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A parada dos vencidos

A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo

José António Rodrigues do Carmo
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Durante anos, o desfile do Dia da Vitória foi a maquilhagem de gala do putinismo. Na Praça Vermelha, entre carros de combate, mísseis, generais emproados e convidados estrangeiros em pose impressionada, Moscovo encenou a velha ilusão imperial: a Rússia eterna, invencível, temida, indispensável. Uma sessão anual de ilusionismo político, com banda militar, bandeiras vermelhas e saudades de Estaline travestidas de comemoração histórica.

Este ano, porém, a maquilhagem falhou.

Houve desfile, houve soldados, houve discurso, houve a habitual prosódia soviética aquecida no microondas. Mas faltou a convicção. E quando a convicção desaparece, o espectáculo passa a ser apenas confissão. Putin apareceu para proclamar, como sempre, que a Rússia vencerá. O problema é que já ninguém consegue perceber exactamente onde, como, quando ou em quê. Chamou heróis aos homens enviados para morrer na Ucrânia, acusou a NATO de agressão e repetiu o catálogo inteiro da vitimização imperial. O costume. Invade-se um país, arrasam-se cidades, deportam-se crianças, anexam-se territórios e, no fim, protesta-se contra a hostilidade do mundo. É a velha escola russa de partir a janela do vizinho e queixar-se das correntes de ar.

Desta vez a encenação decorreu sob a sombra da Ucrânia. A internet foi restringida, a segurança multiplicada, o aparato reduzido ao mínimo que permitisse fugir depressa da Praca. A Rússia que prometeu tomar Kyev em três dias mobilizou-se para impedir que drones ucranianos estragassem a liturgia sagrada da Praça Vermelha. O país que, segundo a propaganda do Kremlin, nem sequer existe, tornou-se suficientemente real para condicionar a festa maior do regime. Há ironias que dispensam comentário, embora o Kremlin continue a fornecê-lo em excesso.

Putin não podia cancelar o desfile. Seria admitir fraqueza. Mas realizá-lo assim, com o favor de Trump, foi admitir que a fraqueza já não se consegue disfarçar. Um império que esconde os blindados no dia em que os queria exibir já explicou mais do que pretendia. Um poder que teme ataques na capital durante a sua celebração fundadora já não projecta força, apenas gere sobressaltos. A Rússia longe de aparecer como superpotência ofendida, apareceu como regime nervoso. E regimes nervosos são perigosos, mas raramente são grandes.

A tragédia estratégica de Putin é quase perfeita na sua simetria. Quis impedir a Ucrânia de se tornar uma nação ocidental e transformou-a numa das sociedades militares mais inovadoras do mundo. Quis dividir a Europa e conseguiu acordá-la do seu pacifismo sonolento. Quis afastar a NATO das fronteiras russas e ofereceu-lhe novos membros, nova razão de ser e nova urgência. Quis restaurar o império e acabou por entregar a Rússia, com desconto e recibo, à China. É uma lista de sucessos que faria corar de vergonha um sabotador mediano.

Naturalmente, a Rússia continua perigosa. Tem armas nucleares, profundidade territorial, serviços secretos, recursos naturais, capacidade de destruição e uma espantosa tolerância histórica ao sofrimento dos seus próprios cidadãos. Mas isso não é grandeza, é apenas patologia com mísseis. O país que Putin vende como alternativa civilizacional é, apenas uma potência extractiva, repressiva e envelhecida. Tem petróleo, polícia, oligarcas, propaganda, medo e cemitérios em expansão.

A economia russa não colapsa como nos filmes, com música dramática e uma explosão final. Colapsa à maneira russa: lentamente, entre comunicados optimistas, estatísticas marteladas, regiões abandonadas, inflação maquilhada, empresas estranguladas, reservas gastas e mães a receber filhos em caixões. O regime pode prender manifestantes, calar jornalistas, manipular tribunais e falsificar eleições. Não pode, porém, prender a aritmética,a única forma de oposição que não se rala com autocratas.

No campo de batalha, Moscovo paga quilómetros com homens. Avança por saturação, perde por desgaste, conquista ruínas e reivindica vitórias. O Kremlin mede sucesso em metros; a Ucrânia mede sobrevivência em adaptação. A guerra tornou-se um laboratório brutal de drones, sensores, guerra electrónica, robótica e comando distribuído. Enquanto Moscovo recicla mitos imperiais, Kyiv transforma tecnologia civil em capacidade militar. De um lado, monumentos. Do outro, inovação. De um lado, generais que ainda sonham com Kursk. Do outro, operadores de drones que mudam a guerra com peças compradas online ou feitas em impressoras

E depois há a dependência chinesa, talvez a mais humilhante das derrotas de Putin. O homem que prometeu devolver à Rússia a grandeza histórica está a colocá-la numa posição de kowtow perante Pequim. Vende energia mais barata, compra produtos mais caros, aceita condições piores e chama a isso parceria estratégica. A China não precisa de conquistar a Rússia. Basta esperar. Moscovo encarrega-se de entregar, contrato a contrato, factura a factura, aquilo que já não consegue sustentar sozinha.

Os russos sabem menos do que deveriam, mas sentem mais do que o Kremlin gostaria. Sentem a guerra nos mortos, nos feridos, nos salários corroídos, nos filhos mobilizados, nas transferências bloqueadas, nas empresas fechadas, nos boatos que substituem as notícias. A propaganda funciona enquanto a realidade bate à porta dos outros. Quando começa a bater à nossa, perde forças. E há sempre um momento em que a televisão estatal deixa de conseguir explicar o frigorífico vazio.

A História russa tem, além disso, uma premonição desagradável para os seus czares: as derrotas militares raramente ficam no estrangeiro. Regressam a casa. Regressaram depois da guerra russo-japonesa. Regressaram em 1917. Regressaram do Afeganistão e foram necessários novos czares. Uma guerra lançada para provar grandeza transforma-se, de em prova de incompetência. E, nessa altura, os mesmos que batiam palmas na tribuna descobrem que sempre tiveram reservas. A cobardia política também tem excelente memória retrospectiva.

Putin ainda pode prolongar a guerra. Pode matar mais ucranianos e mais russos. Pode destruir mais cidades, ameaçar com armas nucleares, prender opositores, inventar inimigos, convocar mais desfiles e mandar Dmitri Medvedev abrir outra garrafa de vodka antes de anunciar o Apocalipse no Telegram pela enésima vez. Pode fazer tudo isso. O que já não consegue é convencer de que está a vencer.

A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo. Devia projectar império. Projectou isolamento. No fim, Putin ficou na Praça Vermelha rodeado de bandeiras, soldados norte-coreanos, câmaras e mentiras, cada vez mais só perante a única força que nunca conseguiu bombardear: a realidade.

E a realidade, ao contrário dos generais russos, não desfila. Avança. Não pede licença, não presta continência, não aparece em uniforme de gala. Chega sem música, sem coreografia e sem autorização do Kremlin. Este ano, chegou ao ponto de obrigar o czar, que tantas vezes caminhou a pé para depositar flores no monumento ao soldado desconhecido, a recolher-se atrás da blindagem de um carro. Há imagens que valem por epitáfios políticos. Esta é uma delas.