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Dietas cognitivas

Tudo se pode tornar cantarolável. Segundo o Génesis, Deus criou tudo falando. Tenho fé de que possamos recriar alguma coisa cantando. O segredo é correr na rua.

Tiago de Oliveira Cavaco
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A selva hoje é a civilização: o excesso de informação deixa-nos tão perdidos como se tivéssemos sido largados de paraquedas na Amazónia. A curiosidade é que este abandono é vivido sob a aparência de companhia. Quanto mais informados e socializados estamos, mais desorientados ficamos. A verdade é paradoxal.

Isto é dito por trezentas vozes de trezentas maneiras. A minha é apenas mais uma, provavelmente mais tosca e deserudita. O melhor modo de saber realmente alguma coisa é desaprender o excesso informativo que nos cerca. Dietas cognitivas são o futuro, posso garantir. Exercícios físicos fazem parte, claro.

Neste labirinto de informação, os substacks ganharam o seu espaço. Até nomes consagrados da imprensa por lá andam. Um dos que acompanho é do Jacinto Lucas Pires. Escreve lá em inglês (o Pacheco Pereira também) e chama-se “Pardon My English” e sai à sexta-feira. Inscrevam-se.

Nesta última escrevia acerca dos seus hábitos de corrida (e passo a traduzir): “a partir do momento que ultrapassamos a fase do cansaço, aquela dor irritante no joelho esquerdo, todo o imenso, monumental tédio de inspirar e expirar, correr pode levar-nos (…) onde tudo se torna cantarolável”. É isto mesmo.

Como somos amigos, escrevi-lhe dizendo que concordava, que correr é uma disciplina espiritual—é uma coisa que o nosso corpo precisa de fazer para voltarmos a ter atenção. Não podemos ter atenção sem que o nosso corpo se envolva e correr serve para isso também. Nessa medida, correr é pensar melhor.

O Jacinto corre muito mais do que eu. Eu corro uns míseros quatro quilómetros à segunda, à quarta e à sexta. Mas depois ando muito. Há uns anos um amigo que passou duas semanas em minha casa fez um cálculo naqueles relógios do Big Brother e disse-me que eu caminhava perto de dez quilómetros por dia. Achei exagerado mas dá uma ideia.

O que tento fazer quando caminho? Tento não ouvir música, tento não ouvir demasiados sermões e podcasts, tento não ir respondendo ao whatsapp. No fundo, tento achar-me a mim mesmo e aos outros furando a espessura informativa que nos comprime. Tento também voltar a ter um corpo que possa queixar-se do cansaço. Tento descobrir a pessoa que ainda há em mim além do torpedeamento cognitivo constante.

E volta e meia acontece o que o Jacinto tão bem descreveu: há algo que notamos e que pode ganhar palavras. As palavras podem fazer eco na nossa cabeça. Na nossa cabeça pode aparecer uma melodia. Tudo se pode tornar cantarolável. Segundo o Génesis, Deus criou tudo falando. Tenho fé de que possamos recriar alguma coisa cantando. O segredo é correr na rua.

P. S. Vem mesmo a calhar: vou cantar com o meu amigo Manuel Fúria no Coliseu Club na próxima quinta-feira 14 de Maio às 21.30h. Venham!