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Morreu a cantora Bonnie Tyler. A voz de "Total Eclipse of the Heart" tinha 75 anos

Voz de alguns dos maiores êxitos da década de 80 e a viver no Algarve há vários anos, a artista galesa estava internada no hospital de Faro desde o início de maio.

António Moura dos Santos
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Bonnie Tyler morreu esta quarta-feira à noite, aos 75 anos. A notícia foi confirmada pelo management e pela família da cantora através do Facebook. A artista galesa encontrava-se internada no hospital de Faro desde 30 de março devido a uma apendicite que entretanto piorou e resultou numa perfuração do intestino. Tyler começou a sentir desconforto enquanto dava um concerto no Reino Unido, situação que se agravou quando regressou para Portugal, onde vivia desde 1988.

Uma publicação feita a 6 de maio na sua conta oficial de Facebook dava conta de que tinha sido submetida a uma “cirurgia intestinal de emergência” na Unidade de Cuidados Intermédios do Serviço de Urgência do Hospital de Faro. “A cirurgia correu bem e ela encontra-se agora em recuperação. Sabemos que toda a sua família, amigos e fãs ficarão preocupados com esta notícia e desejarão que ela tenha uma recuperação rápida e completa”, lê-se na nota. Foi inclusivamente noticiado que Tyler se encontrava em situação estável.

No entanto, no dia seguinte, a representação oficial da artista adiantou que Tyler tinha sido colocada em coma induzido para ajudar à sua recuperação, sendo que o Correio da Manhã avançou que tinha sido levada para os Cuidados Intensivos e que o seu prognóstico era muito reservado. O cenário agravou-se pouco depois, com notícias de que a cantora tinha sofrido uma paragem cardiorrespiratória. Em meados de junho, Tyler saiu do coma, mas o estado de saúde manteve-se grave, obrigando-a a permanecer internada, como adiantou a família a 15 de junho.

As semanas foram passando sem atualizações de maior quanto à recuperação de Tyler, até que foi comunicado esta quinta-feira que a cantora tinha morrido. “A família e a equipa da Bonnie estão profundamente tristes por anunciar que a Bonnie faleceu inesperadamente ontem à noite num hospital em Portugal, como resultado da doença para a qual estava a ser tratada”, lê-se numa publicação na conta oficial de Facebook da artista. “Emitiremos um comunicado mais detalhado em breve, mas, por agora, pedimos que respeitem a nossa privacidade para que possamos lidar com esta tragédia”, pede a nota.

Morre assim a voz inconfundivelmente rouca responsável por temas como It’s a Heartache, Holding for a Hero e, em particular, Total Eclipse of The Heart, “power ballad” de 1983 que ultrapassou mais de mil milhões de streams no Spotify e de visualizações no Youtube — e que mantém ainda hoje o seu estatuto perene enquanto uma das mais icónicas canções dos anos 80.

Apesar de já ter deixado a fase de maior sucesso para trás, Tyler mantinha ainda um nível de atividade assinalável, continuando a dar concertos. Aliás, a cantora tinha datas marcadas para o final de maio em Malta e na Alemanha, e estava previsto que fizesse uma digressão a partir de junho pela Europa para celebrar os 50 anos do seu single de estreia, Lost In France.

Um mal que veio por bem

Nascida a 8 de junho de 1951, Tyler cresceu numa casa de habitação social em Skewen, localidade no sul do País de Gales, com mais três irmãs e dois irmãos, filhos de uma dona de casa e de um mineiro veterano da Segunda Guerra Mundial. “Desde que lancei o meu primeiro álbum de sucesso, tenho conseguido ajudar a minha família financeiramente. Comprei uma casa aos meus pais”, afirmou com satisfação ao The Guardian em 2013.

Bonnie Tyler, todavia, não é o seu nome de batismo. A cantora nasceu Gaynor Hopkins e nos primórdios da carreira seria ainda Sherene Davis, até que optou pelo nome que lhe traria fama. Antes disso, a artista, filha de uma mulher que cantava desgarradamente enquanto tratava das lides da casa, habituou-se a imitar Janis Joplin e Elvis Presley em frente ao espelho. Aos 17 anos, uma tia inscreveu-a num concurso local de talentos. “Cantei Can’t Stop Loving You, do Elvis, e fiquei em segundo lugar, o que me deu confiança para começar a integrar bandas. Não me importei de ficar em segundo, mas não fiquei contente por ter ficado atrás de um acordeonista”, admitiria à revista Louder.

A partir daí, lançou-se na música, integrando o circuito de pubs e clubes no País de Gales a cantar para várias bandas. Fê-lo durante sete anos até que a sorte bateu-lhe à porta e por acaso. “Fui descoberta por acaso em 1975 pelo [caça-talentos] Roger Bell, que me viu numa discoteca. Ele tinha vindo de Londres para ouvir o rapaz que estava a cantar no andar de cima. Felizmente para mim, ele entrou no andar errado e ouviu-me. E quando voltou para Londres, falou de mim. Eu estava a cantar Nutbush City Limits. A Tina Turner inspirou-me imenso”, contou à mesma publicação.

