O 13 Maio continua a ser uma das poucas datas capazes de revelar a identidade profunda portuguesa. Não é a verdade dos dados, das eleições ou dos media tradicionais.
Algo nos revelam as reportagens ou testemunhas de centenas de milhares de portugueses continuarem a caminhar até Fátima num tempo que insiste em dizer que a religião pertence ao passado, o espiritual é um resíduo arcaico e que só pela técnica, o consumismo e do individualismo, a modernidade se constrói. O 13 de Maio demonstra precisamente o contrário: Portugal continua a ser muito mais do que uma periferia administrativa europeia. Continua a ser uma civilização com memória espiritual.
É por isto que Fátima continua a dizer mais de Portugal do que o próprio Parlamento. O Parlamento sim, representa conjunturas, interesses, disputas que envelhecem em semanas e telejornais mas Fátima… representa continuidade. O Parlamento traduz o país representativo-político e legal; Fátima revela boa parte do país real. A nossa política tem dificuldades de motivação, de mobilizar esperança, sacrifício ou sentido coletivo, Fátima agrega gerações inteiras em torno de algo superior ao indivíduo. E isto incomoda algumas elites, porque apesar de décadas de secularização cultural, o catolicismo continua a ser um dos últimos elementos verdadeiramente agregadores da identidade portuguesa.
As aparições de 1917 surgem numa Primeira República agressivamente anticatólica, que à força queria substituir séculos de herança cristã por uma nova religião política: a da revolução e do jacobinismo. Fátima emerge precisamente como resistência espiritual a este projeto. E talvez seja esta a dimensão mais desconfortável de Fátima para a cultura política moderna portuguesa: Portugal não vive sem a sua dimensão espiritual.
Em pleno 2026, os problemas de Portugal vão mais além da economia, da saúde, da habitação ou educação. É moral e histórico. Jacques Maritain sempre advertiu ao longo da sua obra que uma sociedade que perde a noção transcendente e universal da pessoa humana acaba inevitavelmente por reduzir o homem a consumidor, eleitor ou uma mera peça funcional da máquina económica. O Papa Leão XIII por sua vez, antecipou os perigos de uma modernidade construída à base do egoísmo e do materialismo. Temos hoje uma sociedade mais confortável, mas simultaneamente mais frágil, desligada e incapazes de responder às perguntas fundamentais da nossa existência.
Talvez por isso exista ainda uma vergonha ou medo em assumir publicamente a fé católica, sobretudo nas gerações mais jovens (inclusive a minha) que foram moldadas pelo digital. Mas essa mesma modernidade, que prometeu liberdade total, emancipação, prosperidade mas acabou por produzir vazio, solidão e perda de sentido. E é precisamente por isso que Fátima continua viva: recorda um país inteiro que a nossa espécie continua a precisar de transcendência.
A Igreja Católica permanece, apesar de todas as fragilidades humanas, uma das últimas guardiãs da continuidade histórica portuguesa. Sem cristianismo, Portugal arrisca-se a tornar-se apenas uma geografia sem identidade e sem missão. O Padre António Vieira compreendeu isso quando via Portugal como realidade espiritual antes de ser apenas entidade política.
O significado do 13 de Maio em 2026 reside exatamente aí: recordar que nenhuma civilização permanece viva depois de perder completamente a sua alma.
Salve, Nossa Senhora de Fátima e que Portugal nunca tenha vergonha de ajoelhar diante daquilo que lhe deu alma, identidade e esperança!!