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(A) :: PCP dedica 28 palavras a antigo braço-direito de Cunhal. E a "pedido da comunicação social"

PCP dedica 28 palavras a antigo braço-direito de Cunhal. E a "pedido da comunicação social"

Carlos Brito morreu esta semana aos 93 anos. Era uma figura maior do partido até romper com Cunhal. PCP escreveu uma curta nota no site do partido "a pedido de vários orgãos de comunicação social".

Miguel Santos Carrapatoso
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Foi militante do PCP durante 48 anos. Passou dez na clandestinidade e oito na prisão. Serviu o partido como funcionário, membro do Comité Central, deputado, diretor do jornal “Avante!”, líder parlamentar (durante 15 anos) e candidato à Presidência da República. Durante muito tempo, foi o braço direito de Álvaro Cunhal. Acabaria por romper com ele e por se assumir como um dos protagonistas da chamada ala renovadora. Morreu esta semana aos 93 anos. Em comunicado, o PCP dedicou-lhe apenas 28 palavras e 199 caracteres.

“A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social, sobre o falecimento de Carlos Brito.” Assim começa a nota divulgada no site do PCP. A seguir, pode ler-se: “Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar”. Sem mais.

Carlos Brito morreu na quarta-feira, em casa, no concelho de Alcoutim, depois de ter estado internado no Hospital de Faro devido a uma infeção respiratória. Foi líder parlamentar durante 15 anos, candidato apoiado pelos comunistas à Presidência da República, diretor do jornal “Avante!” e membro do Comité Central durante 45 anos. No final dos anos 90 e na viragem do século, foi-se afirmando com uma voz crítica do rumo que o partido estava a seguir, o que lhe valeu o fim da amizade com Álvaro Cunhal.

Anos mais tarde, em entrevista à RTP, acabaria por revelar que a “zanga” com Álvaro Cunhal lhe causou mais sofrimento do que os oito anos encarcerado. “Gostaria que não tivesse acontecido, que tivéssemos chegado a um acordo. Não que eu teria abdicado da minha opinião, não podia.” O momento da rutura com o líder histórico do PCP deu-se durante a preparação do XIV Congresso, em 2000. Numa conversa privada com Cunhal, Brito defendeu que o partido devia “deixar o marxismo-leninismo”, lembrando “as várias experiências de insucesso no Mundo” de regimes com esta ideologia.

Apesar de já não ser secretário-geral do PCP, Cunhal mantinha influência no partido e, em reunião do Comité Central, expôs a existência de membros que defendiam renovação do partido. Depois do encontro, Carlos Brito regressou a Alcoutim, onde tinha crescido, e enviou ao secretariado comunista aquela que ficou conhecida como “carta-bomba”. Nela apelava ao abandono do leninismo e defendia um “regresso a Marx”, exigindo uma “profunda democratização” do partido. A partir desse momento, passou a ser tratado como um inimigo da direção. Meses mais tarde, demitiu-se do Comité Central.

Em 2002, em conjunto com Carlos Luís Figueira e Edgar Correia, foi alvo de uma sanção disciplinar pelo PCP. Mas, enquanto estes dois foram expulsos, Carlos Brito foi suspenso por 10 meses. Terminado esse período autosuspendeu-se como militante e assim ficou até ao fim da sua vida. Criou oficialmente um movimento dos renovadores comunistas, em que assumiu o cargo de presidente do Conselho Nacional. Também regressou ao Algarve, onde foi autarca e se dedicou à escrita, tendo publicado livros de ficção, poesia e memórias. Foi agraciado pelo amigo Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1997, e com a Ordem da Liberdade, grau de Grande-Oficial, em 2004.

António José Seguro, José Luís Carneiro e José Manuel Pureza lamentaram o desaparecimento de Carlos Brito. Os bloquistas vão, de resto, propor um voto de pesar no Parlamento. No Observador, Arménio Carlos, ex-dirigente do PCP e antigo líder da CGTP, recordou Brito como um “homem que lutou pela liberdade, pela democracia”, elogiando-o como alguém que “nunca deixou de afirmar publicamente as suas posições pela liberdade e democracia”.

Também no Observador, e mesmo assumindo que houve um afastamento entre os dois, José Jorge Letria referiu-se a Brito como “um guerreiro resistente à ditadura e à mediocridade que depois se foi apoderando de muitos aspetos e áreas fundamentais da nossa democracia”.

https://observador.pt/especiais/carlos-brito-1933-2026-o-historico-comunista-que-rompeu-com-cunhal-para-se-afastar-de-lenine/