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(A) :: Rosario Villajos e a (demasiado) longa viagem de Catalina

Rosario Villajos e a (demasiado) longa viagem de Catalina

"A Educação Física" é uma história de desconfiança face aos adultos, de uma adolescência espanhola em meados dos anos 90, de uma fuga a caminho de algum tipo de epifania.

João Pedro Vala
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Em A Educação Física — terceiro romance de Rosario Villajos e vencedor da edição de 2023 do prémio espanhol Biblioteca Breve —, narra-se a história de Catalina, uma jovem de dezasseis anos que, em meados dos anos noventa, foge de casa da melhor amiga depois de ser beijada à força pelo pai desta. A fuga abrupta coloca-a num impasse que ocupará a narrativa inteira, entre regressar a pé dos arredores da cidade onde vive, o que a faria violar o rigoroso recolher obrigatório imposto pelos pais à filha (mas nunca ao irmão mais velho desta), ou arriscar-se a pedir boleia, ignorando assim a recente história trágica de três meninas da sua idade que acabaram violadas e mortas em consequência de uma viagem nesses moldes e que serve agora de refrão à ladainha dos receios dos adultos.

Ao longo da história, Rosario Villajos sublinhará diversas vezes que a ilação extraída de tragédias semelhantes é invariavelmente a da culpa feminina por se porem a jeito de cair nas garras de homens que se limitam a agir em conformidade com a sua natureza. Ainda que Catalina consiga em vários momentos entrever o absurdo desta premissa, também ela, quase sempre de forma subconsciente, acaba por se ver presa nesta narrativa milenar que lhe vai sendo imposta, como percebemos, por exemplo, quando o seu abusador, apanhando-a sozinha, lhe pergunta se ela gosta de alguém da turma dela. Catalina responde-lhe que não, mas, logo a seguir, “sente-se consumida pela culpa porque um segundo depois acrescentou: ‘da minha turma não'”, como se esse acrescento validasse tudo o resto.

Até mesmo o nome de Catalina, uma aluna empenhada e que desde cedo se interessa pela cultura clássica, parece, em certa medida, parte do problema, visto que este significa “pura” e “imaculada”, criando-se assim uma expectativa de obediência a um nome que lhe foi imposto e a que a jovem não consegue nem deseja corresponder. “Deveria ser ao contrário, diz agora a si mesma: primeiro ser-se quem se é e depois deixar que o nome dê forma a um adjetivo, como do deus Eros resultou erótico e da fiadeira Aracne, aracnídeo.”

A Educação Física é na badana, num excerto extraído de uma recensão no El Pais, comparado a J.D. Salinger e, presumivelmente, ao seu mais célebre romance, À Espera no Centeio. A comparação só faz sentido de um ponto de vista meramente formal, e por isso bastante desinteressante: Holden e Catalina partilham a mesma idade, desconfiam dos adultos e a sua história é a de uma peregrinação solitária, sendo que no caso de Holden se trata de uma viagem sem rumo durante as férias de Natal, para longe dos seus, ao passo que a de Catalina tem como único objetivo chegar a casa antes da hora de jantar.

Se as semelhanças se ficam por aqui, as diferenças saltam muito mais à vista e são decisivas. A história de Holden é narrada pelo próprio e a de Catalina é vista de fora, mas, muito mais importante do que isso, Catalina nunca poderia ser Holden porque Catalina é uma mulher. Ora, o intuito de Rosario Villajos neste romance é, evidentemente, o de mostrar que essa diferença biológica implica uma compreensão da vida e dos perigos do mundo que é simultaneamente inacessível aos homens e universal para as mulheres, sendo A Educação Física uma tentativa de articulação de uma incomunicabilidade, que sai reforçada, pelo menos no contexto dos anos noventa em que o romance está imerso, através do silêncio que as próprias mulheres impõem a si mesma e às suas semelhantes, a que acresce uma total ausência de sororidade ou de protestos sobre a sua condição, sempre substituídos por críticas constantes àquelas que fogem da norma, que são violentadas ao ponto de ficarem com marcas visíveis no corpo ou, por outro lado, que encontram alguma forma de felicidade e equidade conjugal, um raro fenómeno que, em vez de louvado, levanta suspeitas sobre a virilidade dos maridos que consentem tamanhas modernices.

Assim, o romance contemporâneo mais próximo do de Villajos talvez seja antes Lobos, de Tânia Ganho, sendo que a confluência da perspetiva dos dois romances se torna mais saliente pelas constantes metáforas zoológicas, que em Lobos encontramos desde logo no título e em A Educação Física na reiteração de uma dualidade que faz dos homens dobermanns esfaimados e das mulheres um naco de carne, dos homens lobos e das mulheres ovelhas (sendo que a culpa das incursões dos lobos recaem nas ovelhas que se transviaram da guarda do seu pastor), dos homens toureiros e das mulheres um touro, que “apenas se pode defender com o seu próprio corpo, algo que os atacantes consideram ser uma arma perigosa”. Dos homens tubarões, que acorrem ao chamamento do sangue menstrual. Das mulheres éguas e dos homens garanhões.

Todavia, se Catalina é uma personagem bem construída e permite, a partir da sua singularidade, entrever uma certa universalidade da condição humana ou, mais especificamente, da condição feminina e masculina, o romance falha estruturalmente na construção do enredo, uma vez que se, desde a primeira página, Catalina é, como todas as personagens literárias desde Ulisses, uma viajante à procura de um abrigo a que possa chamar casa, a sua viagem por essa estrada fora pedala demasiadas vezes em seco. A história de A Educação Física assenta em dois eixos: o presente e o pretérito, ou, melhor dito, o que está agora a acontecer e tudo o que se passou e trouxe Catalina a este ponto. Se este segundo eixo está bem estruturado, o primeiro é feito de repetitivos retornos à mesma ideia, sempre a apontar para um desfecho que, quando chega, já nos deixou saturados de o esperar, pelo que nada mais nos tem a acrescentar, deixando-nos com a sensação de que nada obstaria a que este romance tivesse menos umas boas dezenas de páginas, visto que, a meio da viagem, começamos a sentir as pernas dormentes e a perguntar teimosamente ao condutor no banco da frente: Ainda falta muito?