“Ganadarias são templos que tornam possível a existência da arte do toureio”, escreve lapidarmente Ándrés Amorós logo na primeira página do seu prefácio, e, de facto, a Herdade da Galeana, na margem esquerda do rio Guadiana — na posse da família Grave desde 1939, que a adquiriu a Casimira Fernández Soler —, ganhou tão altos créditos na afición espanhola que os sete textos iniciais deste álbum espelham com especial brilho a “justa fama” (p. 8) que o toiro bravo ali criado alcançou junto das “grandes figuras do toureio” e de “especialistas das divisas duras”.
Ruíz Miguel, Victor Mendes e Tomás Campuzano (1957-) tourearam a pé nada menos que 157 toiros desta ganadaria, nos anos 1990 considerada a melhor de Portugal por consenso dos aficionados. A cavalo, António Ribeiro Telles, Joaquim Bastinhas (1956-2018) e Rui Salvador lidaram 343 “murteiras”… Foi, aliás, com um toiro da ganadaria alentejana que o admirável Manolete (1917-47) alcançou o seu cumbre em 1944, e foi frente a um toiro murteira que Espartaco triunfou na praça de Sevilha. César Rincón (1965-) foi amplamente festejado na praça madrilena de San Isidro em 1995, depois de tourear a pé Gallineto, um dos grandes bovinos da Galeana, vizinhos de genes — e de portal — dos Parladés da ganadaria de Juan Pedro Domecq.
“Nos últimos anos do século XX — escreve Domingo Delgado de la Cámara —, a presença das ganadarias portuguesas era constante e abundante na temporada espanhola e francesa” (p. 20), período em que Joaquim Grave se distinguia como forçado amador de Santarém, sendo ao mesmo tempo um médico veterinário capaz de entender que o aperfeiçoamento genético — cruzando Domecq e Jandilla — potenciaria a escolha dos seus toiros de “investida incansável”, com “alegria e classe”, para a sempre apreciada tauromaquia ibérica e francesa. João Queiroz considera que o patriarca que conduziu a herdade durante 50 anos “foi também um homem de sorte”, pois “ter um filho que dê continuidade à sua obra só pode ser uma Graça” (p. 24), mesmo que preparada ao longo dos anos.
O livro ocupa-se sobretudo desse legado, “de braço dado com Espanha” (p. 36), que chegou até ao turismo ganadero, ou ao simplificado taurismo (p. 185), em que a herdade investiu — como aliás fizeram, na sua especialidade, muitas quintas vinícolas durienses e outras — e a que esta publicação trilingue notoriamente se dirige também. Ainda hoje, sublinha Miguel Ortega Claudio (p. 32), “ao soar do clarim em qualquer praça, quando um toiro Murteira Grave sai a uma arena, entra com ele a sombra nobre do Eng. Grave — e o aplauso, tantas vezes, é também para o criador que sonhou mais alto que o tempo”. E ainda diz: “São dezenas de prémios de melhor corrida em praças de primeira linha. Cada toiro Grave é um emblema de bravura — encastado, nobre e com história nas veias”.
O livro não especifica a autoria das fotografias, em especial aquelas, para lá de magníficas, do montado florido de margaças, saramagos, malmequeres, grisandras e chupa-mel que a possante ganadaria brava — e todo o cuidado parece ser pouco!! — percorre “numa busca contínua de tranquilidade ou de alguma variedade de prado mais rara” (p. 35), mas são elas, em primeiríssimo lugar, que nos dão a medida desta paisagem que, garante Joaquim Grave, “tem sítios que seguramente fizeram parte do paraíso”, e que na primavera e nos crepúsculos da tarde preferidos pela maioria dos registos imagéticos — o “folgado horizonte” do verso dum poema familiar — alcança tonalidades cromáticas dignas dum “Reino Maravilhoso” (p. 45). “É por isso que vivo aqui”, afirma o ganadeiro, “porque na Galeana a vida nunca acaba e em sonhos o homem é livre e eterno. Viver na Galeana é sentir o toiro por toda a parte, o toiro que me dá uma vida maravilhosa que aproveito intensamente, porque também sei que, a qualquer momento, ele pode tirar-ma…” (p. 64).

Galeana é, além disso, e sobretudo muito antes disso, o nome duma lendária princesa de Toledo, jovem belíssima de olhar melancólico, cabelos e olhos negros e brilhantes como o azeviche e pele aveludada — “la mora más celebrada | de toda la morería” (são versos de Cristóbal Lozano, 1609-67) — que Carlos futuro Magno (748-814 d. C.) seduziu e levou para França.
