Portugal habituou-se a celebrar números. A taxa de desemprego desce, os indicadores estabilizam, o discurso político respira de alívio. Mas há uma pergunta que raramente se faz, talvez porque a resposta incomoda: que tipo de emprego estamos, afinal, a criar?
O país vive hoje um aparente cenário de pleno emprego. Aparente porque, por detrás da estatística, se esconde uma realidade menos confortável: empregos de baixo valor acrescentado, salários comprimidos, escassa progressão e uma economia que cresce aquém do seu potencial. Trabalha-se mais, mas produz-se pouco. E isso, num contexto global cada vez mais competitivo, não é estabilidade. É fragilidade disfarçada.
Celebrar o pleno emprego nestes termos é confundir quantidade com qualidade. É aceitar como sucesso aquilo que, na prática, limita o futuro. Porque uma economia que não gera valor suficiente não consegue pagar melhor, não consegue reter talento, não consegue escalar. Fica presa a um ciclo de sobrevivência, onde trabalhar não significa, necessariamente, prosperar.
O paradoxo é evidente. As empresas enfrentam dificuldades em atrair e reter talento, mas muitas não têm margem para pagar mais. Não por falta de vontade, mas por falta de produtividade. E a produtividade não se decreta. Constrói-se com investimento, inovação, escala e, sobretudo, com um enquadramento laboral que acompanhe a realidade económica.
É aqui que o debate se torna desconfortável, porque implica reconhecer que o atual modelo não serve plenamente nem trabalhadores nem empresas. Um modelo onde a rigidez convive com a precariedade, onde a proteção formal não garante progresso real, onde a negociação coletiva, tantas vezes, se afasta da economia vivida no terreno.
Os sindicatos, que poderiam desempenhar um papel decisivo neste equilíbrio, parecem ter abdicado dessa função transformadora. Tornaram-se, em muitos casos, estruturas de reivindicação contínua, desligadas da criação de valor que sustenta qualquer melhoria duradoura. Sem essa ligação à realidade económica, a defesa dos trabalhadores arrisca tornar-se apenas retórica. Isso talvez justifique porque representam, na verdade, uma fatia tão pequena dos trabalhadores no setor privado, menos de sete por cento.
O maior erro seria esperar por uma crise para agir. Reformar o mercado de trabalho em recessão é sempre mais doloroso, mais conflituoso, mais imposto. É precisamente num contexto de aparente estabilidade que existe espaço para pensar, corrigir e preparar o futuro.
Portugal precisa de uma reforma laboral que não seja ideológica, mas económica. Que incentive a produtividade, valorize o mérito, permita às empresas crescer e aos trabalhadores beneficiar desse crescimento. Uma reforma que olhe para o trabalho não apenas como um direito a proteger, mas como um motor de criação de riqueza.
O verdadeiro problema de Portugal não é a falta de emprego. É a falta de valor no emprego que tem.
Persistir na celebração acrítica dos números é escolher o conforto do presente em detrimento da ambição do futuro. Esse é um luxo que o país não pode continuar a pagar.
A questão já não é saber se vamos reformar o trabalho. É saber se o faremos por escolha… ou por inevitabilidade.