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Contar ataques não é medir a ameaça: o que dizem os dados da Europol

O jihadismo mantém-se como a principal referência quando o critério é o impacto humano.

Francisco Jorge Gonçalves
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Na Europa cada ataque terrorista desencadeia o mesmo padrão: contam-se vítimas, identifica-se a motivação e tiram-se conclusões rápidas sobre a ameaça. Este reflexo assenta, porém, numa confusão entre três dimensões distintas — número de ataques, detenções e perigosidade. É essa distorção que os relatórios EU TE-SAT da Europol ajudam a corrigir, ao oferecerem uma leitura comparativa e longitudinal, em contraste com o enfoque mediático em casos isolados.

Desde 2007, a Europol utiliza uma tipologia estável de terrorismo — jihadista, de extrema-direita, de extrema-esquerda e anarquista, e etnonacionalista ou separatista — a que acresce uma categoria residual para incidentes cuja motivação não permite uma classificação tipológica clara. Os relatórios distinguem estas tipologias pelo número de atentados (consumados, falhados ou frustrados), pela letalidade e pelas detenções. Referem-se ao ano civil anterior à sua publicação e resultam de um processo de validação crítica e análise própria, podendo a Europol requalificar incidentes e questionar as classificações dos Estados-Membros.

Nos primeiros anos da série EU TE-SAT, entre 2007 e 2011, a atividade terrorista não jihadista na Europa foi dominada sobretudo por atentados de matriz etnonacionalista ou separatista. Os relatórios da Europol assinalam a predominância de ações associadas à ETA em Espanha, a dissidências do IRA e a grupos corsos em França, caracterizadas por ataques frequentes, maioritariamente dirigidos contra infraestruturas, edifícios públicos e interesses económicos, com reduzida letalidade. Tratava-se, em regra, de um terrorismo de elevada frequência estatística, baixa letalidade e forte concentração territorial.

Já 2015 representou um ponto de inflexão distinto: embora não tenha sido o ano com mais ataques, ficou marcado por um aumento significativo da letalidade associada ao terrorismo jihadista. Os relatórios EU TE-SAT desse período destacam a ocorrência de atentados de grande escala em vários Estados-Membros, com elevado impacto humano, tendência que se prolongou nos anos seguintes, nomeadamente em 2016 e 2017. Consolidou-se, assim, um ciclo em que, independentemente da frequência, o jihadismo se afirmava como a tipologia com maior capacidade de produzir vítimas.

A partir de 2017, e de forma mais clara em 2018 e 2019, os relatórios da Europol passaram a sublinhar o crescimento do terrorismo de extrema-direita enquanto risco estratégico, associado sobretudo a autores isolados e a episódios raros, mas com elevado potencial letal. Relatórios posteriores, em particular o EU TE-SAT 2021, consolidam esta leitura, identificando um padrão de violência dirigida contra civis e associada a motivações ideológicas extremistas.

Ao longo de quase duas décadas, os relatórios mostram que o terrorismo de extrema-esquerda e anarquista tende a ser — comparando com o terrorismo de extrema-direita —, muito mais frequente em termos de número de atentados registados, incluindo ações consumadas, falhadas ou neutralizadas. Trata-se, contudo, de um fenómeno com forte concentração geográfica, ocorrendo sobretudo em Itália, Grécia e, em menor grau, Espanha, e dirigido maioritariamente contra alvos materiais, como infraestruturas, empresas ou símbolos do Estado. Esta tipologia apresenta, por isso, uma estatística elevada de incidentes, mas com reduzida incidência de mortos ou feridos, refletindo um padrão operativo orientado para a sabotagem e a pressão simbólica.

Importa reconhecer uma mutação recente neste padrão. Os relatórios EU TE-SAT de 2024 e 2025 assinalam uma evolução do terrorismo de extrema-esquerda marcada por crescente radicalização discursiva, em parte impulsionada por desenvolvimentos geopolíticos recentes, nomeadamente o conflito entre Israel e o Hamas. Este tem contribuído para a intensificação de narrativas polarizadas e de propaganda dirigida a alvos simbólicos. Trata-se menos de um aumento da letalidade e mais da erosão de limites operacionais e normativos — um padrão que pode anteceder escaladas mais graves.

O quadro altera-se quando se observa o terrorismo de extrema-direita. Apesar de, durante largos períodos, registar muito menos atentados do que a extrema-esquerda nos relatórios da Europol, esta menor frequência oculta um fator decisivo: uma letalidade proporcionalmente superior por ataque. A violência incide sobretudo sobre civis, menos sobre alvos materiais, o que faz da ameaça não a repetição, mas a capacidade de gerar eventos raros de elevado impacto humano e simbólico.

A distinção torna-se ainda mais clara quando comparada com o terrorismo jihadista. Desde a primeira publicação do EU TE-SAT, em 2007, o jihadismo nem sempre lidera em número absoluto de atentados — sobretudo em anos marcados por elevada atividade anarquista localizada —, mas mantém-se de forma consistente como a tipologia mais letal, com maior probabilidade de produzir vítimas por ataque. Em termos operacionais, é o vetor em que a diferença entre frequência e impacto humano é menos pronunciada: quando ocorre, tende a matar.

Um ponto frequentemente ignorado no debate público é a diferença entre atentados registados e pessoas detidas por crimes de terrorismo. Os relatórios mostram que estas duas métricas não evoluem de forma paralela. Tipologias mais raras em termos de ataques, como o jihadismo e a extrema-direita, tendem a concentrar um número elevado de detenções, refletindo redes de apoio, financiamento, propaganda ou preparação operacional. Pelo contrário, o terrorismo de extrema-esquerda apresenta, em regra, menos detenções proporcionais, o que confirma o seu menor grau de dependência de cadeias logísticas extensas. Os relatórios mais recentes introduzem ainda um elemento adicional de análise, ao distinguirem entre condenações e absolvições, evidenciando que a resposta penal não coincide automaticamente com a ação policial e permitindo avaliar a solidez probatória das investigações.

Considerado no seu conjunto, o período entre 2006 e 2024 — refletido nos relatórios EU TE-SAT publicados entre 2007 e 2025 — permite retirar quatro conclusões robustas: o terrorismo de extrema-esquerda explica uma parcela significativa dos ataques registados, mas com baixa letalidade e forte concentração territorial; o terrorismo de extrema-direita, embora bastante menos frequente, representa um risco estratégico elevado pela sua imprevisibilidade e potencial letal;  o jihadismo mantém-se como a principal referência quando o critério é o impacto humano. A este quadro acresce uma tendência estrutural frequentemente esquecida: o terrorismo etnonacionalista ou separatista, dominante no início da série, sofreu um declínio acentuado ao longo das últimas duas décadas, perdendo progressivamente centralidade no panorama europeu.

Importa, por fim, afirmar um princípio elementar: independentemente da matriz ideológica ou do ator envolvido, terrorismo é sempre terrorismo. Não existe terrorismo “bom” ou “mau”, “legítimo” ou “compreensível”. A distinção entre tipologias é indispensável para compreender padrões e riscos, mas não relativiza a natureza criminal do ato nem a ilegitimidade da violência deliberada contra cidadãos.

A lição é, por isso, mais exigente do que parece: avaliar a ameaça terrorista implica integrar frequência, letalidade, estruturas de apoio e validação judicial. Como evidenciam os relatórios da Europol, a contagem de ataques, por si só, oferece uma imagem incompleta — e por vezes enganadora — do fenómeno. É nesse desfasamento que se joga a diferença entre perceção e análise.