissão a projetos totalitários, fossem eles de matriz nazi ou soviética. É nesse sentido que Churchill deve ser entendido como um dos grandes defensores da liberdade no século XX como condição concreta para o desenvolvimento político, económico e civilizacional das nações.
O pós-guerra confirma essa leitura. O seu discurso da Cortina de Ferro, em 1946, antecipou uma nova linha de fratura europeia. Mais uma vez, Churchill identifica o perigo antes de se tornar consensual e inscreve-se na construção de uma resposta ocidental assente na defesa das democracias liberais.
E é também neste contexto que defende, de forma pioneira, a ideia de uma Europa unida não como idealismo, mas como necessidade política. Um continente que durante séculos se destruiu a si próprio só poderia preservar a sua liberdade através da cooperação e de instituições comuns.
O Dia da Europa, 9 de maio, ancorado na Declaração Schuman de 1950, representa a materialização política de uma vitória anterior sobre os regimes que negavam a liberdade como princípio.
A construção europeia nasce da resistência. Antes da integração, houve guerra, antes da paz, houve a recusa em ceder.
Churchill não esteve isento de contradições. Mas foi um político que, nos momentos decisivos, reconheceu a podridão do seu tempo e recusou acomodar-se a ela. E, ao fazê-lo, ajudou a garantir que a Europa não seria definida pelos extremos, mas pela possibilidade de liberdade e da vontade dos seus povos.
Hoje a Europa volta a ser testada, por dentro, por forças que relativizam os seus valores, e por fora, por ameaças que os desafiam, importa recordar que nada disto era inevitável.
A Europa livre não é um dado adquirido, é uma construção nascida da coragem de resistir.
E essa coragem teve, em Churchill, um dos seus intérpretes mais decisivos. Ele foi um dos homens que tornaram possível, décadas depois, que pudéssemos celebrar um Dia da Europa em liberdade.