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Ruibarbo, Urtiga ou Sésamo Negro? Novo frasco, recargas sustentáveis e cinco aromas por estrear na Diptyque

A marca parisiense de culto lançada em 1961 redesenhou o frasco com a designer Julie Richoz e aposta em recargas a partir do outono. Cinco novos aromas juntam-se a clássicos como Philosykos e Baies.

Maria Ramos Silva
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Um set designer, uma designer de interiores e um pintor alinham num projeto. Parece piada, mas há 65 anos os amigos Yves Coueslant, Christiane Gautrot e Desmond Knox-Leet começavam a ensaiar um caso sério de projeto de lifestyle, a partir de Paris. Em 1961 o trio ocupou o espaço onde antes funcionou um café, no fervilhante Boulevard Saint Germain. Instalaram-se no número 34, que até hoje figura nas suas embalagens, com a montra/díptico que lança a Diptyqye. Começaram por vender tecidos, e ainda velas coloridas que complementavam a oferta. Foi apenas dois anos depois que o fabricante de velas Jean-Claude Bullens sugeriu que apostassem nas versões perfumadas, algo raro à época. As primeiras três criações deste género cheiravam a canela, chá e espinheiro, saíram da oficina de Desmond, que ficava por cima da loja original, e chegaram ao mercado nesse ano de 1963. Quanto aos fundadores tecidos, revelavam-se menos populares entre os clientes do que o pretendido, apesar de, conta o The Guardian, terem chegado a ser usados como pano de fundo para um discurso televisivo do general de De Gaulle, que regressara ao poder como Presidente de França depois das eleições de novembro de 1958. A operação foi afinada e passaram a vender produtos artesanais trazidos das respetivas viagens.

As convulsões do maio de 68 perturbaram o negócio mas uma ideia vencedora contrariou a tendência. Nostálgico do aroma da sua infância passada em Menton, Knox-Leet convenceu os parceiros a desenvolver a primeira eau de toilette. Unissexo, inspirada numa formula inglesa do século XVI, L’Eau deu o pontapé de saída, tendo sido seguida em 1973 por Vinaigre de Toilette, depois por L’Eau Trois (1975), Virgílio (1990) e Philosykos (1996), um dos mais vendidos até hoje, a par de aromas como o da famosa vela Baies, uma das mais populares até os dias atuais, entre um cardápio que vai da rosa à pena de pavão.

Qual biblioteca olfativa, cada frasco transporta os narizes para paragens como uma praia no Vietname, as figueiras gregas ou um roseiral inglês. Na gama de produtos, que hoje vai dos mikados para interiores a soluções para o carro, da linha de banho à decoração de interiores, a atenção à forma e ao conteúdo é um entrelaçar de sucesso — provavelmente com os perfumes e o popular “luxo acessível” das velas a dominar as atenções (65 euros (190 gramas) e 95 euros (300 gramas) — que permite aceder a um certo patamar através de uma porta de entrada mais apetecível para a carteira.

Coube a Desmond desenhar o logo imediatamente reconhecível e a paixão pela caligrafia revela-se em cada etiqueta, para um encontro entre tinta preta India e tipografia. Somam-se os traços que acompanham cada cheiro. É verdade que as fragrâncias ainda não são percetíveis através das redes sociais mas estas foram o embalo perfeito para a renovação do sucesso da marca. O minimalismo Diptyque acampou nos feeds e tornou-se objeto de desejo nos últimos anos, entre a Gen Z e os Millennials pela vibe parisiense que destila e estética clean.

Entretanto, há novidades. O recipiente de vidro foi redesenhado pela designer franco-suíça Julie Richoz, que reinterpretou as suas linhas originais através da introdução de um óvalo de cristal em relevo, concebido para realçar e dar profundidade à icónica etiqueta da marca. Enquanto a nova base côncava cria um jogo de luzes, as “letras dançantes” da Diptyque apresentam agora um acabamento em relevo e verniz brilhante, acrescentando textura e profundidade tátil à composição gráfica da Maison.

Finalmente, e após mais de três anos de desenvolvimento, a nova coleção passa a integrar um sistema de recargas que permite reutilizar o recipiente original e prolongar indefinidamente o ciclo de vida do objeto. A reformulação do recipiente permitiu ainda reduzir o seu peso em 10%. As recargas serão apresentadas, a partir do outono de 2026, em dez das fragrâncias emblemáticas da maison e acondicionadas em paperfoam, um material biossourçado e reciclável.

Nesta nova fase, a Diptyque expande igualmente a sua oferta de fragrâncias com cinco novas criações olfativas desenvolvidas pelas perfumistas Alexandra Carlin e Olivia Giacobetti: Rhubarbe, Ortie, Shiso, Café e Sésame Noir, para um toque fresco saído do quintal ou uma pitada mais quente e intensa.

Conte ainda com uma coleção de objetos decorativos concebidos para exaltar o ritual da chama, incluindo suportes, tampas em biscuit (porcelana fria), castiçais em vidro borossilicato e caixas de fósforos decorativas inspiradas nos arquivos gráficos da maison.

Criado na Indochina, o decorador Yves Couslant fora o último espírito livre a juntar-se a Know-Leet, pintor treinado nas Belas Artes e herdeiro de uma família aristocrática britânica, e à arquiteta e designer têxtil Christiane Montadre-Gautrot, fiel às memórias dos primeiros anos perto de Fontainebleau, que já esboçavam os primeiros planos de parceria em Paris desde 1949. Para a história do 34 do Boulevard St Germain, no coração do Quartier Latin, endereço que inspira uma das fragrâncias da marca, passam episódios como um antigo presidente da República pacientemente à espera pela sua vez. François Miterrand, que vivia ao virar da esquina, fazia questão de aguardar na fila para ser atendido na Diptyqye, uma história recordada com admiração por Coueslant, que morreu em novembro de 2013, poucos meses depois de Desmond Knox-Leet, que morreu em abril desse ano.

Mohamed Lataoui, outro amigo, associou-se à gestão do projeto, e em 2005 o negócio acabou por ser vendido ao fundo Manzanita Capital, sediado em Londres, que colocou Fabienne Mauny, vinda da Saint Laurent, à frente dos destinos da Diptyqye. Em 2024 Laurence Semichon sucedia-a no cargo de CEO. Se há cerca de duas décadas tinham apenas uma loja na capital francesa outra em Londres e duas nos EUA, em 2024 o seu volume de negócios ascendia aos 170 milhões de euros e dispersavam-se por mais de 120 pontos de venda em todo o mundo. Por cá, ainda sem loja própria (quem sabe para breve?), encontram os produtos Diptyque num corner do El Corte Inglès e em pontos como a Skin Life ou Fashion Clinic.