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(A) :: A revolução política no Reino Unido

A revolução política no Reino Unido

A primeira consequência da fragmentação do sistema partidário britânico será a normalização dos governos de coligação. O próximo governo será, muito provavelmente, uma coligação entre Reform e Tories.

João Marques de Almeida
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O governo trabalhista sofreu uma derrota enorme nas eleições locais no Reino Unido. Foi o partido que mais votos perdeu nos municípios em Inglaterra. Na Escócia, depois do bom resultado eleitoral em 2024, foi esmagado pelo partido nacionalista escocês e ficou em segundo lugar a par do Reform party, de Farage. Os nacionalistas escoceses já anunciaram a intenção de realizar um segundo referendo sobre a independência da Escócia. No País de Gales, um século de domínio político dos trabalhistas chegou ao fim. Tal como na Escócia, o partido nacionalista ganhou (sem maioria absoluta), e o Reform ficou em segundo. Este resultado seria impensável há dois anos.

A vida está muito difícil para o PM Starmer. Já apareceram deputados trabalhistas a pedir a sua demissão, e já se apresentou mesmo um candidato à liderança. É uma figura menor do partido, mas muitas vezes estes candidatos avançam para criar condições para surgirem os verdadeiros potenciais futuros líderes. Veremos o que acontece nos próximos dias e semanas.

Após estas eleições, usando uma expressão inglesa, Starmer is in office but no longer in power. Com Starmer a PM, o governo trabalhista será, usando outra expressão inglesa, a lame duck, ou um governo sem futuro. Ainda faltam quase três anos para as próximas eleições legislativas. Nenhum governo aguenta tanto tempo nesta situação. Por razões óbvias, os trabalhistas não querem provocar eleições antecipadas agora, para evitar outra grande derrota. Precisam de recuperar para competir nas próximas eleições. Só conseguem tentar uma recuperação com outro PM. Será o partido a forçar Starmer a demitir-se. Na vida política, o instinto de sobrevivência é decisivo.

O sistema bipartidário, dominado pelos conservadores e pelos trabalhistas (com mais de um século), também parece ter chegado ao fim. Já falei da derrota trabalhista, mas os conservadores também perderam. Foram os segundos grandes derrotados das eleições. Depois dos trabalhistas, os Tories foram quem mais perdeu em Inglaterra. Na Escócia, ficaram em quinto lugar, atrás partido nacionalista, dos trabalhistas, do Reform e dos Verdes. No País de Gales, ficaram em quarto lugar, muito atrás do Reform. Na Escócia e no País de Gales, o partido de Farage já é o maior partido de direita. Desconfio que também será em Inglaterra, após as próximas eleições legislativas.

A primeira consequência da fragmentação do sistema partidário britânico será a normalização dos governos de coligação. O próximo governo será, muito provavelmente, uma coligação entre Reform e Tories, com Farage a PM. Ou uma coligação entre Labour e Lib Dems, menos provável.

Há uma segunda consequência possível da fragmentação do sistema eleitoral britânico: o fim do Reino Unido. É menos provável, mas não pode ser excluído. A independência da Escócia acontecerá com a combinação do crescimento do partido nacionalista e a queda dos partidos tradicionais pró-britânicos, os trabalhistas e os conservadores. Neste momento, e tem alguma ironia, é a votação no Reform na Escócia que pode continuar a garantir a unidade do Reino Unido.