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(A) :: Aniversário do Rei Carl Gustaf da Suécia reuniu "clube dos 80" da realeza europeia e teve desfile de tiaras históricas

Aniversário do Rei Carl Gustaf da Suécia reuniu "clube dos 80" da realeza europeia e teve desfile de tiaras históricas

Rei da Suécia reuniu família, monarcas e rainhas eméritas. Silvia brilhou com tiara de Bragança, ligada a D. Pedro IV, e Sofia de Espanha com histórica Concha Mellerio. Victoria fez discurso emotivo.

Sâmia Fiates
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Primos, amigos e autoridades vindos dos países vizinhos mas também de reinos tão distantes quanto a Espanha ou a Tailândia. A 30 de abril o aniversário de 80 anos do Rei Carl Gustaf da Suécia, assinalado com um dia inteiro de celebrações em Estocolmo, reuniu o chamado “clube dos 80” da realeza europeia, composto pelos membros mais antigos das casas reais, como o Rei Harald V da Noruega, a princesa Beatriz dos Países Baixos ou as Rainhas eméritas Margarida da Dinamarca e Sofia de Espanha; num jantar com vestidos de gala e joias históricas, como a tiara de Bragança usada pela Rainha Silvia, que se entrelaça com a história da família real portuguesa.

As comemorações começaram logo pela manhã, com uma celebração religiosa na capela do Palácio Real de Estocolmo. Do lado de fora uma multidão já aguardava o início das homenagens públicas, com momentos de honras militares, e a entrega simbólica de flores oferecidas por crianças ao Rei. Carl Gustaf esteve sempre na companhia da família. A princesa Victoria, com o marido, Daniel, e os três filhos, Estelle, de 14 anos, e Oscar, de 10; o príncipe Carl Philip com a mulher Sofia e os filhos Alexander, de 10 anos, Gabriel, de oito, Julián, de cinco e Inês, de um; e a princesa Madalena com o marido, Christopher O’neill, e os filhos, Leonor, de 12 anos, Nicolas de 10 e Adrienne, de oito. Da varanda do palácio, a família toda acenou ao público enquanto decorriam as homenagens.

Depois, a família seguiu para o salão da Câmara Municipal de Estocolmo, onde se realiza a entrega dos Prémios Nobel, para um almoço. A viagem foi, simbolicamente, a bordo de um Volvo PV60 do ano de nascimento do Rei, 1946. No banquete também participaram membros da realeza europeia que já haviam se juntado à família real sueca no Palácio Real: o Rei Frederik e a Rainha Mary da Dinamarca e o Rei Maha Vajiralongkorn e a Rainha Suthida da Tailândia.

Os monarcas da Dinamarca viajaram à Suécia a bordo do iate Dannebrog, também na companhia da Rainha Margarida, que se juntou ao grupo à noite no jantar, assim como a família real norueguesa: Harald V e Sonja, na companhia do filho, Haakon, que viajou sem a mulher, Mette-Marit, que enfrenta um período complicado com a sua situação de saúde a declinar e o filho prestes a receber o veredicto em quatro casos de violação, e subiu a bordo do iate Norge já em Estocolmo.

Pelas 18h30 o grupo seguiu para o jantar no Salão de Estado do Palácio Real de Estocolmo. A Rainha Mary da Dinamarca apostou num dos looks mais ousados da noite, um vestido floral de dois criadores dinamarqueses que costuma vestir com frequência, Soeren Le Schmidt e Birgit Hallstein, depois de durante a tarde ter usado uma peça Dior. Na cabeça, trazia uma joia de família: um bracelete convertido em tiara que pertenceu à Rainha Luisa da Suécia. Já a Rainha Mathilde, da Bélgica, levou um vestido longo com aplicações de renda em laranja da Armani Privé, enquanto a Grã-Duquesa do Luxemburgo, Stephanie, apostou num vestido com capa azul claro da Natan Couture, que combinou com uma tiara de águas-marinhas.

A tiara de Bragança de Silvia e a “La Chata” de Sofia

As tiaras, aliás, foram protagonistas nesta noite, com especial destaque para a peça usada pela Rainha Silvia. A combinar com o vestido de seda vermelho, a mulher de Carl Gustaf levou a tiara Bragança, também conhecida por tiara Brasileira, a mesma que usou na fotografia oficial divulgada no início do ano. “Foi um presente de D. Pedro IV — I do Brasil — para a Imperatriz Amélia de Leuchtenberg, quando ela se casou com ele e foi ser a segunda Imperatriz do Brasil, em 1829”, explica ao Observador Cláudia Thomé Witte, biógrafa de Amélia. “Quando D. Pedro abdica do trono no Brasil e vem para a Europa, os dois trazem essa peça com eles e ela é colocada num banco em Londres, como garantia para o empréstimo que é necessário fazer para poder armar a frota de navios com a qual D. Pedro vai partir dos Açores e chegar em Portugal, em 1832, já no contexto das guerras liberais. Depois do final das guerras, em 1834, com a vitória dos liberais, as joias em Londres são resgatadas e isso volta para as mãos da Imperatriz Amélia. Ficam com ela pelo resto da vida — a filha morre muito jovem, não tem descendentes, então essa tiara continua junto com as outras, com a Imperatriz Amélia”.

