A poucas horas de o navio que se tornou o foco do surto de hantavírus chegar a Tenerife, nas Ilhas Canárias, a preparação para receber e direcionar os 147 passageiros e tripulantes que podem ter contactado com o vírus já está guionada. Organização Mundial de Saúde (OMS), governos envolvidos — incluindo os espanhol e neerlandês — e demais entidades de saúde dão pouca margem para erro na transferências das pessoas que são consideradas contactos de risco, após a morte de três pessoas infetadas com o vírus respiratório.
Uma operação complexa, a envolver dezenas de profissionais, com o presidente da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e Mónica García, ministra da Saúde espanhola, a acompanharem todo o processo no local. “Estamos provavelmente a ser mais cautelosos do que a situação exigiria”, afirma ao Observador, Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública, dizendo que está também em causa uma necessidade de “gestão mediática”.
“Neste momento não temos evidência robusta de que exista transmissão pessoa a pessoa e estamos a operar a na base do princípio da precaução”, acautela também o especialista, dizendo que é normal que as autoridades queiram “dar tranquilidade às pessoas”.
Entre as 5h00 e as 6h00 da madrugada nas Ilhas Canárias (4h00 e as 5h00 no horário de Lisboa), o MV Hondius vai chegar ao porto de Granadilla e começa então o protocolo de evacuação para evitar qualquer contacto entre os viajantes e a população local, processo que as autoridades consideram crucial para conter o surto.
A Unidade Militar de Emergência (UME) espanhola será responsável pela transferência dos passageiros do navio de cruzeiro, acionada pelos ministérios da Saúde e Administração interna espanhóis, após empresas de transporte locais terem recusado fazer a transferência. Vão ficar responsáveis pelos transportes terrestres em Tenerife e Madrid de todos os passageiros e pela retirada aérea dos cidadãos espanhóis que estavam a bordo. Ficarão ainda responsáveis pelas tarefas de desinfeção dos transportes e espaços utilizados.
A chegada do navio ao porto espanhol, mas sem atracar e sem barcos próximos. Depois, a inspeção de saúde a bordo
O primeiro passo é a chegada do MV Hondius a Tenerife, mas sem autorização para atracar no porto de Granadilla. O navio vai ficar ancorado ao largo da costa espanhola, onde poderá ser permitido o desembarque da mais de uma centena de passageiros a bordo mais tarde.
O Ministério da Administração Interna espanhol implementou como uma das medidas de segurança a proibição de “qualquer navegação a menos de uma milha náutica do navio MV Hondius assim que este entrar na zona marítima das Ilhas Canárias”, cita o El Mundo. A mesma medida de segurança vai ser aplicada na bacia portuária de Granadilla.
O jornal espanhol informa ainda que, antes da retirada dos passageiros e da tripulação do MV Hondius , vai ser feita uma inspeção de saúde a bordo para determinar se há pessoas que tenham entretanto desenvolvido sintomas, na viagem que decorreu entre Cabo Verde e Tenerife. Há quatro profissionais de saúde a bordo, que chegaram ao navio ainda em Cabo Verde.
Serão estes epidemiologistas, em conjunto com a Autoridade Portuária de Saúde espanhola, a realizar uma avaliação completa de todos os passageiros para confirmar que permanecem assintomáticos, bem como para fazer um levantamento epidemiológico completo.
No caso de algum dos passageiros ter sintomas da infeção, a sua retirada vai decorrer de maneira diferente. O plano para um possível infetado passa pelo transporte via aérea para uma unidade médica.
Lanchas para levar a terra os passageiros, que deixam para trás toda a bagagem
Quando o estado de saúde de todos os passageiros for verificado, chegará o momento de saírem do MV Hondius. Vão deixar a embarcação em lanchas com capacidade para cinco pessoas, que os vão levar até ao cais do porto de Granadilla, informa o El Mundo.
