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(A) :: Porque é que os adolescentes passam tanto tempo fechados no quarto?

Porque é que os adolescentes passam tanto tempo fechados no quarto?

Na adolescência, o processo de descoberta, autonomia e construção da identidade leva a uma necessidade de mais espaço e privacidade. Mas nem sempre os pais entendem isso.

Sofia Teixeira
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Inês Correia
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Pelos 13 ou 14 anos, a porta do quarto deixa de ser apenas uma porta. Passa a funcionar como uma fronteira — tanto prática como simbólica — entre o mundo lá fora e o espaço íntimo do adolescente. Do lado de fora da porta, ficam os pais que, frequentemente, se consomem com preocupações. “Será que está tudo bem?” “Estará triste?” “Isto será normal?”

A preocupação dos pais é natural e convém, desde logo, distinguir o que faz parte do processo saudável de crescimento e o que pode ser sintomático de problemas. De acordo com a psicóloga clínica Vera Cruz, está-se perante um comportamento que não é preocupante “desde que este tempo a sós seja flexível e permeável, ou seja, o adolescente consegue entrar e sair desse espaço, tanto física como emocionalmente, mantém contacto com a família, preserva os seus interesses, o seu funcionamento escolar e as relações com pares”.

Pelo contrário, a psicóloga — que trabalha sobretudo com crianças, adolescentes e jovens adultos — refere que “quando este recolhimento e isolamento se tornam rígidos, prolongados e empobrecidos do ponto de vista relacional e emocional, é importante que os adultos ou cuidadores estejam mais atentos.” Alguns sinais de alerta são uma perda de interesse por algumas atividades, alterações acentuadas no sono ou alimentação, irritabilidade intensa ou apatia marcada, quebra acentuada no rendimento e um evitamento persistente do contacto com as outras pessoas, nomeadamente os pais.

Caso não existam estes sinais de alarme, passar mais tempo no quarto durante a adolescência é normal e previsível. E isso acontece porque, nesta fase, está em curso um processo de construção da identidade e da autonomia. “A adolescência transporta consigo um movimento de maior retraimento não só esperado, como necessário: existe um afastamento progressivo do exterior, sobretudo dos pais ou outros cuidadores, que permite ao adolescente aproximar-se de si próprio”, diz a psicóloga. “Em casa, o quarto deixa de ser apenas um espaço físico e transforma-se num espaço interno, um lugar onde pode experimentar quem é sem o olhar constante dos outros (…) [onde] o adolescente ensaia versões de si, pensa, fantasia, sonha e sente”.

“Por volta dos quatro anos muitas crianças descobrem pela primeira vez o valor da intimidade e pedem para fechar a porta da casa de banho” diz a psicóloga Vera Cruz. Esse gesto já demonstra a necessidade de ter espaços próprios e alguma privacidade. Na adolescência, essa necessidade intensifica-se “e o quarto passa a ser um prolongamento do mundo interno em construção, sendo a porta fechada, muitas vezes, um símbolo saudável de diferenciação e privacidade”.

A adolescência é marcada por uma tentativa de responder, consciente ou inconscientemente, a perguntas como “quem sou eu?”, “em que é que acredito?” ou “que tipo de adulto quero ser?” ou seja, é um período particularmente importante para consolidar uma identidade pessoal, social e emocional, e esse processo envolve exploração, experimentação e diferenciação em relação à família. Por outro lado, está a desenvolver-se a autonomia. Prática, mas também emocional, o que implica tomar decisões próprias e formar opiniões.

Neste contexto, a necessidade de estar sozinho — sobretudo no quarto — pode ser entendida como parte deste processo de individuação e reorganização. Vera Cruz explica que “por volta dos quatro anos muitas crianças descobrem pela primeira vez o valor da intimidade e pedem para fechar a porta da casa de banho”, um gesto que já demonstra a necessidade de ter espaços próprios e alguma privacidade. Na adolescência, essa necessidade intensifica-se “e o quarto passa a ser um prolongamento desse mundo interno em construção, sendo a porta fechada, muitas vezes, um símbolo saudável de diferenciação e privacidade”.

Apesar disso, respeitar a privacidade do adolescente não significa ausência de presença. “Um pai ou uma mãe pode e deve continuar a ‘bater à porta’, não apenas no sentido literal, mas relacional.”

As negociações sobre se a porta deve estar aberta, encostada ou fechada devem ser feitas por cada família, de acordo com a idade e maturidade do jovem, porque, apesar de este estar a ganhar autonomia, continua a ter necessidade da presença e orientação dos pais. “É fundamental que o adolescente continue a sentir que, apesar de ser escutado e respeitado, não está sozinho a organizar-se. Precisa de sentir que há um adulto que o ampara, que dá estrutura, que cuida. Limites, neste contexto, não são controlo, são uma forma de presença.”