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"Silêncio" do piloto, falhas de segurança e "ordem" para saltar. Os momentos até à morte do passageiro do balão de ar quente no Alqueva

Ministério Público acusa o piloto e a própria empresa de viagens de balões no Alqueva pela morte de um passageiro. Homem tinha 55 anos e saltou para tentar ajudar piloto a aterrar.

Pedro Raínho
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“Epá, já deviam ter ido, estamos cada vez mais afastados de terra, tenham paciência, vão lá!” Já era a segunda vez que o piloto do balão de ar quente dava a indicação ao grupo. Agora num tom “irritado”, visivelmente “nervoso”, insistia: “Dois ou três homens”, entre os 13 passageiros que participavam no passeio daquela manhã de abril de 2024, deviam sair da cesta e saltar para a água do Alqueva. Segundo o Ministério Público, João Rodrigues deparava-se, há longos minutos, com grandes dificuldades para aterrar. Tinha planeado terminar a viagem junto à margem do lago, em terra firme, mas era a segunda vez que o balão amarava e agora estava numa zona onde a profundidade da água era ainda maior.

O piloto mostrava sinais de “ansiedade” e “nervosismo”. Os passageiros questionavam-no sobre “o que poderiam fazer para ajudar”, mas João Rodrigues parecia “indeciso” sobre como terminar aquela viagem em segurança. Finalmente, lançou aquilo que, segundo a acusação, primeiro soou a pedido e, depois, quase a uma ordem do piloto: alguém teria de lançar-se à água, agarrar as pegas na base da cesta e puxar o balão para terra.

Dois dos homens a bordo responderam ao apelo e prontificaram-se para saltar para a água. Nenhum deles usava colete salva-vidas — a empresa tinha comprado 49 coletes insufláveis apenas nove meses antes da viagem, mas, “por decisão” do piloto e do responsável da empresa, não havia um único a bordo de que pudessem socorrer-se. Chegaram mesmo a tirar algumas peças de roupa, entregaram os telemóveis a outros passageiros e colocaram-se do lado de fora, pendurados na cesta, com o balão de ar quente já em contacto com a água. Mas apenas um deles acabou por saltar. Nesse momento, o balão já estava a “cerca de 20 metros da margem” e numa zona “garantidamente ‘sem pé’”, longe do local da primeira amaragem. Jorge C. ainda nadou durante alguns minutos, enquanto via o balão subir e afastar-se em direção a terra.

Acabaria por morrer afogado nas águas do Alqueva.

Esta quinta-feira, o Observador avançou a informação de que, dois anos após a instauração do inquérito, o Departamento de Investigação e Ação Penal de Évora tinha deduzido acusação contra três arguidos: o piloto do balão de ar quente, João Rodrigues, o dono da empresa, Guido dos Santos, e a própria empresa, a Windpassenger.

O piloto poderá ter de vir a responder pelos crimes de “condução perigosa por meio de transporte por ar, água ou caminho de ferro, agravado pelo resultado morte”; o dono da empresa está acusado do crime de “infração de regras de construção, dano em instalações e perturbação de serviços, agravado pelo resultado morte”. Em ambos os casos, o crime é apontado, “em concurso aparente”, com o de “homicídio por negligência”.

Ao Observador, o advogado do responsável da empresa, Moura dos Santos, garante que vai requerer a abertura de instrução por discordar de vários pontos centrais da acusação: o argumento de que o uso de colete salva-vidas era obrigatório; a alegação de que os passageiros daquele passeio não foram alertados, no briefing de segurança, sobre os procedimentos a adotar em caso de amaragem.

A defesa de João Rodrigues está a cargo de Carla M. Matos. Ao Observador, a representante do piloto não exclui vir também a requerer abertura de instrução. Neste momento, diz apenas que está “a ponderar” essa possibilidade.

No despacho, o procurador Miguel Ângelo Carmo procura mostrar que João Rodrigues (e o dono da empresa) não partilhou as informações de segurança necessárias com os passageiros, sugere o piloto que não tinha experiência em situações de emergência — como uma amaragem —, que nem o piloto nem a empresa garantiram a presença a bordo de equipamentos de segurança (que o Ministério Público diz estar consagrado no manual de voo de balões a ar quente), considera que o socorro tardou porque João Rodrigues nunca avisou o dono da empresa de que um passageiro tinha saltado cerca de meia hora depois — apesar de ter mantido entretanto várias conversas ao telefone com o dono da Windpassenger.

