Regressemos a Abigail Shrier e ao argumento, apresentado em Má terapia, de que adotamos, nas últimas décadas, uma abordagem terapêutica da parentalidade. Essa abordagem seria especialmente visível no facto de termos substituído uma linguagem moral por uma linguagem terapêutica quando apreciamos o comportamento das crianças: os miúdos deixaram de ser mal-educados e passaram a ter perturbações de comportamento, ansiedade social, transtornos alimentares ou problemas de processamento sensorial. Comportamentos que antes considerávamos errados hoje têm um diagnóstico.
O propósito, como quase sempre acontece, era bem-intencionado: queríamos crianças felizes. E por essa razão:
“Aprendemos a explicar aos nossos filhos as razões de cada regra e pedido. Nunca, nunca batemos. Aperfeiçoámos o “tempo morto” e demos explicações pormenorizadas para todo e qualquer castigo (que depois rebatizámos “consequência” para eliminar qualquer vergonha associada e fazer-nos sentir menos autoritários). Sermos pais bem-sucedidos tornou-se uma função com um único coeficiente: a felicidade dos nossos filhos a todo o momento. Uma infância ideal significava nenhuma dor, nenhum desconforto, nenhuma briga, nenhum fracasso – e absolutamente nenhum indício de “trauma”.”
O problema é que o objetivo não foi alcançado. Não tornamos as crianças mais felizes e todos os estudos apontam para índices inéditos de ansiedade, depressão e insatisfação com a vida nos adolescentes. Afinal, o que falhou?
Uma das razões para este insucesso reside, muito provavelmente, na atual psicologização da sociedade que tende a sobrevalorizar o impacto negativo que as dificuldades e o sofrimento têm na formação da personalidade. É necessário um “disclaimer”? Não estou, naturalmente, a defender atos de violência ou que devemos sujeitar propositadamente as crianças a acontecimentos traumáticos. Mas a tendência para protegê-las de todos os problemas e dificuldades tem diminuído as suas capacidades para lidar com as adversidades que, inevitavelmente, acabam por surgir.
Pensemos no conto da Bela Adormecida: a superproteção não torna as crianças mais fortes e felizes; torna-as mais frágeis e temerosas. Já acontecimentos negativos e dificuldades normais revelam-se fundamentais para um desenvolvimento cognitivo adequado, ajudando as crianças a lidar com a realidade e, em particular, a valorizar as coisas boas.
É que uma segunda razão para aquele fracasso parece residir na pressão permanente que colocamos nas crianças para que elas sejam felizes. E fazemo-lo não só pela verificação permanente de que estão a gostar de tudo o que fazem, mas também pelo terrível mandamento sisífico de que devem ser felizes.
Em que fatídico momento se considerou que isto era uma coisa boa para se dizer a uma criança? Há alguém que esteja constantemente feliz? Em sentido contrário, os estudos mostram que, na maior parte do tempo, nos sentimos apenas bem ou relativamente bem, muitas vezes tentando gerir algum desconforto ou mesmo alguma dor. Como se sentirá então uma criança quando recebe um preceito que ninguém é capaz de cumprir?
Mas podemos apontar uma terceira razão para aquele fracasso: é que a dinâmica de psicologização tende a virar-nos para dentro – isto é, incentiva-nos a refletir sobre nós mesmos, sobre o que sentimos, sobre o que pensamos, sobre o que nos acontece. E isso pode ter efeitos nefastos, como os gregos nos ensinaram com o mito de Narciso. Como diz Luc Ferry:
“nesse amor impossível pela sua própria imagem, Narciso deixa-se morrer gradualmente, incapaz de olhar para outra coisa que não seja o seu próprio rosto, ao ponto de já não poder simplesmente afastar-se dele para se alimentar. Agora, totalmente alheio aos outros e ao resto do mundo, só vê e pensa em si próprio.”
Ao contrário do que parece ser a tendência atual, a atenção e a preocupação com os nossos sentimentos, a nossa vida e os nossos problemas não nos tornam mais felizes – tornam-nos mais narcisistas, fazendo-nos mergulhar, perdidos, na imagem de nós mesmos.
Mas será possível resolver o problema destes jovens inundados de ansiedade, ruminação e infelicidade?
A solução estará, provavelmente, em invertermos aquelas tendências e animarmos, em particular, uma reação inversa: em vez de estimularmos as crianças e os jovens a virarem-se para dentro, devemos estimular a que se virem para fora.
Como diz o bispo Robert Barron, “se queremos sarar as nossas feridas, devemos transformar a nossa vida num presente para os outros” – o mesmo é dizer, devemos procurar realização e não felicidade. Já o sabemos, na verdade, desde os antigos: a felicidade é o que sentimos depois e não antes da vida boa. É o que sentimos quando fazemos o que está certo, quando aprendemos a ser virtuosos e quando, apesar das dificuldades, continuamos a viver o melhor que conseguimos.
A felicidade dos nossos filhos não passa, então, por ceder à abordagem terapêutica da parentalidade e controlar se estão felizes e compreendem as suas emoções – isso só os deixa confusos, tristes e, geralmente, convencidos de que o mundo roda à sua volta. Pelo contrário, devemos ensiná-los a viver direcionados para fora de si.
Quando nos habituamos a servir os outros e com os outros – quando nos inserimos numa comunidade –, aumentamos a probabilidade de nos sentirmos felizes e, nas crianças e jovens, isso pode passar por se juntarem ao grupo de acólitos, fazerem parte dos escuteiros ou participarem com a família em atividades da comunidade. Virá-los para fora e não para dentro.