Esta é sem dúvida uma história familiar a década e meia de se tornar centenária, de devoção à criação e lida de toiros, também feita com o pessoal da herdade, que Joaquim Grave refere um a um com extraordinário apreço (“Chico Mendes, toureiro único, feito na Galeana, que nas tentas toureava como os anjos, como eu nunca tinha visto!”, p. 54), mas também com tantos quantos vieram de longe e em tertúlias à lareira desdobraram histórias de tauromaquia, sendo o toiro alvo de fascínios vários desde a Antiguidade — “totem dos campos, relâmpago de fúrias, símbolo da virilidade cósmica, sagrada e humana”, como Grave escreve à p. 140. “O toiro de lide é o único animal silvestre que vive num habitat privilegiado” (p. 83), os amplos espaços de um território vigiado e melhorado pelo homem, o que, desde o século XVII, lhe confere larga precedência sobre quaisquer reservas para fauna selvagem e o “estatuto singular de animal oficialmente doméstico, mas não domesticado e que permanece selvagem” (p. 83).
A Ganadaria Murteira Grave, fundada em 1944, começou por utilizar um ferro com a letra G, e a sua estreia oficial deu-se em 1950, na praça de toiros de Évora, terra natal do proprietário, pelas festas de São Pedro, a 29 de junho. O ferro representando uma espora, originalmente da ganadaria Guardiola Fantoni, foi adotado depois de em 1958 Joaquim Murteira Grave lhe ter adquirido vacas e um semental. Ambos os ferros estão presentes na entrada da Herdade. Logo na estreia em Espanha, dada em Cáceres e Madrid, em Abril e Setembro de 1963 (cartazes na p. 107), classificada segundo uma revista da especialidade como “seis toiros de antologia”, “doze cornos sem piedade” e “seis animais sacados do primeiro tomo de El Cossío”, a “Bíblia taurina” publicada em 1943.
Em 1971, a cabeça embalsamada do toiro Pianista n.º 465 foi oferecida ao rei D. Juan Carlos de Bourbón, e os quatro anos que se seguiram foram de franca afirmação em praças espanholas e francesas. Logo depois veio a ocupação comunista da Galeana, entre Novembro de 1975 e Fevereiro de 1979, “um período difícil da ganadaria em que os seus proprietários foram impedidos de gerir qualquer aspeto da mesma” (p. 110), mas a volta por cima seria dada com especial garbo nas décadas seguintes, com o pleno êxito na monumental madrilena de Las Ventas, em particular nos anos 1984 e 1988, em Pamplona em 1986 e 1987, mas também nas praças de Málaga, Córdoba e em muitas outras. No topo do cômputo geral das praças em que a ganadaria mais lidou até finais de 2025, está Évora, com 374 toiros, seguida por Madrid com 338 e Lisboa com 292. Com 2441 lides, Portugal ganha claramente a Espanha, que teve 1411, e absolutamente a França, com apenas 133 lides (v. p. 135).
Os mayorales Júlio Conde, Silvestre e Joaquim Galhofas e Elson Faleiro Mateus são evocados neste contexto, porque o trabalho quotidiano com a ganadaria depende diretamente dessa arte de serviço nos campos, e da assistência dum veterinário, o “excelente” (sic) Antonio Albarrán. Depois do PREC, o trânsito de toiros bravos para Espanha e França foi impedido ou dificultado por motivos sanitários a partir de 1999, forçando Joaquim Grave, que herdou a Galeana em 2002, a sair da Estação Zootécnica Nacional, no Vale de Santarém, onde trabalhava como investigador, para se dedicar inteiramente à herdade no Baixo Alentejo, à recuperação económica e ao melhoramento genético da ganadaria, em suma “à tarefa apaixonante de criar o toiro bravo com que sempre sonhei” (p. 129).
Um novo tentadero, mais perto da casa, foi construído em 2020-21 como resposta audaciosa à brutal ameaça financeira da pandemia de covid-19 (não poder vender toiros nem receber visitantes), recebendo em 2023 o nome de Paco Mendes (1932-2023), em louvor do toureiro português “e melhor amigo da nossa família” (p. 161), que acabou os seus dias em Madrid. Outra homenagem à arte tauromáquica — e expressão das relações internacionais da ganadaria Murteira Grave — havia sido concretizada em Abril de 2019, com a inauguração da escultura em bronze e tamanho natural do colombiano Manuel Fernando Riveros Dueñas sobre o toureio a pé (v. p. 119).
Os esforços de recuperação da Murteira Grave terão apoteótica confirmação na arena de Azpeitia (no País Basco), com Elson Mateus, Joaquim Grave e o empresário Joxin Iriarte levados aos ombros a 2 de Agosto de 1924, depois de uma corrida toda premiada e o primeiro indulto da ganadaria (foto p. 145), e logo a 17 do mesmo mês, em Málaga, onde recebeu o prémio da corrida mais brava da feira. Mas também expressa na preferência de novos toureiros por toiros da ganadaria, como o cavaleiro João Moura Júnior (1986-), que “em 2023 lidou 12 toiros da casa, marca nunca atingida por nenhum outro toureiro numa só temporada” (p. 148).
Belíssima edição, que pode servir de estímulo a outras histórias familiares guiadas pelo mesmo sonho da excelência — histórias que ainda estão por contar (em livros também com tradução incluída).