O despacho de acusação, que o Observador consultou, faz a descrição dos vários momentos determinantes daquela manhã, até ao desfecho fatal.

Voo passava sobre o Alqueva, mas pilotos não falaram sobre procedimentos de segurança

Os dois balões de ar quente que faziam o passeio iniciaram a viagem num terreno alguns metros a sul da Ermida de São Sebastião, a menos de um quilómetro do Castelo de Monsaraz. Um dos balões da Windpassenger era pilotado pelo responsável da empresa, Guido dos Santos. Seguiam 18 passageiros a bordo. João Rodrigues era o piloto do segundo balão e consigo viajavam 13 passageiros — três abaixo da capacidade máxima. Estava previsto que o passeio durasse, no máximo, uma hora e meia e que terminasse sensivelmente 15 quilómetros a sul, próximo da ribeira do Alcarrache.

O piloto “permitiu que o balão sobrevoasse a uma altitude superior à aconselhável e adequada para iniciar a manobra de aterragem, dado que a velocidade do vento era desajustadamente superior para tal efeito.”
Despacho de acusação do Ministério Público

De acordo com o plano de viagem preparado para aquela manhã, os balões passariam certamente boa parte da viagem a sobrevoar o Alqueva. Mesmo assim, sustenta o Ministério Público no despacho de acusação, “antes do início da operação de voo, durante o briefing, nenhum dos arguidos (…), relativamente ao conjunto de passageiros a transportar, previu, detalhou e preparou, informando aqueles, para a possibilidade de ter que ser efetuada uma amaragem de emergência, e de como se deveria proceder numa situação dessas”.

As condições meteorológicas não faziam antever grandes dificuldades durante a viagem. Segundo escreve o Ministério Público na acusação, existia “uma conjugação de fatores praticamente ideal para a atividade operacional de voos de balão de ar quente” naquele dia. No momento da partida, às 6h37 da manhã, o balão levava “sumo” — gíria para combustível — “absoluta e garantidamente” suficiente para um voo de aproximadamente 2h45.

Muito antes disso, por volta das 8 horas, e “sem que até aqueles instantes se tivesse registado qualquer percalço ou incidente”, o piloto “decidiu iniciar a manobra de descida final do balão e aterrar”. O plano era que o balão se imobilizasse “antes da margem norte do plano de água formado pelo ramo da Ribeira do Alcarrache da albufeira da barragem do Alqueva, e também antes da ponte que liga o distrito de Évora e o de Beja, tendo por referência o lado de Évora”.

Nesse momento, o outro piloto, Guido dos Santos, responsável da Windpassenger, tomava a mesma decisão e começava a aproximar de terra o seu balão com os 18 passageiros a bordo.

Depois das falhas de segurança com a ausência de coletes nos balões, o Ministério Público considera que foi aqui que aconteceu a primeira falha operacional de João Rodrigues: o piloto “permitiu que o balão sobrevoasse a uma altitude superior à aconselhável e adequada para iniciar a manobra de aterragem, dado que a velocidade do vento era desajustadamente superior para tal efeito.”

Ministério Público alega que piloto deu “ordem” para saltar

Por várias vezes tentou aterrar o balão, mas invariavelmente acabava por ser sempre empurrado pelo vento para o interior da barragem, em direção à água. João Rodrigues começou então a mostrar-se “nervoso”, “indeciso”. O procurador diz mesmo que nessa fase do voo, tornou-se claro que João Rodrigues não tinha a noção clara de quanto gás já tinha queimado e de quanto combustível ainda dispunha. No fundo, não fazia ideia quanto tempo ainda conseguiria aguentar o balão no ar. De repente, dava por si numa “situação para a qual não estava devidamente capacitado”.

