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(A) :: Já perceberam o que é o Chega?

Já perceberam o que é o Chega?

Nem de extrema-direita nem reformista. O Chega é o novo PS. Só que à direita. Olhar para o Parlamento e dizer que há uma maioria de direita de nada serve se o eleitorado do Chega é o eleitorado do PS

André Abrantes Amaral
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Não dou para o peditório do Chega ser de extrema-direita. Tão assim é que votei em branco nas presidenciais porque me recuso votar num socialista de esquerda por ter medo de um socialista de direita. Desde que fundou o Chega, André Ventura conseguiu parecer ser duas coisas que não é: fascista e reformista. Para aparentar ser o que não é, Ventura enganou dois tipos de eleitorado: o zangado e o da antiga direita. Digo antiga porque a direita mudou, como está à vista de todos. Já não é a direita dos mercados abertos, do livre comércio, mas do estatismo e do proteccionismo. Deixou de ser globalista e tornou-se nacionalista com o estado a ter um papel central na vida das pessoas. De certa forma regressámos à distinção vigente no último quartel do século XIX em que a esquerda era progressista e favorecia o comércio livre enquanto a direita era conservadora e proteccionista.

Ventura alimentou-se de um histerismo à sua volta de quem vê nele um Salazar ressuscitado. Um novo fascista. Ora, nem Salazar foi fascista nem Ventura é um novo Salazar. Onde Ventura é verboso, Salazar era conciso. Onde Salazar era discreto, Ventura é aparatoso. Ventura diz que são precisos três Salazares para pôr o país na ordem, mas bastava um (o verdadeiro) para o mandar calar, logo ele que não suportava gente estridente.

A diabolização de Ventura atingiu proporções absurdas nas presidenciais com pessoas inteligentes a não serem capazes de ler no meio da névoa que André Ventura e António Costa criaram para dividir a direita. A verdade é que o Chega não tem sequer estrutura de pensamento para ser um partido que  defenda reformas, menos ainda para ser de extrema-direita. Nesta, a ideologia é errada, mas existe. Tem fundamentos. Há um rumo coerente. Precisamente o oposto do Chega que, de coerente só tem a estratégia de ganhar votos. Ali não há mais nada que não seja isso.

Da mesma maneira, o Chega nunca foi, não é e nunca será um partido reformista. Quando lhe foi conveniente, Ventura disse que o país precisava de reformas. Mas o seu objectivo nunca foi levá-las por diante. Também aqui, Ventura enganou os mais incautos que acharam que por se dizer de direita significava que estava disposto a agir de forma diferente da do PS. Sucede que o eleitorado mudou da esquerda para a direita, mas a maioria continua a querer o estado no centro das suas vidas. Perspicaz, Ventura viu isso muito bem. Tão assim foi que se afirmou de direita quando antes só era conhecido por ser do Benfica e ter escrito uma tese de doutoramento na qual contradiz o que agora grita com tanta convicção.

Também porque lhe interessava ganhar os votos dos que achavam que as reformas eram importantes, Ventura colou-se a duas figuras políticas que a direita venera: Francisco Sá Carneiro e Pedro Passos Coelho. A verdade é que não há qualquer semelhança entre o líder do Chega e aqueles dois. Sá Carneiro era um católico, casado e pai de cinco filhos, fruto de uma educação rigorosa própria da burguesia nortenha durante o período do Estado Novo, mas que se divorciou para viver com a mulher que amava, mesmo que isso lhe custasse votos. Foi a sua autenticidade que convenceu o eleitorado católico e conservador que, nos anos 70, votava no PPD e no CDS a não se importar com as suas escolhas pessoais e a conceder-lhe duas maiorias absolutas. Ventura é exactamente o oposto quando diz e repete que foi à missa e se deixa fotografar de joelhos numa igreja. Já quanto a Passos Coelho é preciso não esquecer que cortou salários e pensões para reduzir o défice e evitar a bancarrota do estado. Ora, apesar de Ventura dizer que Passos é a sua referência, nunca Ventura seria capaz de fazer o mesmo. Porquê? Porque precisa dos votos dos funcionários públicos e dos pensionistas. Os votos que Passos Coelho não se importou de perder para que o estado não entrasse em bancarrota e os salários dos funcionários públicos e as pensões dos reformados continuassem a ser pagas a tempo e horas. A diferença é tão abissal que, depois de defender a redução da idade da reforma, Ventura saiu-se com um tweet no qual justifica a sua proposta com uma sondagem que declara que a maioria dos portugueses é a favor da redução da idade da reforma.

Ventura toma-nos por parvos quando diz que as suas inspirações políticas são Sá Carneiro e Passos Coelho. O que é pior que mentir porque já fomos tomados por parvos por António Costa e ser tomado por parvo uma vez é uma coisa, mas duas já é demais.

Foi com estes truques de ilusionista (onde é tão magistral quanto António Costa) que André Ventura se tornou líder da oposição. Como referi na SIC Notícias, Ventura anda um tanto ou quanto perdido sem saber o que fazer desde que passou para a segunda volta das presidenciais. Na verdade, daqui para a frente será cada vez mais difícil agradar a todos. Há que fazer escolhas. Quando defendeu a redução da idade da reforma, Ventura fez uma: prescindiu dos jovens que votaram massivamente nele a favor dos mais velhos. É compreensível que alguém como ele proceda dessa maneira porque há mais pessoas velhas que novas em Portugal. Com o passar do tempo, Ventura fará outras escolhas semelhantes e enquanto o tempo passa a sua essência tornar-se-á mais visível. Aliás, o grande dilema de Ventura neste momento é que não pode ser responsável por derrubar o governo (sob risco de ser penalizado nas urnas), mas ao mesmo tempo cada dia que passa na oposição é uma oportunidade para que o país veja o que ele verdadeiramente é: não um extremista, não um reformista, mas alguém que viu num tipo de discurso uma oportunidade de ouro para singrar na política.

Por fim, há um ponto que convém referir não vá ser mal-interpretado. Quando digo que o Chega não tem conteúdo para ser reformista tal não significa que comece a perder a votos por isso, nem sequer o apoio dos mais novos. Ventura não é o primeiro populista em Portugal. Louçã também o era e chegou onde chegou noutros tempos menos férteis para a mesma fórmula que dificilmente deixará de ser mágica. Na mesma linha de raciocínio, o não ser de extrema-direita não significa que, uma vez no governo, o Chega largue facilmente o poder quando perder eleições. O PS também não aceitou a derrota em 2015 e não foi por ser extremista. Simplesmente, precisava do poder para sobreviver porque o PS não tinha outra coisa para dar que não fosse manter-se no poder. O que nos aconteceu com o PS (que governou 22 dos últimos 30 anos) também nos pode acontecer com o Chega porque os dois estão marcados pela mesma lógica de poder.