O “Fan ID” não é inovação, não é modernidade e muito menos representa uma revolução civilizacional na forma como o futebol se organiza. Pelo contrário, é apenas a mais recente tentativa de reembalar uma velha obsessão contemporânea de controlar, identificar e condicionar comportamentos em nome da segurança.
Convém começar por reconhecer algo importante: as preocupações com segurança são legítimas. Quem governa o futebol – clubes, Liga, autoridades e Estado – tem a obrigação de prevenir a violência, proteger os adeptos e garantir condições para que as famílias possam ir ao estádio com tranquilidade, porque negar isso seria intelectualmente desonesto. Contudo, reconhecer a legitimidade do problema não implica aceitar automaticamente qualquer solução proposta para o resolver.
No entanto, após o falhanço político e social do Cartão do Adepto, percebeu-se que seria impossível ressuscitar a mesma ideia mantendo o mesmo nome. Por isso, Pedro Proença voltou à carga com este tema, mas trazendo uma designação mais internacional, mais tecnológica e mais apelativa para quem acredita que tudo o que surge em inglês parece automaticamente inevitável e sofisticado.
No seguimento disso nasceu o inevitável rebranding: menos “Cartão do Adepto” e mais “Fan ID”, onde existe menos segregação assumida, mais linguagem tecnológica; menos imposição declarada e mais “experiência digital”. No centro da proposta continua, porém, exatamente o mesmo impulso, que é transformar o adepto comum num indivíduo permanentemente identificado, registado e monitorizado para poder exercer algo tão simples como ir ao futebol.
A Europa já percorreu este caminho e o caso italiano é particularmente esclarecedor. Quando a Tessera del Tifoso foi introduzida, entre 2009 e 2010, surgiu envolta no mesmo discurso: segurança, modernização, combate à violência e responsabilidade. Apesar disso, na prática, funcionou como um mecanismo de controlo administrativo sobre os adeptos visitantes.
Sem Tessera, um adepto não conseguia sequer comprar bilhete para o sector visitante em muitos jogos; o resultado foi devastador para a cultura de bancada italiana. Há uma imagem quase simbólica desse período, com a Sampdoria a jogar em Roma perante pouco mais de duas dezenas de adeptos visitantes – não por falta de paixão e por ausência de cultura de apoio, mas porque as instituições decidiram transformar o adepto num potencial suspeito administrativo antes sequer de entrar num estádio. Como quase todas as limitações à liberdade, também esta entrou como exceção temporária e acabou absorvida pela normalidade, apesar da sua flexibilização.
O exemplo que nos chega de Inglaterra demonstra, precisamente, como este tipo de controlo nominal massivo não é inevitável. Nos anos 90, o futebol inglês conseguiu reduzir drasticamente os níveis de violência sem criar qualquer sistema universal de identificação obrigatória, porque se combateu quem cometia crimes, e não a massa indistinta de adeptos. Essa diferença é fundamental.
Portugal já seguiu exatamente este caminho com o Cartão do Adepto e as zonas ZCEAP, mas o resultado foi um fracasso absoluto porque os adeptos recusaram legitimá-lo. E, pela primeira vez em muito tempo, adeptos rivais estiveram do mesmo lado perante uma tentativa evidente de segregação e burocratização da experiência de ir ao futebol.
Foi precisamente o PCP – partido ideologicamente distante da minha visão liberal – o único a defender de forma coerente a revogação total desta arquitectura de controlo. A proposta foi rejeitada: caiu o Cartão do Adepto, mas permaneceram as zonas ZCEAP e a mentalidade securitária que lhes dá origem. Porque o problema nunca foi apenas um cartão, mas sim a filosofia de suspeição permanente sobre quem vai ao futebol.
Antes de se aceitar mais um mecanismo de controlo sobre milhares de cidadãos comuns, existem perguntas que deveriam ser respondidas de forma clara. Quais os dados recolhidos através do “Fan ID”? Quem os irá gerir será a Liga, empresas privadas subcontratadas… o Estado? Durante quanto tempo ficarão armazenados? Quem terá acesso aos dados de deslocação e presença dos adeptos? Existirão cruzamentos com outras bases de dados? E num país onde a proteção de dados é, supostamente, levada a sério, não deveria a Comissão Nacional de Proteção de Dados pronunciar-se sobre a proporcionalidade de um sistema desta natureza?
Existe algo profundamente inquietante na facilidade com que se aceita transformar adeptos de futebol em cidadãos sujeitos a níveis de rastreamento sem paralelo em quase nenhum outro contexto social comparável. Ninguém propõe um “Fan ID” para entrar em concertos, festivais, manifestações políticas ou grandes eventos populares, visto que se tratam de contextos onde também existem multidões, riscos de segurança e incidentes ocasionais. Por que razão é o adepto de futebol o alvo preferencial desta obsessão pelo controlo?
A resposta talvez esteja na forma como o futebol passou a ser olhado por certas elites dirigentes: não como uma expressão cultural popular, espontânea e emocional, mas como um espaço que precisa de ser permanentemente disciplinado, higienizado e administrativamente previsível. O adepto ideal para essas estruturas já não é apaixonado, emocional ou imprevisível. É silencioso, rastreável, digitalizado e obediente.
O problema destas medidas nunca foi apenas futebolístico, mas filosófico. Numa democracia ocidental, a liberdade é o ponto de partida e a restrição a exceção, porém, no futebol moderno, começa a acontecer precisamente o contrário: o controlo transforma-se na regra e a liberdade numa autorização condicionada. Sempre que as instituições começam a tratar a liberdade como um risco administrativo, abre-se caminho para uma cultura política onde o cidadão deixa de ser presumido livre e passa a ser presumido potencialmente perigoso.
Há ainda um paradoxo amplamente ignorado, porque quanto mais se oprime e criminaliza coletivamente os adeptos, maior tende a ser o ambiente de antagonismo gerado em torno do próprio espetáculo. Não existe evidência séria de uma epidemia de violência no futebol português. Existe, isso sim, uma obsessão crescente pelo controlo social e pela normalização da ideia de que qualquer comportamento espontâneo precisa de ser regulamentado, registado e condicionado.
Perante tudo isto, torna-se ainda mais importante perceber não apenas qual será a posição do Benfica, que, pela sua dimensão e peso institucional, tem obrigação acrescida de liderar este debate, como também a do futebol português no seu conjunto. Onde estão os clubes? Por que razão evitam discutir publicamente uma medida com implicações tão profundas na relação entre adeptos e futebol? Será convicção genuína? Pressão institucional da Liga? Medo de represálias? Ou simplesmente a aceitação passiva de uma lógica onde o adepto deixou de ser visto como parte viva do espetáculo para passar a ser encarado como um elemento a gerir e controlar?
O futebol português não tem um problema de violência. Tem um problema de coragem institucional – coragem para dizer não a medidas que já falharam, coragem para defender o adepto comum em vez de o tratar como suspeito e coragem para perceber que um estádio vazio é sempre mais perigoso do que um estádio cheio de pessoas livres.