Toma pela primeira vez a decisão de amarar. Ali, a água não teria mais de 50 centímetros de profundidade. Estavam a cerca de dois metros da margem. Facilmente a alcançariam.

https://observador.pt/2025/07/22/alqueva-dois-arguidos-na-investigacao-a-acidente-com-balao-de-ar-quente-que-fez-um-morto/

Mas, durante alguns instantes, o piloto ficou em silêncio. Não deu quaisquer indicações aos seus passageiros. A cesta está na água. A margem continua mesmo ali ao lado. João Rodrigues sugeriu então: que dois ou três homens saltassem e puxassem o balão para terra.

Jorge C. e José C. despiram algumas peças de roupa, mas assim que passaram para o exterior, quando já estão agarrados ao lado de fora da cesta onde todos os passageiros ainda se encontram, o balão começou subitamente a ganhar altitude. Os dois homens mantiveram-se a bordo e acabaram por não saltar. Mas são meros segundos de subida, porque rapidamente o balão voltou a descer e entrou novamente em contacto com a água. Só que agora já está numa zona de muito maior profundidade. Ali não se via o fundo do lago, já ninguém teria pé. A água entrava de forma mais abundante na cesta, já dava pelos joelhos dos passageiros. O espaço estava parcialmente submerso.

O Ministério Público volta a apontar o que considera ser uma conduta contra as normas instituídas para uma situação como aquela em que o piloto se encontrava. “Ao invés de ter procedido a uma amaragem em segurança, como se lhe impunha que fizesse e que poderia e deveria ter feito se tivesse agido com a prudência e o cuidado a que estava obrigado e de que era capaz, preparando a conversão do cesto em jangada, esvaziando previamente todo o gás das garrafas para depois serem utilizadas como bóias de flutuação e largando o balão logo que o mesmo tocasse na água, o arguido João Rodrigues, apresentando, agora, sinais evidentes de irritação e de nervosismo, ordenou, desta vez em tom de voz alta, exaltado, ‘Epá já deviam ter ido, estamos cada vez mais afastados de terra, tenham paciência, vão lá!’”

O grupo a bordo estava hesitante, havia um nervosismo no ar perante a incerteza do que iria acontecer de seguida, os passageiros estavam ansiosos.

Jorge C. e José C. voltaram a disponibiizar-se para saltar. Mas apenas Jorge C. abandonou de facto a cesta. Já tinha tirado dois casacos que trazia, passado o telemóvel para as mãos da namorada, o relógio e as chaves do carro. Depois, atirou-se. Está na água, vestido com um fato de treino e de tshirt, com os ténis ainda calçados.

Ainda agarrou a mão da namorada num último instante mas, assim que se soltou da cesta, o balão voltou a subir. Ganhou mais e mais altitude. Continuou a ser empurrado pelo vento, mas agora já não voltou a descer. Subiu e afastou-se. Estava cada vez mais distante e Jorge C. continuava na água.

A bordo, o piloto decidiu que com aquela altitude que acabou de alcançar pode ultrapassar a zona da albufeira e voltar a tentar aterrar o balão em terra firme.

Sozinho na água, Jorge C. começou a nadar em direção à margem. Pareceu não se atrapalhar com a situação  — afinal, como nota o Ministério Público, foi nadador de competição na juventude. Está a algumas dezenas de metros da margem. Decidiu nadar de costas.

Quase uma hora até avisar que havia passageiro na água

João Rodrigues pegou no telefone e ligou para Guido dos Santos. O piloto e o responsável da empresa falaram algumas vezes ao telefone. O outro balão a ar, pilotado por Guido dos Santos, está quase a chegar ao local onde vai aterrar. Mas Guido apercebeu-se de que algo não está a correr bem, João Rodrigues parecia atrapalhado com a situação. Guido aconselhou-o a percorrer mais alguma distância até sobrevoar terra firme. Até porque, disse-lhe, “o combustível a bordo do balão era mais que suficiente para o efeito”.

Piloto do balão a ar “nunca deu a conhecer, inequivocamente”, ao responsável da Windpassenger que “havia dado ordem a alguns passageiros para saírem do balão na direção da água nem que um deles o havia realizado na direção da água e que aí tinha ficado".
Despacho de acusação do Ministério Público

João Rodrigues acatou a sugestão. Elevou o balão até aos 2 mil pés e acabou por viajar durante mais meia hora, afastou-se dois quilómetros do local onde deixara Jorge C. na água e, finalmente, aterrou. A viagem durou 2 horas e 14 minutos. São 8h51.