O feliz encontro resultou num convite à capital inglesa para gravar uma demo, levando-a a sonhar mais alto, mas teve de preparar-se para o pior. “Não tive notícias deles durante dois anos. Pensei que, obviamente, não tivessem gostado”, revelou ao The Guardian. No entanto, ao fim dessa espera, recebeu uma chamada da RCA e em 1977 saíria o seu álbum de estreia, The World Starts Tonight.

Apesar de bem recebido pela crítica e de colocá-la no radar com Lost in France, o disco não teve grande impacto comercial. Pior ainda, ao fim de anos a esforçar a voz a cantar seis noites por semana em pubs enfumaçados, foram-lhe detetados nódulos nas cordas vocais. “Pensei que a minha carreira tinha acabado. Ficaram bastante grandes, por isso tive de fazer uma operação para os remover. Não se deve falar durante seis semanas após a operação, mas achei isso muito difícil, porque sou um pouco tagarela. Tentei não falar, mas quando não se pode falar, não se pode sair [de casa]. Depois de ter algum sucesso, se sairmos e não falarmos com ninguém, as pessoas vão pensar: ‘Meu Deus, quem é que ela pensa que é?’ Teriam pensado que eu tinha a cabeça inchada. Um dia, gritei de frustração, depois voltei ao especialista e ele disse que tinha danificado a minha voz e que demoraria seis meses a recuperar”, admitiu numa outra entrevista ao jornal britânico.

Como acontecera antes na sua carreira, este foi, na verdade, um mal que veio por bem. Depois de recuperada, quando regressou ao estúdio para gravar, descobriu que a sua voz naturalmente rouca tinha ganho ainda mais textura e garra. “Afinal, perder a voz não foi assim tão prejudicial para mim — tive o meu primeiro sucesso na América com a minha nova voz rouca em It’s a Heartache. Outras três raparigas tinham gravado a canção antes de mim e não teve sucesso nenhum na América, por isso talvez a minha voz rouca fosse o que aquela canção, e a minha carreira, precisavam”, afirmou.

https://www.youtube.com/watch?v=bEOl38y8Nj8&list=RDbEOl38y8Nj8&start_radio=1

Essa canção, integrada em Natural Force (de 1978), seria o seu primeiro grande êxito à escala internacional, vendendo cerca de seis milhões de cópias como single. Até aos anos 80, lançaria mais dois álbuns onde o seu ímpeto começou a desvanecer. Tudo mudaria, no entanto, em 1983.

A canção que eclipsou todas as outras

Após terminar contrato com a RCA, Bonnie Tyler assinou com a Columbia e, com a mudança de editora, quis também alterar o estilo musical que cantava. Não sendo compositora, tinha até então dependido da dupla Ronnie Scott e Steve Wolfe, que a levaram para os meandros do country e do soft rock. Com a chegada em força das lacas e das permanentes, do spandex e do excesso da nova década, a artista quis ser mais rock e foi à procura do homem que melhor representava o género em todo o seu glorioso excesso: Jim Steinman. “Mudou a minha vida”, admitiria a cantora.

Compositor e produtor, o norte-americano tinha sido o cérebro por trás do disco de estreia de Meat Loaf, Bat Out of Hell, ópera rock de 1977 de uma verve barroca até então pouco vista na cultura popular e que se repercutiu num sucesso estrondoso. “Muff Winwood, o diretor de A&R da CBS, perguntou-me: ‘Então, com quem gostarias de trabalhar?’ Eu respondi: ‘Bem, adoro quem quer que seja que esteja a compor para o Meat Loaf.’ Eu sabia que era capaz de interpretar esse tipo de canções. O Muff riu-se de mim: ‘Oh, Bonnie, só podes estar a brincar. Ele nunca vai aceitar.’ Eu disse: ‘Não se sabe até perguntar’. E eles perguntaram-lhe”, contou Tyler.

Steinman aceitou encontrar-se com a cantora e, se de início teve algumas dúvidas, rapidamente ficou convencido ao ouvi-la. “O Jim gostou da minha voz, por isso, três semanas depois, o meu agente e eu fomos ao seu apartamento com vista para o Central Park, em Nova Iorque. Voltámos para casa eufóricos – tínhamos conhecido o Jim Steinman! – e, três semanas depois, ele chamou-nos novamente. Ele tocou o piano de cauda enquanto o Rory Dodd cantava Total Eclipse of the Heart. Percebi imediatamente que era uma canção incrível”, assume.

https://www.youtube.com/watch?v=lcOxhH8N3Bo&list=RDlcOxhH8N3Bo&start_radio=1

Mais uma vez, Tyler viu-se afortunada com uma vantajosa coincidência: Meat Loaf, que seria o mais natural destinatário desta música, encontrava-se ele próprio a lidar com problemas de voz, pelo que Total Eclipse of the Heart foi-lhe dada a si. “Claro que conheci o Meat Loaf – e ele ficou mesmo furioso por o Jim me ter dado aquela canção! Ele disse: ‘Essa canção era para mim!’ e eu respondi: ‘Azar, agora é minha’”, revelou a cantora ao The Telegraph por ocasião dos 40 anos do tema.

