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Starmer acusado de "perder o país" e desafiado dentro do Labour a afastar-se da liderança

Deputados do próprio partido acusam primeiro-ministro britânico de ter "perdido o apoio do país" e exigem transição ordeira. Starmer diz que ficará até 2029, mas contestação já soma quase 40 vozes.

João Paulo Godinho
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“Perdeu o apoio do país”. “Precisamos de nos modernizar”. “Infelizmente, o público, em geral, deixou de dar ouvidos a Keir”. As palavras de contestação a Keir Starmer chegam de dentro do próprio Labour, depois da pesada derrota nas eleições locais, sucedendo-se as vozes de deputados e membros do partido a exigirem a saída do primeiro-ministro britânico.

Uns pedem o afastamento imediato, outros apontam a uma “transição ordeira” e tranquila no poder, mas Starmer quer continuar, chamou inclusivamente o antigo primeiro-ministro Gordon Brown — num aparente gesto de contenção de danos políticos — e defende um projeto para uma década. Questionado pelo jornal The Observer se iria liderar o Partido Trabalhista nas próximas eleições gerais, previstas para 2029, e avançar para um segundo mandato, Starmer foi taxativo: “Sim, vou fazê-lo. (…) Não vou abandonar o cargo para o qual fui eleito em julho de 2024. Não vou mergulhar o país no caos”.

https://twitter.com/Keir_Starmer/status/2053109982665556046

Contudo, as intenções do primeiro-ministro não estão a travar a onda de contestação. Uma das vozes mais duras foi a de Josh Simmons, deputado do círculo eleitoral de Makerfield e até aqui aliado de Starmer, tendo ocupado os cargos de secretário parlamentar do Governo e subsecretário de Estado para o governo digital no Ministério da Ciência, Inovação e Tecnologia.

“Colocando em primeiro lugar as pessoas que represento e o país que amo, não acredito que o primeiro-ministro esteja à altura deste momento. Ele perdeu o apoio do país. Deveria assumir o controlo da situação, supervisionando uma transição ordenada para um novo primeiro-ministro”, afirmou.

Num artigo publicado este domingo no jornal The Times, Simmons sublinhou que os Trabalhistas estão “a caminhar para a extinção” e que as eleições locais desta semana, nas quais o partido perdeu mais de 1.400 assentos em todo o país, constituíram um “julgamento inequívoco” de que a conduta do Governo “não está à altura do momento” e das exigências no Reino Unido. “Falamos constantemente em grande, mas agimos em pequeno”, frisou.

Por sua vez, Clive Betts, da circunscrição de Sheffield South East, e que é deputado trabalhista há mais tempo em funções no parlamento, realçou a falta de popularidade do primeiro-ministro, considerando-a “um verdadeiro problema para o futuro” e que torna um desfecho de saída praticamente inevitável.

“Não creio que uma renovação e um novo começo venham a fazer qualquer diferença. Infelizmente, o público, em geral, simplesmente deixou de dar ouvidos a Keir. Já tomaram a sua decisão”, indicou. São apenas duas vozes de uma lista que, segundo o The Telegraph, já conta com quase 40 mensagens de preocupação e apelo à saída de Keir Starmer

Apelos a uma liderança no feminino

Catherine West, deputada por Hornsey e Friern Barnet e ex-secretária de Estado adjunta dos Negócios Estrangeiros, foi igualmente contundente no discurso e não descartou a possibilidade de assumir pessoalmente o desafio à liderança de Starmer no partido. “O que eu quero que o Conselho de Ministros faça é fechar-se numa sala hoje e chegar a um consenso sobre alguém que todos possam apoiar, o que significaria que não teríamos de realizar eleições para a liderança. E se isso for possível, então poderemos ter uma transição muito tranquila, sem incomodar ninguém, sem ter de recorrer a todos os deputados”, disse.

Em declarações citadas pela Sky News, West referiu que o partido teve um “nível de inércia face à derrota eleitoral” de quinta-feira que a envergonha e revelou aguardar ainda pelo discurso do primeiro-ministro agendado para segunda-feira, mas sem esperança num futuro do Labour com Starmer à sua frente.

“Vou ouvir o discurso do primeiro-ministro, mas se amanhã não estiver à altura, receio que tenha de tomar medidas”, notou a deputada trabalhista, reforçando: “Os trabalhadores enviaram-nos uma mensagem na quinta-feira. Temos de ouvir essa mensagem, temos de mudar e temos de o fazer rapidamente”.

Para Catherine West, terá chegado também a hora de uma mulher ser pela primeira vez líder efetiva do Labour — apenas teve lideranças interinas em curtos períodos de transição. Além de não se excluir do futuro do partido, West já desafiou Bridget Philipson, secretária de Estado da Educação, em plena televisão, ao salientar que “não há nada que a impeça de se candidatar”.

Contudo, Bridget Philipson discordou dessa posição e manifestou apoio a Starmer, enquanto a imprensa britânica está a centrar mais as atenções no que poderá agora fazer Angela Rayner, ex-vice-primeira-ministra de Starmer, e no papel do antigo líder trabalhista Ed Miliband, apontado como ‘kingmaker’ (fazedor de reis) do futuro do Labour.

https://observador.pt/2026/05/09/keir-starmer-traz-gordon-brown-para-o-governo-britanico-apos-derrota-nas-eleicoes-locais/