Foi no final do século XIX que a tiara entrou na família real sueca, explica a investigadora, que encontrou documentos que comprovam a origem da peça tanto no Brasil como em Vila Viçosa, em Portugal. “Quando ela morre, em 1873, várias joias dela são distribuídas entre parentes: Dona Maria Pia, D. Luís, D. Pedro II do Brasil, família na Alemanha, etc. Mas, essa joia em especial e os outros brilhantes imensos que ela ganha de D. Pedro, o colar, os brincos, o alfinete, todo esse conjunto de diamantes, ela deixa para a irmã dela, a Rainha Josefina, a Rainha Mãe da Suécia“, conta Cláudia Thomé Witte, que recorda ainda a relação da realeza sueca com Portugal. “Junto com os diamantes, a Casa Real Sueca também fica responsável pelas obras de caridade que ela conduzia aqui em Portugal, principalmente o Hospital do Funchal, que é a Fundação Princesa Dona Maria Amélia, que existe até hoje com outras atividades.”

Quem também escolheu uma tiara histórica para a ocasião foi a Rainha emérita Sofia de Espanha. Prima do Rei Carl Gustaf, a mãe de Felipe VI representou a coroa espanhola com um vestido Alejandro de Miguel em crepe de seda num tom azul claro e aplicações de pedras, joias de diamantes brancos e amarelos da sua coleção pessoal e a tiara Concha Mellerio, a mesma que usou no casamento da princesa Victoria da Suécia com o príncipe Daniel em 2010. A peça, de 1867, pertenceu à Rainha Isabel II de Espanha, que a ofereceu à filha, a Infanta Isabel de Bourbon, também conhecida por La Chata, que levou a joia escondida a Paris na altura do exílio e assim a peça passou de geração em geração. Sofia recebeu a tiara como presente de casamento dos sogros, os Condes de Barcelona, em 1962. Composta por sete pérolas pendentes e doze diamantes intercalados, representa o mar e o vai e vem das ondas, com a sua espuma.

Reunião do “clube dos 80”

Aos 87 anos, Sofia é uma das mais rainhas mais longevas na Europa, ao lado de nomes como a Rainha Margarida da Dinamarca, que tem 86 anos, e Beatriz dos Países Baixos, com 88 anos — todas mulheres que já passaram pelo trono, mas agora ocupam um papel emérito dentro das respetivas casas reais. Atualmente o monarca mais velho em exercício é o Rei Harald V, que completou 89 anos em fevereiro, permanecendo no posto mesmo tendo enfrentado alguns problemas de saúde no início do ano. Juntos pertencem ao popularmente chamado de “o clube dos 80” da realeza europeia — que continuam a reforçar o papel da monarquia nos seus países ao participarem de eventos institucionais ao lado de outros membros da família, mesmo com o avançar da idade.

A presença, aliás, foi destacada na fotografia oficial com os convidados de honra de Carl Gustaf — sentaram-se todos na fila da frente, mostrando a sua importância na hierarquia desta “grande família”. Já dentro do salão principal, a princesa Victoria, herdeira ao trono sueco, fez um discurso em que valorizou aquilo que aprendeu com o pai. “O mais importante que nos transmitiu é o respeito e a humildade ante a missão: servir a Suécia. Farei todo o possível para que esta mensagem siga adiante”, disse, descrevendo o Rei como um homem “que não sabe parar quieto”, mas que com os anos tem aprendido a relaxar e desfrutar de pequenas alegrias, como sentar e ler um livro.

No seu discurso, Carl Gustaf também comentou a própria idade, com algum senso de humor. “Completar 80 anos convida à reflexão, mas revela também alguma surpresa por quão rápido o tempo passa… Envelhecer tem ao menos uma vantagem: movo-me com graça e estilo, a um ritmo digno. Aliás, poderia até dizer que majestosamente! O que antes era o futuro logo será o passado. Quem saberá o que terei descoberto quando fizer 100 anos?” Nas suas palavras, o Rei destacou ainda a celebração das bodas de ouro, a 13 de junho, e agradeceu a mulher, os filhos e à família, já com os olhos marejados. “O vosso amor e apoio significam tudo para mim. São a minha segurança, força e a minha maior alegria”.