Nos últimos minutos, os dois pilotos falaram por diversas vezes ao telefone. Mas João Rodrigues “nunca deu a conhecer, inequivocamente”, ao responsável da Windpassenger que “havia dado ordem a alguns passageiros para saírem do balão na direção da água e, nem tão pouco, de que efetivamente um deles, a vítima Jorge C., o havia realizado na direção da água e que aí tinha ficado, tentando nadar na direção de uma das margens da barragem”.

https://observador.pt/especiais/uma-viagem-num-balao-de-ar-quente-o-apelo-do-piloto-e-um-ponto-amarelo-na-agua-o-que-se-sabe-sobre-o-acidente-no-alqueva/

Aliás, só às 8h48 Guido dos Santos tomou conhecimento do que tinha acontecido. E não foi através de João Rodrigues. Foi só quando foi “alertado por um dos passageiros que havia transportado que, no grupo do WhatsApp criado para troca de mensagens entre as pessoas que efetuaram os voos daquele dia, um dos passageiros do balão tripulado por João Rodrigues havia lançado o alerta e pedido de ajuda para alguém ir em busca e salvamento” de Jorge C.

Essa mensagem dava conta de que o passageiro tinha saltado para a água e também partilhava uma localização GPS do local onde Jorge C. o tinha feito. A mensagem entrara no grupo cerca de 10 minutos antes, às 8h37. No momento em que consultou o telemóvel e se apercebeu daquela situação, Guido dos Santos já estava com o seu grupo de passageiros a beber champanhe, num habitual momento de descontração que a empresa proporciona aos clientes após as viagens de balão.

De imediato, Guido dos Santos deu ordens à equipa de terra para que vão em busca do passageiro que tinha saltado da cesta para a água. Mas isso já aconteceu mais de uma hora depois do incidente e a cerca de um quilómetro de distância do local.

30 anos de experiência. Mas apenas dois voos naquele balão

O corpo de Jorge C. foi encontrado “num local ermo e de difícil acesso junto à ponte da barragem do Alqueva, no Caminho Municipal n.° 517, na margem direita, nas imediações da ruína denominada por Monte Vila Ruiva”.

https://observador.pt/2024/04/28/homem-cai-de-cesto-de-balao-de-ar-quente-sobre-o-alqueva-morte-declarada-no-local/

De acordo com o relatório da autópsia, Jorge C. sofreu uma “paragem cardiorrespiratória em corolário de asfixia mecânica por afogamento”. Nos pulmões ainda foi encontrada água, o que significa que o homem se afogou quando tentava alcançar a margem e, de seguida, entrou em paragem cardíaca.

João Rodrigues é um dos principais arguidos do caso, apesar de o Ministério Público também ter deduzido acusação contra o responsável da empresa e contra a própria empresa. No momento do acidente, o piloto contava com quase 30 anos de experiência em balões de ar quente. Somava 3.110 horas de voo e tinha concluído um total de 2.855 aterragens.

Advogado da empresa diz que “piloto é um homem experimentado" e que "nada fazia prever que reagisse de forma nervosa. Nunca devia ter amarado, estando a escassos de terra”.

Colaborava com a Windpassenger há oito meses e aquele era o quarto voo desde que começara a voar para a empresa de Guido dos Santos, em agosto de 2023 (no mesmo período, fizera outros três voos para outras empresas com as quais colaborava).

Mas o Ministério Público nota, sobretudo, um facto: aquele voo de 28 de abril de 2024 era “apenas o segundo no balão que pilotou”. Nos seis meses anteriores, voara sempre em balões de menor dimensão, que transportavam, no máximo, três passageiros.

Depois do incidente, garante o advogado da Windpassenger ao Observador, João Rodrigues não voltou a colaborar com a empresa. “Saiu pouco tempo depois”, diz. Justificando esse afastamento com uma perceção, pelos responsáveis da empresa, de que o piloto teria tomado “decisões precipitadas” naquela manhã de 28 de abril.

Passados dois anos, Moura dos Santos ainda não tem clara noção do que aconteceu para aquela sequência de acontecimentos. “O piloto é um homem experimentado, nada fazia prever que reagisse de forma nervosa. Nunca devia ter amarado, estando a escassos de terra.”

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