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(A) :: A América vingou porque escolheu missões e não produtos

A América vingou porque escolheu missões e não produtos

A liderança tecnológica americana baseou-se em ciência aberta, talento global, excessos calculados e financiamento do que ainda não fazia sentido. Estes pilares podem estar sob pressão.

Tomás Moreno
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Há uma narrativa confortável que gostamos de contar sobre a américa: que ela lidera a inovação porque é naturalmente mais audaz, mais livre e mais criativa. A verdade, como não podia deixar de ser, é mais complexa.

Os Estados Unidos tornaram‑se a potência tecnológica dominante do século XX não porque reduziram o risco, mas porque o souberam gerir. Não porque sabiam exatamente onde queriam chegar, mas porque construíram capacidade antes de terem certezas.

Quando Eisenhower criou a NASA e lançou as bases da DARPA, não existia qualquer garantia de sucesso. Pelo contrário: tratava‑se de ciência cara, tecnicamente incerta e sem retorno económico a curto prazo. O objetivo era estratégico e os instrumentos deliberadamente amplos. Pretendiam fomentar conhecimento e não criar produtos.

Kennedy elevou essa lógica a outro patamar. O programa Apollo não foi uma aposta “racional” no sentido contemporâneo do termo. Foi uma mobilização nacional em torno de um objetivo extraordinariamente ambicioso, apoiada por uma expansão brutal da investigação científica e da formação de engenheiros, muitos dos quais acabariam por trabalhar em áreas que nada tinham a ver com o espaço. O efeito mais duradouro da corrida à lua não foi o passo de Armstrong mas o ecossistema tecnológico que ficou depois da capsula aterrar no Pacifico.

Mesmo Reagan, frequentemente lembrado pelo discurso de mercado, compreendeu isto. O programa “Star Wars” é hoje visto como tecnicamente ingénuo e politicamente controverso. Mas teve um efeito estrutural: canalizou financiamento maciço para a áreas como física, computação, materiais e sistemas complexos. Muita da capacidade tecnológica americana dos anos seguintes nasceu dessa aposta excessiva. Isto apesar do escudo antimíssil, em si, nunca ter visto a luz do dia.

Nos anos 90, Clinton fez algo semelhante com a Internet ao deliberadamente não industrializar diretamente a rede. Manteve‑a aberta, desregulada, experimental. O Estado financiou a infraestrutura e a investigação básica. Não havia um plano mestre para criar a economia digital. Havia a aceitação de que algo novo estava a emergir.

Mesmo Obama, já num contexto de crise financeira e polarização política, preservou esta lógica. Apostou na energia limpa e na biotecnologia. Mas manteve um apoio relevante à investigação científica transversal, precisamente para não condicionar excessivamente o futuro ao que parecia prioritário naquele momento.

Este padrão histórico é consistente: todas as grandes administrações americanas escolheram prioridades, mas nenhuma tentou substituir a diversidade da descoberta por uma lista restrita de apostas seguras. É aqui que o presente começa a diferir.

A atual administração investe, sem dúvida. O volume de recursos canalizados para semicondutores, inteligência artificial e defesa é impressionante. O CHIPS Act, o Inflation Reduction Act, os programas ARPA e o reforço dos laboratórios nacionais não são teatro político. São decisões estratégicas reais.

Mas há uma diferença estrutural em relação ao passado: nunca antes a definição de prioridades veio acompanhada de um estreitamento tão explícito da base científica geral. Cortes e estagnação na National Science Foundation, no National Institutes of Health ou em áreas inteiras da investigação da NASA não representam apenas ajustes orçamentais. Representam uma mudança de filosofia.

Durante a Guerra Fria, quando a competição existencial com a União Soviética era real, os Estados Unidos responderam ampliando o sistema científico, não comprimindo‑o. Financiaram matemática pura, física teórica, biologia fundamental, mesmo quando não sabiam para que serviriam. Hoje, perante uma rivalidade igualmente profunda com a China, a resposta parece ser inversa: concentrar e direcionar.

O problema desta abordagem não é político. É epistemológico.

A inovação não funciona como um portfólio de investimento clássico. Funciona por acumulação lateral, por cruzamentos inesperados, por ideias que só se revelam estratégicas quando encontram problemas que ainda não existem. O mRNA, hoje tratado como ativo crítico, foi durante décadas uma linha de investigação periférica. O conhecimento profundo só explodiu quando estatística, hardware gráfico e processamento de grandes volumes de dados convergiram de forma não planeada.

Esta permissa é valida também para o talento. A América ganhou porque foi permeável. Einstein não nasceu americano. Brin, Musk, Jensen Huang, Nadella também não. Silicon Valley sempre vingou por ser um sistema de absorção global de capacidade cognitiva. Enquando que muitos paises lutavam contra o feómeno de “brain drain” os Estados Unidos beneficiavam do “brain suck.” Restringir esse fluxo pode responder a preocupações legítimas, mas altera silenciosamente uma das principais vantagens estruturais do país.

Formar talento interno é essencial. Mas substituir ecossistemas abertos por circuitos fechados é um processo longo, incerto e cheio de custos invisíveis. Enquanto isso, outros países não fazem a mesma aposta defensiva até porque a natureza abomina o vácuo.

A questão, na verdade, não é se a América continuará a inovar. Continuará certamente. A questão é se continuará capaz de se surpreender a si própria.

A história da inovação americana não é a história de apostas prudentes. É a história de excessos calculados, de desperdício tolerado e de financiamento persistente do que ainda não fazia sentido. Substituir essa lógica por uma inovação excessivamente racional, excessivamente alinhada e excessivamente cautelosa pode parecer responsável hoje e revelar‑se limitativa amanhã.

As grandes vantagens tecnológicas raramente se perdem num momento dramático. Perdem‑se por decisões razoáveis, defensáveis e estrategicamente coerentes. O risco não é escolher mal. É escolher apenas aquilo que parece seguro.