Parabéns João! Há textos que envelhecem mal e depois temos os que já nascem com cheiro ao arquivo húmido do Comité Central.
Chamar “embuste neoliberal” à literacia financeira é uma relíquia ideológica que parece escrita, não em 2026, mas numa cave mal iluminada de 1974, entre retratos amarelados de Lenine e cinzeiros cheios de SG (sem filtro, claro).
A tua tese é extraordinária. Aparentemente, ensinar pessoas a compreender como o dinheiro funciona, o que é a dívida, a inflação, um investimento, os juros, acções e fundos ou uma poupança é… suspeito. Um instrumento de dominação! Uma armadilha ideológica! Um dispositivo do capitalismo!
Não consigo ficar alheio ao teu requinte intelectual. Se um cidadão aprende a ler um contrato de crédito, deixou de ser educação, é neoliberalismo. Se percebe como funciona a inflação, foi capturado pelo mercado. Se tenta investir para ganhar independência, tornou-se mais um servo da financeirização. Cuidado, que daqui a pouco, saber fazer contas de cabeça será como uma reza ao santo Friedman.
No entanto, há aqui qualquer coisa profundamente reveladora. Este pensamento não nasce do nada, pois esta é a velha pulsão do comunismo burocrático, o horror à autonomia individual.
Para políticos como o João, o indivíduo autónomo sempre foi uma figura profundamente incómoda para a tradição política que defendem. O cidadão que percebe de economia, que tem ou adquire património, que pensa ou decide por si próprio, que cria independência financeira, que não depende do partido, do sindicato, do comité, do aparelho ou da tutela moral de alguns “iluminados”, esse cidadão, é perigoso. É perigoso porque escapa ao sistema.
Surge então este paternalismo viscoso. Esta caridadezinha ideológica de sacristia soviética. Dizer ao povo “vós não vos preocupeis com dinheiro, meus filhos. O problema é estrutural. Confiai em nós que nós resolvemos!”.
Enquanto o sistema não muda, o povo deve permanecer casto na sua ignorância financeira, puro na sua incapacidade contabilística e acima de tudo, virtuoso na sua dependência da casta política.
É por esta razão que não vejo o comunismo como opção ou teoria política, mas como uma religião. Assume a pobreza não como tragédia a superar, mas como uma condição politicamente estética. O pobre instruído financeiramente é suspeito, mas o pobre dependente segue moralmente aceitável.
O João usa no seu artigo precisamente esse truque obsceno de pegar num problema real (desigualdade estrutural) e usá-lo como desculpa para ridicularizar competências básicas de sobrevivência económica. Que maravilha!
Num país onde metade da população assina créditos que não entende, onde muita gente não distingue TAN de TAEG, onde MTIC ou LTV são palavrões, onde se cai em esquemas financeiros de Facebook com a facilidade de um pato entrar numa armadilha, aparece o João a explicar que a educação financeira é o verdadeiro perigo. Falta pouco para defender o analfabetismo jurídico como resistência anticapitalista.
Involuntariamente cómica é esta elite pseudo-intelectual que fala de “literacia financeira” com o horror estético com que os aristocratas decadentes do século XIX falavam da indústria. Conceitos como dinheiro, investimento, mercados, poupança ou património são tudo vulgaridades de pequeno-burguês, indigno da grande abstração revolucionária comunista.
É curioso que o comunismo europeu tardio tenha produzido esta figura muito específica que eu chamo de “revolucionário de seminário”. Uma pessoa que despreza profundamente os mecanismos reais do mundo moderno, mas que acredita possuir superioridade moral sobre quem os compreende.
Paradoxalmente, João, deixa-me lembrar-te de algumas coisas. Os ricos, não precisam de literacia financeira. Os ricos têm advogados, fiscalistas, family offices e gestores de património. Quem precisa desesperadamente de compreender como o dinheiro funciona para melhorar a sua vida são precisamente as pessoas que dizes defender, ou seja, quem não tem almofada financeira para poder errar.
Porém, isso obrigaria o João a aceitar uma ideia intolerável para um comunista que é a ideia de que a autonomia individual, de facto, importa.
Assumir uma tradição política que assenta numa desconfiança quase patológica do indivíduo autónomo acarreta o problema de que o cidadão exemplar para o João, não é o homem independente mas o homem enquadrado, integrado e acima de tudo, tutelado e organizado colectivamente por entidades superiores que pensam por ele. O Politburo, de facto, sempre gostou muito do povo, desde que o povo não tivesse demasiada iniciativa própria.
No fundo, o artigo do João não é sobre literacia financeira, mas sobre uma velha elite ideológica profundamente desconfortável com pessoas comuns que aprendem a navegar o mundo sem pedir autorização moral ao partido e aos iluminados. Infelizmente para o João, hoje em dia, somos muitos.
O que me enche de esperança em 2026 é que um trabalhador que aprende sobre investimentos, impostos, dívida e património torna-se menos manipulável, menos dependente e menos infantilizável. Infelizmente, João, algumas correntes políticas toleram mal adultos.