Concebida para acompanhar uma versão musical de Nosferatu, de FW Murnau, Total Eclipse of the Heart manteve no seu ADN o drama e o exagero românticos de uma história de vampiros, resultando numa das mais icónicas baladas dos anos 80, ainda hoje um clássico no repertório do karaoke. O tema fez disparar Faster Than the Speed of Night — álbum de 1983 inteiramente arquitetado por Steinman — para o topo dos escaparates, sendo que tanto o disco como a canção chegaram a número um nas tabelas. O compositor, que temia que esta música não fosse um êxito por ter sete minutos, editou uma versão de quatro para passar nas rádios e na televisão. Não seria necessário, porque o fenómeno foi de tal ordem que foi o original não diluído a vingar.

https://www.youtube.com/watch?v=bWcASV2sey0&list=RDbWcASV2sey0&start_radio=1

Para Tyler, seria o espoletar de uma carreira internacional — foi das primeiras artistas ocidentais a cantar na União Soviética, por exemplo —, o reconhecimento por fim da indústria (recebeu duas nomeações nos Grammys) e a garantia de que teria uma canção eterna. No entanto, foi também um pico que nunca mais seria capaz de atingir. Seguiram-se outros êxitos como Here She Comes, gravada com Giorgio Moroder, e Holding out for a Hero. Esta, resultado de nova parceria com Steinman, foi a última canção sua a chegar a platina; gravada para o filme Footloose, seria o principal single do álbum seguinte, Secret Dreams and Forbidden Fire, não sendo ainda assim capaz de traduzir-se no mesmo sucesso.

Mesmo depois dos tempos áureos nos anos 80, Bonnie Tyler nunca parou de cantar ou gravar. Ao longo da vida lançou 18 discos, o último dos quais The Best Is Yet to Come, de 2021. Já em abril deste ano, tinha editado One World One Home, canção que veio a figurar no documentário Homeless. Foi Total Eclipse of the Heart, ainda assim, o maior garante de longevidade da sua carreira. Em 2017, por exemplo, foi convidada para cantar o tema num cruzeiro com a banda DNCE durante o eclipse solar total que ocorreu sobre o céu da América do Norte no dia 21 de agosto desse ano.

A sua tenacidade e impacto valeram-lhe ser feita Membro da Ordem do Império Britânico em 2022, nas derradeiras honras concedidas por Isabel II antes da sua morte. Antes, já tinha sido agraciada no País de Gales com um Honoris Causa em Letras pela Universidade de Swansea, instituição muito próxima da sua terra natal.

Algarve, a região pela qual Tyler se apaixonou

Criada junto ao mar, a artista descobriria no decurso da sua vida um outro lar costeiro, se bem que com um clima bem mais ameno. Foi no final dos anos 70, quando Bonnie Tyler fez as malas para a estância turística de Vale do Lobo, no Algarve, para gravar o seu quarto disco, Goodbye to the Island, o último a ser lançado pela editora RCA. “Trabalhávamos o dia todo e depois íamos aos pequenos restaurantes na praia que serviam comida até tarde. Não há nada melhor do que frango piripiri grelhado numa cabana na areia. Tão simples, mas tão perfeito.”, contou ao The Times.

O impacto que a região portuguesa deixou na cantora foi tal que, pouco tempo depois, ela e o marido — Robert Sullivan, antigo campeão olímpico de judo e promotor imobiliário com quem esteve casada até à morte, durante mais de 50 anos — compraram “uma villa totalmente mobilada na estrada entre Albufeira e Vilamoura”. Foi assim que o casal passou a ter como rotina sazonal viver seis meses em Portugal.

Ao longo das décadas, Sullivan e Tyler acumularam um extenso portefólio de propriedades imobiliárias em locais como a Nova Zelândia e a Inglaterra, mas o Algarve nunca deixou de ser um porto seguro. Tanto é assim que, em meados da década de 2010, mandaram demolir a villa para criar uma residência mais moderna. “Demolimos a casa e contratámos um arquiteto espanhol para projetar uma casa de última geração, com janelas amplas e um grande terraço, para que pudéssemos desfrutar das vistas para o mar. Portugal é um paraíso”, afirmou ao mesmo jornal.

Foi na sua mansão reconstruída que, afirmaria em entrevista, aprenderia a nadar em 2020, aproveitando o confinamento causado pela pandemia. “Durante todos estes anos, tive medo de nadar. Uma vez caí do meu barco e quase me afoguei, mas agora sei nadar, graças à Covid”, admitiu. Foi também no Algarve onde adquiriu o “Angel”, um iate com quase 16 metros de comprimento e flybridge atracado em Vilamoura e com o qual levava amigos e familiares a passear com regularidade. “O nosso local preferido é uma pequena ilha junto a Faro, chamada Ilha do Farol. Tem uma praia longa e lindíssima, um farol e não há carros. Quando nos apetece uma aventura, navegamos até Sagres. De vez em quando, somos acompanhados por golfinhos. Uma vez, tivemos 11 deles a nadar mesmo ao lado do barco, a saltar acima da água. Foi uma verdadeira alegria ver aquilo”, revelou.