No navio vai ficar toda a bagagem dos passageiros e também o corpo do homem que morreu a bordo, bem como alguns membros da tripulação que serão responsáveis por navegar o cruzeiro até aos Países Baixos, onde será depois desinfetado. Os passageiros só estão autorizados a levar consigo uma peça de bagagem de mão, lacrada, com bens essenciais definidos pelo Governo espanhol: “Documentos, telemóvel, carregador, bens de primeira necessidade e pertences pessoais.”
Do pequeno barco, os passageiros passam para um dos vários autocarros que vão estar à espera na zona portuária. Sem pausas ou outras paragens, seguem de imediato para o Aeroporto de Tenerife Sul, numa viagem de cerca de dez minutos, com direito a escolta policial. Vai ser criado um autêntico corredor sanitário, com as áreas por onde os passageiros do cruzeiro vão circular completamente isoladas da população local.
Não terão acesso ao interior do aeroporto, sendo levados até às pistas de descolagem para embarcar nos aviões que estarão nesse momento prontos a descolar, com destino aos vários países para onde os cidadãos vão ser repatriados. Há pessoas de 23 nacionalidades a bordo do navio.
Como informou a ministra da Saúde espanhola este sábado, “todos os passageiros vão desembarcar a usar máscaras FFP2 enquanto medida preventiva adicional“. O mesmo tipo de máscaras, cujo uso chegou a ser recomendado na pandemia de Covid-19, também será usada por todos os que estiverem envolvidos no contacto operacional, de motoristas, a profissionais de saúde e agentes da polícia.
Os profissionais que tiverem contacto mais direto com os passageiros poderão estar a usar outros equipamentos de proteção individual adequados, como batas, luvas e galochas, como descreve ao Observador o médico de Saúde Pública, Ricardo Mexia.
Os voos organizados por cada país prontos que vão estar prontos a deixar Tenerife nas próximas horas
Não se sabe para já quantos são, mas os aviões que vão repatriar os passageiros do MV Hondius estão a chegar ao Aeroporto de Tenerife Sul ao longo das próximas horas para rapidamente ficarem prontos a descolar. Os voos de repatriação para França, Alemanha, Bélgica, Irlanda e Países Baixos já estão programados, de acordo com o Governo espanhol.
Nos casos de países da União Europeia que não dispõem de aeronaves, o Mecanismo Europeu de Proteção Civil disponibilizou dois aviões para realizar os voos necessários para a transferência. Também os voos para os EUA e o Reino Unido estão já programados e prontos a descolar assim que os cidadãos desses países chegarem ao Aeroporto de Tenerife Sul.
Qualquer passageiro que apresente sintomas não embarca nos aviões coletivos para repatriamento, mas sim num avião médico para ser transportado a uma unidade hospitalar.
E depois de os passageiros aterrarem no país de origem? Neerlandeses podem fazer quarentena em casa, mas britânicos vão ser hospitalizados
No caso dos passageiros e tripulante neerlandeses, e como anunciado este sábado, estas 13 pessoas vão entrar numa quarentena domiciliária de seis semanas assim que aterrarem nos Países Baixos. Como se lê na página do Governo neerlandês, estão a ser seguidas as recomendações do Instituto Nacional de Saúde Pública e Meio Ambiente dos Países Baixos, de acordo com as diretrizes do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC).
De acordo com o The Guardian, os passageiros britânicos vão ser transportados para o hospital Arrowe Park após aterrarem no Reino Unido. Serão depois submetidos a uma quarentena hospitalar de 42 dias a partir do ponto de possível exposição, que para a maioria dos passageiros terá ocorrido há já vários dias.
O hospital britânico já tinha sido usado em 2020 para acolher cidadãos britânicos que tinham regressado da China no início da pandemia de Covid-19.
As autoridades neerlandesas avisam que “não há motivos para supor que o vírus dos Andes leve a uma pandemia como a do coronavírus”, uma vez que o hantavírus se espalha principalmente pelo contacto com fezes de ratos, sendo a probabilidade de transmissão pessoa a pessoa muito reduzida.