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(A) :: Há uma diferença entre fazer mal e ser mau

Há uma diferença entre fazer mal e ser mau

Fazer mal representa um acto irrefletido ou impulsivo. Ser mau um acto premeditado. Fazer mal suscita vergonha e o reconhecimento da culpa. Ser mau uma atitude altiva de renegação.

Eduardo Sá
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Há uma diferença entre fazer mal e ser mau. Ambos promovem sofrimento. Ambos nos tornam frágeis e vulneráveis. E ambos nos fazem sentir muito pequeninos e desamparados.

Fazer mal representa um acto irrefletido ou impulsivo. Ser mau um acto premeditado.

Fazer mal suscita vergonha e o reconhecimento da culpa. Ser mau uma atitude altiva de renegação.

Fazer mal convida a que se peça desculpa e se repare a dor que se trouxe. Ser mau que se reaja com indiferença (e com desdém) ao sofrimento.

Fazer mal desafia para que um acto como esse não se repita. Ser mau empurra para que se replique, como forma de exorcizar qualquer reconhecimento de culpa.

Fazer mal ajuda a que nos tornemos bons. Ser mau a que fiquemos piores.

É de bom senso reconhecer que não há como não fazermos mal como pais. Mesmo que errar seja aprender. Daí que, contra a sua vontade, há alturas em que – por causa da forma como estão tensos ou exaustos, ou porque estão tristes ou vulneráveis – todos os pais fazem mal(dades) aos filhos. Se bem que os seus erros contribuam, como poucas coisas mais, para o seu crescimento como pais. Mesmo quando tentam, de todas as formas, proteger-se dos erros que possam fazer o que, em muitas circunstâncias, representará um fazer mal por omissão. Já sermos maus representa uma experiência contra-natura dos pais. Quem, de entre eles, promove — de forma repetida, sem culpa e sem reparação — o sofrimento dos seus filhos? Quem esteja à beira dum desequilíbrio assustador.

Com os filhos, na sua relação com os pais, passa-se o mesmo. Eles são atentos e empáticos, cuidadosos e cuidadores. E quando fazem mal aos pais, por distração ou porque precisam de errar para que aprendam, terão — de forma clara, firme e serena — os pais a sinalizar os seus maus actos e a corrigi-los, de seguida. Ancorados nos seus bons exemplos de pais.

Mas, à medida que crescem, são cada vez mais ou filhos que vão dum certo egocentrismo de pessoas amadas a atitudes egoístas. Saltando delas para atitudes, tendencialmente, mais individualistas e mais narcísicas. Começam na adolescência, com a condescendência dos pais, e depressa esses comportamentos escalam fazendo com que os pais (sofridos e encolhidos) deixem de advertir, de corrigir, ou de se zangar. Anulam-se. “Desculpam”. Justificam. Resignam-se. Ocupam menos espaço. E fazem mal! Porque nada o justifica. Nem a adolescência, nem o trabalho, nem as exigências de carreira, nem as crianças ou um casamento que estejam a ocupar mais espaço,na vida dos filhos.

Exigir aos filhos gestos empáticos e cuidados e auxílio e carinho e delicadeza é educar. Não faz sentido, portanto, que os filhos, de modo próprio, os aprendam sozinhos. Fazem-no, sem dúvida, muitas vezes. Mas precisam dos pais que os eduquem para que o façam mais vezes. Doutra forma, estaremos a abrir mão dos nossos filhos de cada vez que nos magoam e sempre que têm como resposta o nosso silêncio. A primeira obrigação dum filho em relação aos seus pais é ser bom filho. A dos pais nunca desistir de o querer assim. Sempre que os pais hesitam ou evitam corrigir, encaminham-se para que bons pais criem maus filhos. E aceitam, com tristeza, reconhecer que, em função do modo como fazem, repetidamente, mal (sem advertências e sem correção) os filhos deixam só de fazer mal e se tornam maus. Más pessoas, se preferirem. Eles não merecem isso. Mas nós também não.